Caropreso com cerveja — Cervejas com DNA brasileiro

Por Luiz Caropreso, sommelier de cervejas e diretor da Beerbiz.

 

Olá, meus amigos cervejeiros.

Os estilos de cerveja brasileiros são uma expressão da diversidade e da criatividade dos cervejeiros nacionais, que buscam usar ingredientes locais e adaptar receitas tradicionais às preferências do nosso consumidor. Dois exemplos de estilos genuinamente brasileiros são a Catharina Sour e a Brazilian Pale Ale.

A Catharina Sour é uma cerveja de trigo, ácida, leve, de alta fermentação e baixo amargor, que tem como destaque o sabor e o aroma das frutas ou especiarias adicionadas à receita. O estilo nasceu em Santa Catarina em 2015, inspirado na Berliner Weisse alemã, mas com o objetivo de valorizar as frutas tropicais abundantes por aqui. Em 2018, a Catharina Sour foi reconhecida oficialmente pelo guia BJCP como estilo provisório e na última revisão do Guia, em 2021, passou para Local Styles como a primeira Brazilian Style.

A Brazilian Pale Ale é uma cerveja clara, refrescante, de média fermentação e amargor moderado a alto, que tem como característica o uso de lúpulos, leveduras e maltes desenvolvidos no Brasil e que conferem notas aromáticas distintas à bebida. O estilo surgiu em São Paulo em 2020.

Sua primeira versão foi lançada no mercado em 2021 pela Lohn, a cerveja foi batizada de TodaNossa e, nessa ocasião, tive o prazer de degustá-la. Em princípio, seria uma adaptação da American Pale Ale ao terroir brasileiro, mas, na realidade, é uma cerveja de personalidade ímpar. A Brazilian Pale Ale já foi incluída em guias de concursos internacionais, como o World Beer Awards em 2022.

Os criadores desses estilos são cervejeiros artesanais e pesquisadores que participaram dos projetos coletivos para desenvolver as receitas originais. A primeira versão nomeada da Catharina Sour foi uma colaborativa da Cerveja Blumenau com o Liffey Brewpub. Como o estilo começou a fazer sucesso junto ao público, logo outras cervejarias começaram a produzi-lo, como a Lohn Bier, que liderou um grupo de cervejeiros catarinenses para difundir o estilo. Já a primeira Brazilian Pale Ale foi concebida por um grupo de que participaram cervejeiros, pesquisadores e stakeholders da cadeia produtiva.

Um dos responsáveis pelo reconhecimento da Catharina Sour como estilo brasileiro foi Gordon Strong, hoje presidente emérito do BJCP e renomado juiz e autor de publicações sobre cerveja. Ele provou diversas amostras do estilo durante uma visita ao Brasil e ficou impressionado com o frescor, a vibração e a qualidade das Catharina, a ponto de ele mesmo elaborar a descrição do estilo no guia BJCP.

Outro nome importante para a história dos estilos de cerveja brasileiros é René Aduan Jr., biólogo, biotecnólogo, pesquisador e professor da Doemens Akademie. Ele participou do desenvolvimento da Brazilian Pale Ale junto com Richard Brighenti, da Cervejaria Lohn, e profissionais da Malteria Blumenau e da Fazenda Santa Catarina. René contribuiu com sua experiência em leveduras e outros insumos nacionais para criar uma cerveja que refletisse o terroir brasileiro. Vale dizer que a levedura foi coletada, pesquisada e desenvolvida num processo que durou dois anos. Ela não é uma Saccharomyces cerevisiae nem tampouco uma S. paradoxus. É um organismo novo que tem DNA brasileiro!

Os estilos de cerveja brasileiros combinam bem com pratos e petiscos típicos da nossa gastronomia. Por exemplo, a Catharina Sour combina com frutos do mar, como ostras e camarões, bem como com o famoso “torresminho” típico de nossos botecos, por conta de sua proeminente acidez. Já a Brazilian Pale Ale harmoniza com carnes mais intensas, como costela bovina, pernil suíno, dentre outras, grelhadas ou assadas, por causa do seu amargor equilibrado que corta a untuosidade da gordura animal.

 

Bem, por este mês é isso.

Dúvidas e sugestões podem ser encaminhadas para nossa redação.

Abraços e até a próxima.

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