Dietilenoglicol é pouco utilizado em microcervejarias e não entra em contato com a bebida

Texto: Letícia Garcia | Foto ilustrativa: Elevate/Unsplash

Suspeita de contaminação da cerveja Belorizontina, da Backer, com dietilenoglicol (DEG) levantou temores sobre o químico. Empresa afirmou que não utiliza a substância na fábrica e colabora com o andamento das investigações.

 

Em coletiva de imprensa realizada na sexta-feira (10), Paula Lebbos, diretora de marketing da Backer, disse que todas as suspeitas estão sendo investigadas. “Convocamos parceiros que são fornecedores de maquinários e equipamentos, vamos fechar nosso dia de amanhã, sábado (11), que seria um dia normal de produção, para poder fazer testes para tentar dar informação, esclarecer fatos para o nosso cliente. O importante para a gente agora é informar com notícias sérias”, disse.

Na noite de 13 de janeiro, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) realizou, como medida cautelar, a interdição da fábrica. Análises realizadas pelo Mapa e divulgadas no dia 15 constataram a contaminação por mono e dietilenoglicol da água utilizada pela Backer na fabricação das suas cervejas.

Diante da suspeita de que a contaminação esteja presente no processo de fabricação da Backer, o Ministério determinou o recolhimento de todos os produtos da cervejaria e a suspensão da fabricação. Uma nova rodada de amostras está sob análise dos laboratórios federais agropecuários e os resultados serão divulgados em breve.

“A empresa informa que acionou a justiça porque precisa de mais tempo para se programar para atender, da melhor maneira possível, a medida de recall solicitada pelo Mapa”, informou a empresa, em comunicado oficial.

O CASO

No início deste ano, oito homens foram internados com sintomas de uma síndrome nefroneural, todos moradores ou que passaram pelo Bairro Buritis, Região Oeste de Belo Horizonte/MG, na segunda quinzena de dezembro.

Ao longo das primeiras semanas de janeiro, os casos suspeitos subiram para 18, 16 homens e duas mulheres. Em quatro deles houve a confirmação da presença do agente químico dietilenoglicol em exames de sangue; destes, um veio a falecer. Houve mais três falecimentos que podem estar relacionados à síndrome investigada. A suspeita é de que todos os afetados consumiram a cerveja Belorizontina.

Em comunicado, a Backer ressaltou que a substância não faz parte do processo de produção da cerveja na fábrica. O mestre-cervejeiro responsável, Sandro Duarte, afirmou em coletiva que a fábrica utiliza apenas o monoetilenoglicol, uma variação menos tóxica. Os lotes citados inicialmente nas investigações — L1 1348 e L2 1348 — foram retirados de circulação. Esses lotes totalizam 66 mil garrafas.

A Backer também enviou amostras para análise laboratorial, resultados que ainda não foram divulgados. Em entrevista coletiva concedida na manhã de terça-feira (14), a diretora de marketing, Paula Lebbos, recomendou que a população não beba o rótulo Belorizontina e Capixaba (uma variação da Belorizontina para o estado do Espírito Santo), qualquer que sejam os lotes, até que todas as investigações sejam concluídas e seja esclarecida a presença da substância.

A Secretaria Municipal de Saúde e a Polícia Civil de Minas Gerais abriram inquéritos para investigar o caso. A Polícia estabeleceu a janela de possível contaminação entre a segunda quinzena de novembro e a primeira quinzena de dezembro de 2019 e não descarta nenhuma possibilidade, desde contaminação até sabotagem. Os dois órgãos também apuram a relação entre a substância dietilenoglicol e a síndrome nefroneural. O Mapa faz parte dessa força-tarefa. As investigações continuam, com a colaboração da cervejaria.

 

SUBSTÂNCIA NÃO É PREFERÊNCIA ENTRE MICROCERVEJARIAS

O dietilenoglicol, apontado pelas autoridades como a possível causa da contaminação, é um produto dificilmente utilizado em microcervejarias. No caso da sua utilização como anticongelante para resfriamento dos tanques, o DEG não entra em contato com a cerveja.

Gustavo de Miranda, mestre-cervejeiro diplomado pela VLB Berlim e engenheiro químico que atua há mais 30 anos no mercado cervejeiro, traz mais informações em entrevista a seguir:

 

RC: O que é o dietilenoglicol?

Gustavo de Miranda: Dietilenoglicol é um produto da família dos álcoois. Produtos à base de álcool, como o dietilenoglicol, o etilenoglicol e o glicol podem ser utilizados para sistemas de resfriamento ou arrefecimento.

