Caropreso com cerveja: cervejas para enfrentar a quarentena

Por Luiz Caropreso, sommelier de cervejas, professor pela Doemens Akademie e diretor da BeerBiz  — Cultura Cervejeira.

Salve meu amigo cervejeiro!

Que ano complicado para nós este 2020, não é mesmo? Primeiro o caso Backer que abalou todo o segmento, mas acabou impactando mais nas pequenas e médias cervejarias. Agora acontece essa pandemia mundial por conta do Coronavírus. Estamos reclusos, confinados em nossos lares e meio perdidos com tanta informação e fake news que nos atingem através de todas as mídias que temos acesso.

Mas, o que podemos fazer para amenizar esse período de clausura angustiante? Resolvi me remeter aos monges — principalmente os da idade média — e vou sugerir cervejas cujos estilos eram muito consumidos pelos religiosos quando tinham que atravessar longos períodos de jejum.

Durante o jejum, é necessário se privar de comer, mas beber é permitido. E nossos queridos antecessores monásticos acabaram desenvolvendo cervejas mais protéicas e alcoólicas que ajudavam a passar os períodos de privação alimentar com certo alento e conforto. Criaram-se então cervejas encorpadas, complexas e mais alcoólicas que, além de saciar um pouco a fome, ajudavam a cair nos braços de Morfeu.

Dito isso, vamos às minhas sugestões de cervejas de abadia, dessas que a gente não bebe, degusta em pequenos goles, deixando o líquido passear pela boca para poder aproveitar todos os sabores.

Cerveja: Pannepot
Cervejaria: De Struise Brouwers – Belgica
Estilo: Belgian Dark Strong Ale / Quadrupel
ABV: 10%
Se vocês pesquisarem no guia de estilos do BJCP, não encontrarão o estilo Quadrupel. Eles classificam as cervejas desse tipo como Belgian Strong Dark Ale. Já no guia da Brewers Association, Quadrupel é um estilo. Na realidade essa questão só tem muita importância se você produziu uma cerveja e pretende inscrevê-la em um concurso. Verifique antes em qual guia se baseiam as regras.

Mas vamos à Pannepot, cujo nome se refere à antigas embarcações de pesca de um vilarejo belga chamado De Panne. Na taça, se apresenta numa coloração âmbar escuro, com baixa formação e retenção de espuma. Os primeiros aromas podem remeter até a um xarope. Mas isso se dissipa rapidamente, atropelado por elegantes aromas de malte e condimentos, com destaque para noz moscada. Na boca, temos uma textura densa, quase licorosa e iremos perceber muito caramelo, frutas passas como uva, ameixa e damasco. Dá até pra sentir um. pouco de maçã e pera, mas muito sutis. Apesar dos aromas adocicados, seu final de boca é de um amargor muito elegante.

É uma cerveja pra se beber bem devagar, usando taças de bojo, com boca estreita, como as tulipas de origem belga. Combine com doces árabes, desses que tem massa folhada, recheio de nozes ou pistache e cobertos de mel. Outras boas opções de harmonização são chocolates, bolo inglês de frutas e rum, e mix de castanhas.

Cerveja: Chimay Grande Réserve (Bleue)
Cervejaria: Abbaye de Scourmont – Chimay – Bélgica
Estilo: Belgian Dark Strong Ale
ABV: 9%
Uma cerveja de contemplação. Marrom no corpo, coroa a taça com linda e cremosa espuma bege. Foi criada originalmente em 1948 como uma Christmas Ale. Intensos aromas de caramelo e malte vão se complementando com passas, ameixas secas, frutas secas como nozes e amêndoas, avelãs, caramelo, pão doce, bolo de frutas cristalizadas, e por aí vai. Sua textura é quase cremosa e preenche deliciosamente todos os cantinhos da boca. É vendida em garrafas de 330 mL, 750 mL e 1,5 L.

Prefira as garrafas grandes que são rolhadas e se prestam para a guarda que, em condições ideais, pode resistir (e melhorar) por mais de 15 anos.

Não deve ser bebida muito gelada. Entre 8°C e 12°C você vai aproveitar melhor esta preciosidade. Faça uma tábua a com alguns frios (copa, lombinho, jamon serrano, salame italiano), queijos (parmigiano reggiano, Prima Dona vermelho, taléggio, roquefort), patê de campanha, terrine de pato e alguns pães e você terá uma companhia perfeita para sua Chimay.

Cerveja: Bodebown St. Arnould 6
Cervejaria: Bodebrown – Curitiba – PR
Estilo: Belgian Dubbel
ABV: 7%
Homenagem da Bodebrown a St. Arnoldo (Arnulfo) o padroeiro das cervejas que pacificou a região de Flandres e incentivava o consumo de cerveja em vez da água que, naquela época, por conta da falta de saneamento básico, era extremamente poluída e causava muitas doenças e mortes. St. Arnoldo é autor da frase “Não beba água, beba cerveja”.

Reza a lenda que esse estilo era feito nas abadias com a água da primeira lavagem dos maltes de uma Quadrupel. Uma cerveja opaca, de cor ambar médio, com evidentes aromas de malte, panificação, caramelo e algumas especiarias, como se espera de uma boa Dubbel.

Tem corpo médio e gostos básicos equilibrados, com ênfase ao dulçor. Mas não é, nem de longe, enjoativa. Harmoniza bem com queijos de massa amarela e adocicada, como gouda ou com leve “picância” como o gruyère. Acompanhe também com biscoitos doces, geléias e frutas passas como damasco, tâmaras e figos turcos ou estilo ramy.

Cerveja: Wäls Trippel
Cervejaria: Wäls (AMBEV) – Belo Horizonte – MG
Estilo: Belgian Tripel
Teor alcoólico: 9%
Apesar de a cervejaria grafar no rótulo Trippel, com dois pes, o nome do estilo é Tripel com um único pe. Uma honesta homenagem da Wäls aos monges belgas, revisitando o estilo com uma receita muito típica. Cor ouro velho e formação de espuma muito branca e de bolhas pequenas.

Aromas fenólicos em profusão, com destaque para cravo da Índia e cardamomo. Frutas amarelas como pêssego e damasco e algum cítrico. Uma característica desse estilo, que me agrada muito, é um sutil aroma de acetato de Etila que remete a esmalte. Mas é muito sutil e, antes de um defeito, deve ser apreciado como uma qualidade. O final de boca é muito seco e límpido.

Sugiro harmonizar também com queijos. Neste caso, grandes parceiros são queijos de mofo branco – brie, camembert e o delicioso Tomme Vaudoise da catarinense Vermont. Se quiser apostar na charcutaria, frios menos intensos (blanquet de peru, frango defumado) são ideais. Vai bem também com struddel de maçãs e tarte tatin.

Espero que com minhas dicas eu consiga diminuir as angústias dessa quarentena. Fico aqui torcendo para que todos vocês consigam ultrapassar essa crise com muita saúde e torço pra que a epidemia se dissipe o mais rápido possível.

Dúvidas ou sugestões? Entre em contato comigo através do e-mail luizcaro@gmail.com. Estou sempre atrás de boas novidades.

Abraços a todos.

Leave a Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*