Caropreso com cerveja: as cervejas na quaresma

Por Luiz Caropreso, sommelier de cervejas, professor pela Doemens Akademie e diretor da BeerBiz — Cultura Cervejeira.

Olá, meus amigos cervejeiros, fervorosos devotos de Santo Arnulfo!

Antes de entrar no tema que estou propondo, preciso esclarecer algo. O dia de Santo Arnulfo, o santo que salvou muita gente por convencê-las a beber cerveja ao invés de água (a água, naquela época, era muito poluída e contaminada por falta de saneamento básico nas cidades) e a quem se atribui o “milagre da multiplicação da cerveja”, é 18 de julho. Todos os meses alguém me envia uma mensagem dizendo que estamos comemorando a festa do santo em questão a tal ponto que dá para pensar que, além de ter multiplicado cervejas, ele multiplicou-se a si mesmo! Se quiser saber mais acesse o link.

Pois bem, estamos no período da quaresma, para os cristãos. Uma época em que se orienta o resguardo, a reflexão e o jejum. É evidente que, nos dias de hoje, poucos conseguem respeitar esses preceitos, mas vale dizer que, graças a isso, monges e religiosos dos tempos antigos acabaram criando certos estilos como Dubbel, Strong Golden Ale e outras. Cervejas fortes, mais protéicas e com teor alcoólico mais elevado que auxiliavam a suportar os períodos de abstinência de alimentos.

Fiz, portanto, uma seleção de alguns rótulos representativos desses estilos e vou tomar a liberdade de propor harmonizações com receitas de meu mais recente livro, “Receitinhas para você: cervejas”, lançado em novembro passado pela Editora Sesi-SP.

Leuven Dubbel

A Cervejaria Leuven fica em Piracicaba/SP e traz no seu DNA a produção de cervejas de estilo belga. Essa Dubbel tem 7,5% de ABV e traz em seus aromas e sabores caramelo e chocolate; conforme vai aquecendo, começa a exalar frutas negras passas, como uva e ameixa. Nota-se também algum condimentado, como noz moscada. O dulçor inicial dá lugar a um sutil amargor, aumentando a sua drinkability. Sirva-se de uma taça dessa preciosidade, e é capaz de você ouvir monges entoando cânticos gregorianos enquanto degusta.
Harmonize com a caçarola de carnes com trigo maltado e American Lager, receita do meu livro. Vai bem também com bolo inglês, cheio de frutas e nozes, embebido com rum.

Baker Medieval

Essa Belgian Blond Ale de 6,7% de teor alcoólico, produzida pela Cervejaria Backer em Belo Horizonte/MG, já de cara apresenta-se como um exemplar diferenciado. Sua rolha metálica é recoberta por uma camada de cera, semelhante à usada na antiguidade para lacrar correspondências com o selo real.  Sua coloração dourada veste uma cerveja repleta de aromas de cereais maltados e de condimentos, trazendo também aquele frutado típico das leveduras belgas. Do meu livro, para ela, sugiro o gulache com Dunkel. Quer mais algumas opções? Ela acompanha muito bem um singelo frango assado, com batatas coradas.

Falke Monasterium

Essa Tripel dourada, de 9,0% de álcool, foi criada pelo Marco Falcone, mestre-cervejeiro e proprietário da Falke Bier, que está localizada em Belo Horizonte/MG. Feita com aveia, trigo e malte de cevada (tostado e sem tosta), é refermentada na garrafa e fica maturando por alguns meses, reza a lenda, ao som de cânticos gregorianos. Aliás, vou perguntar ao Falcone se essa informação procede e digo a vocês. Uma Tripel diferenciada, combinando aromas cítricos e condimentados com cereais e textura suave, tendendo ao cremoso. Vamos harmonizar com meu Magret de pato com laranja e Kristallweizen. Vai bem também com queijos como Camembert, Brie e Gruyère.

Roter Sour

Experimentei essa Sour Ale da Cervejaria Roter, de Barra do Piraí/RJ, em uma avaliação que fiz para a última edição da Revista da Cerveja impressa e fiquei muito surpreso e feliz. Surpreso porque não conhecia a cervejaria e feliz pela oportunidade de poder apreciar gole a gole este delicioso exemplar que mereceu o ouro com que foi agraciado no último MBeer Contest, do Mondial de La Bière Rio. Com 7.5% de ABV e uma coloração castanha escura, com feixes acobreados e espuma marrom claro traz exuberantes aromas de frutas, empestados pelos morangos usados em sua maturação, caramelo e cereais, além de um insinuante aceto balsâmico. Apesar de se apresentar como uma Sour, sua acidez é suave e elegante. Chega a lembrar uma Red Flanders, guardadas as devidas proporções. Harmoniza particularmente muito bem com meu lombo com Kriek Lambic.  Vai bem também com carnes mais gordurosas como pernil suíno e costela bovina.

Ficou com alguma dúvida? Está interessado em adquirir meu livro? Lá você encontrará 41 receitas de entradas, pratos principais e sobremesas, nas quais a cerveja entra como ingrediente. Entre em contato comigo pelo e-mail luizcaro@gmail.com.

Abraços a todos e até o mês que vem.

Leave a Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*