Caropreso com cerveja: o “milagre” das cervejas divinas

Por Luiz Caropreso, sommelier de cervejas, professor pela Doemens Akademie e diretor da BeerBiz — Cultura Cervejeira.

Olá meus amigos cervejeiros.

Se estudarmos um pouco a evolução da cerveja através da história, encontraremos muitos episódios em que as crenças religiosas aparecem de alguma forma. Desde os primórdios, sempre houve um curandeiro, pajé, ou o correspondente a isso para determinada civilização, que se aproveitava, por exemplo, dos efeitos entorpecedores causados pelo álcool para ludibriar os pobres e inocentes crentes, passando a ideia de que ele, através de sua conexão com o divino, era o responsável por transformar cereais cozidos em um “líquido sagrado”.

Podemos citar vários exemplos como Ninkasi, a deusa da cerveja dos sumérios,  St. Patrick, o padroeiro da Irlanda, Sta. Hildegard Von Bigen, a religiosa naturalista que descreve pela primeira vez o lúpulo e sua utilização na produção da cerveja, ou o próprio Santo Arnulfo, padroeiro da cerveja e a quem se atribui o milagre da multiplicação do fermentado, como já disse em meu último artigo. Isso sem falar nos monges europeus, os principais responsáveis pela continuação da ales, que foram quase extintas quando, após a criação da Pilsen, em 1842, este estilo vira uma febre e a imensa maioria dos cervejeiros passa a produzir apenas Lagers.

Apesar de tudo, independentemente da influência religiosa, o verdadeiro “milagre” para que existam as cervejas divinas que degustamos, cabe exclusivamente às pessoas que se dedicam apaixonadamente à sua criação, produção e desenvolvimento. Fazer cerveja transcende o simples produzir uma bebida. É um ato de amor.

Selecionei algumas que ainda não são tão conhecidas, mas que levam ao seu copo toda essa paixão e comprometimento.

Felsen Premium Lager

Estilo: Premium Lager

Cervejaria Felsen de Caxias do Sul, RS

ABV: 4,5%

Localizada na acolhedora Caxias do Sul, a Cervejaria Felsen criou uma cerveja cujas principais características são seu frescor e extrema drinkability. Traz aromas de cereais maltados e lúpulos muito bem encaixados. Na boca reflete o que captamos nos aromas, com um elegante amargor e final seco. Uma cerveja que a gente não consegue querer parar de beber.

Aliás, quem viajar para Caxias, vale muito a pena visitar essa fábrica. Uma vitrine, como os proprietários mesmos dizem.

Para acompanhar, sugiro friturinhas, como anéis de cebola, polentinha, torresmo, batata e mandioca frita. Não curte frituras? Um mix de salsichas de vários estilos cairá muito bem.

Istepô Goiabêra

Estilo: Berliner Weisse/Catharina Sour

Cervejaria Istepô de São José, SC

ABV: 5,5%

Acredito que a maioria de vocês já deve ter lido algo sobre a polêmica: A Catharina Sour vai se tornar um estilo reconhecido pelo BJCP? Eu surfo na onde dos que são a favor mas isso pouco importa. O que lhes digo é que vale, e vale muito, experimentar a Goiabêra que foi agraciada com Medalha de ouro e com o 1° lugar no “Best of Show”, em Blumenau neste ano. Além de goiaba, leva também maracujá, frutas que emprestam aromas e sabores tropicais para esse estilo de origem germânica. Ácida, refrescante, perfumada e fácil de beber, com certeza merece os prêmios que ganhou. Harmoniza com queijos brie ou camembert, carne de peixe, ou ave e sobremesas como mousse de maracujá ou goiaba. Vale experimentar com nosso brasileiríssimo Romeu e Julieta, uma fatia de goiabada com queijo fresco. Dê um toque a mais trocando o queijo fresco por gorgonzola

5 Elementos Abyssal

Estilo: Russian Imperial Stout

Cervejaria 5 Elementos, Fortaleza, CE

ABV: 12%

Uma coisa que me deixa muito feliz e orgulhoso é constatar que se fazem cervejas muito boas fora do eixo Sul/Sudeste. É o caso dessa Abyssal da 5 Elementos, uma Russian Imperial Stout, estilo que contrasta com a calorosa e quente Fortaleza, pois foi criado para se beber no frio. É daquelas cervejas que aquecem a alma e confortam o espírito. Negra, espuma densa, textura cremosa, quase viscosa, Extremamente complexa. Conforme vai aquecendo, exala mais e mais aromas de tostados, condimentos, frutas secas, e alcaçuz. Pra se beber vagarosamente, em uma bela taça tulipa. Vai muito bem com queijo pecorino, parmesão, queijos azuis, queijo Canastra muito maturado e doces à base de chocolate amargo. Experimente também apenas em um cálice, para coroar uma bela refeição.

Colombina Saison do Pé Rachado

Estilo: Saison

Cervejaria Goyaz, Goiânia, GO

ABV: 4,8%

Mais um exemplo da criatividade e versatilidade dos cervejeiros brasileiros. Esta Saison vem de Goiânia e leva uma fruta típica do cerrado, o pequi. O interessante é que, apesar de esse fruto ter aromas muito intensos e que nem sempre agradam a todos, foi inserido com tanta competência nesta receita que, ao invés de se destacar cheio de arestas, apresenta-se equilibradíssimo com os aromas de cereais, condimentados e florais que compõem as boas Saisons. Sua textura rica e rústica ajuda a formar um par perfeito com um prato famoso da culinária regional, o frango com pequi. Acompanha muito bem também um doce de pequi com queijo do cerrado.

Espero que vocês tenham a oportunidade de experimentar minhas sugestões e fico a disposição de todos para trocar ideias sobre cerveja e gastronomia através de meu e-mail: luizcaro@gmail.com.

Até a próxima.

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