Caropreso com cerveja: growlers, crowlers e muita criatividade

Por Luiz Caropreso, sommelier de cervejas, professor pela Doemens Akademie e diretor da BeerBiz  — Cultura Cervejeira.

Olá, meus amigos cervejeiros.

Nestes tempos de pandemia, um tipo de negócio que parece estar em alta é a venda de growlers e crowlers nos bares e nos brew shops. Aliás, nada melhor do que ter a oportunidade de beber cervejas mais frescas e contribuir com o comércio vizinho. Além disso, essa atitude converge com a política, apoiada pela Abracerva, do “beba local” e, se vocês comprarem para consumir em casa, estarão se protegendo mais e evitando dirigir após beber.

Pois bem, nas minhas indicações deste mês, falarei sobre duas novas cervejarias/brewpubs que oferecem várias opções de chope envasado fresquinho direto das suas torneiras.

Vou falar também de uma cerveja criativa, numa releitura do estilo feita pelo cervejeiro, e estou lançando uma novidadeum espaço para os homebrewers, cervejeiros que, no momento, não visam a comercialização das suas cervejas e, mesmo assim, produzem verdadeiras obras de arte.

Vamos logo às cervejas deste mês.

Cerveja: Alvorada Mirante

Estilo: Belgian Saison

Cervejaria: Alvorada, São Paulo/SP. Rua Luís Góis, 1504

ABV: 7,5%

A Alvorada é uma nova cervejaria paulistana que incorporou o conceito do “take away” com seus growlers. A casa está aberta ao público de quinta a domingo nos horários permitidos durante a pandemia. Você também pode pedir por delivery ou dar uma passadinha ali. Eles enchem os vasilhames na hora, direto das torneiras, ou seja, cerveja muito fresca.

Ao provar a Mirante, fiquei surpreso com o seu equilíbrio. Sabemos que o “range” do estilo permite muitas variações. Esta tem aquela rusticidade que a gente busca nas Saisons, mas com extrema elegância.

Apresenta uma coloração ouro velho e boa formação de espuma. Os maltes têm um leve destaque, com uma nuance de dulçor deliciosa e final seco. Sabores de cereais e algum frutado se alternam durante a degustação. Combina muito bem com o famoso Fettuccine al Triplo Burro, bife à milanesa, wiener schnitzel com salada de batatas e, para sobremesa, uma fatia de queijo Minas frescal com doce de leite ou cheese cake simples com cobertura de caramelo.

Cerveja: Soma American Sour

Estilo: American Sour/Fruit Beer

Cervejaria: Soma Cervejaria, Rua Miruna, 561, Moema — São Paulo/SP

ABV: 3,6%

A Soma é um brewpub cuja inauguração foi atrapalhada pela chegada da Covid-19. Mesmo assim, enquanto a casa não podia abrir ao público, os proprietários iniciaram as atividades vendendo as suas cervejas para entrega ou retirada envazadas em crowlers, a versão em lata dos growlers. Tudo é elaborado com muito cuidado e a personalização de cada rótulo é feita à mão, mostrando o carinho para com o consumidor e os produtos.

Experimentei a American Sour deles. De coloração amarelo ouro, quase chegando ao ouro velho, com média formação de espuma, traz nos aromas um perfume de pêssegos, não só dos frutos, como também das flores.

Na boca, um ataque ácido, como se espera de uma Sour, e as notas de pêssegos que se equilibram com sabores de malte de cevada, e um sutil dulçor que oferece um bom equilíbrio ao paladar.

Dessa vez, harmonizou com peixe ao forno. Fiz uma tainha recheada com pirão de camarões. Ficou delicioso. Combina também com um doce que me lembra a vovó, pêssegos em calda com creme chantilly batido na hora.

Cerveja: Avós Baltic Base

Estilo: Baltic Porter

Cervejaria: Casa Avós, Rua Croata, 703, Vila Ipojuca — São Paulo/SP

ABV: 8,4%

Alguns cervejeiros se destacam no mercado por sua criatividade. Esse é o caso do Junior Bottura com o Raul da Avós. Já falei deles algumas vezes nesta coluna. Reitero que, para mim, estão no meu Top 5 no Brasil. Dessa vez, me surpreendi muito, positivamente, claro,  com a Baltic Base, uma Baltic Porter que leva aveia, ingrediente que deixa a sua textura mais densa e cremosa; faz parte da linha das Strong Lagers da Avós. A Baltic Porter, como diz o nome, é um estilo inspirado na britânica Porter, recriado e potencializado em álcool e aromas para atender aos consumidores dos países frios dos bálticos.

