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13
mai
2017
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PROFISSÃO CERVEJA: As Regras do Jogo

Por Fernanda Meybom, engenheira química, sommelière e Mestre em Estilos e Avaliação de cervejas.

A cada ano observamos o surgimento de mais e mais cervejarias. Números oficiais, divulgados recentemente pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), informam que existem hoje 522 microcervejarias no Brasil. No post anterior, comentei sobre os dados de março de 2016, o número era de 397 microcervejarias, e o estudo estimava alcançar 500 até o final de 2017. Ou seja, não chegamos nem na metade do ano e já ultrapassamos o número estimado para todo ano.

Com tantos produtos novos sendo disponibilizados todos os dias aos consumidores, um destaque em um concurso de cervejas acaba sendo uma porta de entrada em um mercado cada vez mais competitivo. O prêmio é de fato visto como um incentivo ao consumo do produto, não só para o consumidor final, mas também, para profissionais especialistas do mercado cervejeiro. Em um levantamento recente feito pelo jornalista Roberto Fonseca em sua Enquete Melhores da Cerveja de 2016*, 362 dos 511 profissionais que responderam à enquete informaram que já compraram cerveja por ela ter sido premiada. A maioria justificou que o faria num primeiro momento por curiosidade. Ou seja, comprar pelo menos uma vez acontecerá, mas isso não garante a continuidade do consumo daquele produto premiado.

Alguns especialistas citaram que há a desconfiança de que algumas cervejarias mandam lotes especiais para concursos. Ou seja, fazem uma produção especial de produtos somente para enviá-los aos concursos, produção menor e com maior controle de processo e de qualidade. Se isso ocorre mesmo, como alterar as regras do concurso para coibir essa situação? A meu ver não é uma questão de regra, mas de quem participa, não é mesmo?!

Uma forma sugerida seria a compra das cervejas em supermercados e pontos de vendas. Em concursos nacionais, essa logística é praticamente inviável em termos de custos. Além disso, nossa cadeia de transporte, distribuição e armazenamento ainda precisa melhorar, pois a cerveja acaba perdendo qualidade com a falta de cuidados destas empresas com um produto tão sensível. Sem contar ainda que, no caso de cervejas não pasteurizadas, toda a cadeia deve ser refrigerada, e muitas cervejarias mandam seus produtos não pasteurizados para concursos. Desta forma, como considerar justo comprar cervejas em uma única cidade de um país tropical (abençoado por Deus e lindo/quente por natureza) tão grande quanto o nosso e com o serviço de transporte disponível hoje? Acredito que não seria justo com as cervejarias mais distantes do local de realização da avaliação.

Além disso, um grupo destes especialistas da cerveja declarou que já se decepcionou com produtos premiados, afirmando com base em sua degustação pessoal que não acreditavam no merecimento do prêmio. Talvez, se há mesmo essa diferença entre o produto que ganhou medalha com o que consumimos, isso poderia ser um problema de transporte/armazenamento ou de um lote diferente daquele produzido para o concurso ou, ainda, de um produto pasteurizado quando o analisado na competição não era – estou supondo que estas sejam as prováveis razões com base nos relatos lidos na enquete.  E o curioso é que tudo isso pode acontecer dentro das regras da maior parte dos concursos.

Verdade que regras podem ser mudadas, inclusive acredito que é uma atitude inteligente querer aperfeiçoar um trabalho, mesmo já sendo considerado bom. Porém, esta evolução depende da participação dos interessados – das cervejarias, das organizações dos concursos e dos profissionais do mercado cervejeiro, através de feedbacks críticos e conscientes. Mas não são apenas os regulamentos que ditam as “regras do jogo”, o mercado precisa se desenvolver de forma geral, desde o concurso em si, ao controle de processo e qualidade da pequena indústria, ao nosso sistema de logística/distribuição e o nosso amadurecimento profissional para entendermos que nossa Revolução Cervejeira depende de uma atuação organizada e consciente de todos nós, profissionais da cerveja.

 

*A enquete convida diversos profissionais do setor cervejeiro, sommeliers, cervejeiros, juízes BJCP, blogueiros e atuantes do setor para emitirem opiniões sobre os produtos e o mercado. Para saber mais, acesse a página @melhoresdacerveja no Facebook ou o site osmelhoresde2016.wordpress.com.