Em contato com a substância com que se misturam, em especial a água, eles têm duas ações: uma é baixar o ponto de fusão, ou seja, ao baixar o ponto de fusão na água, ela não congela. Por exemplo, ele é usado para radiadores de carro em países mais frios, com temperaturas abaixo de zero, para fazer o sistema de arrefecimento e não deixar a água congelar.

Da mesma forma, ele aumenta o ponto de ebulição, então também não deixa a água ferver e você consegue trabalhar numa temperatura mais alta do motor, fazendo com que a água não ferva.

 

Como ele seria utilizado em uma cervejaria?

No caso de uma cervejaria, existe a possibilidade de um etilenoglicol ou dietilenoglicol ser utilizado nas camisas de resfriamento de tanques de fermentação ou de maturação, para controle da temperatura.

O produto não tem nenhum contato com a cerveja: você tem o tanque de aço inox, dentro deste tanque está a cerveja, e fora da parede de inox corre este líquido para fazer o resfriamento do tanque, e aí há o isolamento para a parede externa. Então o dietilenoglicol e o etilenoglicol podem ser utilizados para esses casos.

 

As microcervejarias costumam utilizar esse produto?

É mais difícil uma cervejaria usar um produto como esse porque existem outros produtos que podem ser utilizados para este mesmo fim, com um custo menor. O grande produto que é utilizado num sistema de resfriamento das camisas dos tanques é o etanol. Ou, em cervejarias muito grandes, o sistema para resfriamento é por expansão direta do gás amônia. Mas sempre na parte externa, na camisa do tanque, não em contato direto com a cerveja.

Essa seria uma das aplicações do dietilenoglicol, mas é muito mais comum se usar uma mistura de etanol, até porque, numa possível eventualidade de vazamento, o etanol, que é uma mistura de etanol e água, seria um agente contaminante menor para a cerveja.

De toda forma, quem faz uso do etanol, o faz também muitas vezes fazendo uso de um corante, com a coloração vermelha, justamente para que consiga identificar algum possível vazamento. Mas a tendência é muito mais que haja vazamento para fora do tanque do que para dentro do tanque, justamente por conta da espessura da camisa do tanque de fermentação e maturação.

Além disso, onde existem as camisas é justamente onde não existe solda, que é onde poderia haver um ponto de maior fragilidade. Mesmo que acontecesse algo do tipo, eu endosso muito o trabalho do controle de qualidade das cervejarias.

 

Qual a sua avaliação sobre as suposições de que a contaminação da cerveja com o dietilenoglicol tenha ocorrido na produção?

Por todas essas circunstâncias, eu acredito que um processo de contaminação desses dentro de um estabelecimento industrial é muito difícil. É difícil falarmos sem que haja uma maior apuração, uma maior análise de tudo que foi feito — de onde esses produtos foram comprados, quem foi que distribuiu, como eles foram acondicionados. Porque existem várias coisas que podem ter acontecido num processo pós-fábrica, não somente no processo fábrica.

É preciso esperar uma apuração, de fato, maior do que possa ter acontecido, até porque o lote produzido, em que encontraram a substância em duas garrafas, foi de 66 mil garrafas, sem que houvesse nenhum problema anterior — isso está muito localizado na região de Belo Horizonte. A gente precisa saber o que é que está acontecendo, só não podemos é transformar uma suposição de como possa ter acontecido isso na verdade.

 

INVESTIGAÇÃO EM ANDAMENTO

A Associação Brasileira de Cerveja Artesanal (Abracerva) divulgou um comunicado reforçando a necessidade de uma investigação médica para descobrir a origem da contaminação e a causa da síndrome. A Abracerva também emitiu uma nota técnica orientando os associados a não utilizarem mono ou dietilenoglicol, utilizando apenas produtos de grau alimentício, como o álcool etílico ou o propilenoglicol. A entidade também solicita ao Mapa e à Anvisa a proibição do uso do mono e dietilenoglicol nos sistemas de refrigeração das cervejarias.

A Backer tem 20 anos de mercado e é uma cervejaria premiada nacional e internacionalmente. “Nós sempre fomos muito transparentes, nunca tivemos esse tipo de problema com os nossos produtos”, disse Paula Lebbos na coletiva. “O que a gente quer é esclarecer os nossos clientes. Eu acho que justamente pelo fato de tantos boatos que estão acontecendo por aí, a gente tem que aguardar fatos verídicos.”

A cervejaria divulgou nota prestando solidariedade às vítimas e aos seus familiares, informando que estruturou uma equipe para entrar em contato com essas pessoas e oferecer toda a ajuda que precisarem.

Atualizado às 09h51 de 17/01/2020.

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