Nessa versão, a Avós criou uma cerveja bem escura, com formação de linda espuma bege. Além dos aromas tradicionais de malte tostado e pão preto, traz também cacau, reforçado pela adição desse adjunto na formulação. Na boca, além de replicar os  aromas que descrevi, remete também a sabores de licor de cacau com café.

Harmonizei essa cerveja com uma fatia do Patê de Campanha da A Table Charcutaria. Esse patê leva carnes suínas, ameixa seca e vinho na sua receita, além de ser envolto em fatias de bacon. Os 8,4% de álcool da cerveja são suficientemente potentes para cortar as gorduras da iguaria. Acontece também uma harmonização por contraste com o residual adocicado do fermentado e o salgado do patê, bem como por semelhança dessas notas doces com as ameixas secas. Aventure-se nessa experiência. Garanto que vai adorar.

Espaço dos homebrewers

A partir deste mês, trarei para minha coluna um homebrewer que vem se destacando no segmento cervejeiro. Que fique bem claro que os profissionais presentes nesse espaço são cervejeiros caseiros, que produzem as suas cervejas sem fins comerciais, ou seja, por pura paixão.

Para inaugurar esta, seção trago pra vocês:

Cervejeiro: Sal Santos

Origem: Florianópolis/SC

Contato: @sal_santos

Cerveja: Hoptimist

Estilo: NEIPA — New England IPA

ABV: 6%

Vamos conhecer um pouco da trajetória desse cervejeiro que, na minha opinião, é uma promessa para estar no mercado em breve.

“Tenho 43 anos, faço cerveja há cinco e tenho uma medalha de bronze no Estadual da Acerva-SC. Nunca fiz um curso propriamente dito, de produção ou tecnologia, apenas workshops, todos pela Acerva-SC.  Participei ativamente da Acerva nos primeiros três anos bem como de dois congressos técnicos em que tivemos palestras, painéis e bate-papos com nomes como John Palmer, Gordon Strong, Stan Hieronymus, Malcon Fraser, John Mullet, Scott Janish, Paulo Schiavetto, Cilene Saorin, André Junqueira e muitos outros. De resto, tento estudar tudo que posso, ler livros, participar de eventos (quando podia né… rs).

Mas se a coisa virar profissional, pretendo fazer um curso de tecnologia cervejeira, ou mesmo um de mestre-cervejeiro na ESCM. Minha inspiração para fazer cerveja vem de antes de eu beber qualquer coisa. Meu pai tinha um livro na estante, uma publicação de 1952, com o título ‘como ganhar dinheiro fazendo bebidas’. E entre outras bebidas como cidra, vinhos, vermutes, estava lá a cerveja. Tinha receita até de cerveja com grama. Aquele livro me fascinava, apesar de eu ainda não saber ler. Deixei a casa do meu pai com 18 anos. Em 2007, quando ele faleceu, voltei para separar coisas pra doação e achei o livro, que está comigo até hoje e pensei: um dia, vou fazer uma cerveja desse livro. Em 2014 passei a estudar um pouco, montar equipamento eu mesmo, e em 2015 comecei. E aqui estamos.”

Sobre a Hoptimist:

Começando pela aparência, essa cerveja está linda. Cor amarelo vivo, turva como tem que ser e com boa formação de espuma. No nariz, já traz a personalidade e o frescor dos lúpulos americanos, prevalecendo os aromas cítricos de maracujá e limão siciliano, além de um toque sutil de capim-limão. Está carbonatada à perfeição.

Na boca, replica os aromas e o frescor. Tem ótimo equilíbrio nos gostos básicos e uma textura suavemente frisante. Nos gostos básicos, aliás, sente-se um leve dulçor equilibrando com o delicioso amargor que persiste no retrogosto. É uma das melhores NEIPAs que já experimentei, incluindo as de famosas cervejarias americanas.

Experimentei combinar com saladas de folhas verdes, erva-doce e funcho, tomatinhos cereja, quinoa e uma fruta (sugiro carambola). Foi bem também com poke havaiano, peixes com molho de maracujá, tortas e compotas de frutas cítricas.

Por este mês, é isso.

Tem alguma indicação ou sugestão? Manda um direct no meu Instagram: @luiz.caropreso

Nos vemos em agosto.

Abraços

One Comment

  1. Charlie Olsen

    Grande Sal, meu vizinho cervejeiro! Um cara que é muito meticuloso com as suas cervejas. Essa NEIPA eu já provei e já atestei a qualidade. O cheiro dela, ao abrir a garrafinha, já mata a pau! Sucesso pra ti, amigo!!!

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