Herança Germânica — As marcas da tradição e da cultura alemã

Produção: Fabiane Pereira/RC | Texto: Emílio Chagas | Foto destaque: Renato Soares

Blumenau/SC e todo o chamado Vale Europeu de SC apresentam características fortíssimas das tradições alemãs, na cultura, na gastronomia, nos hábitos e costumes herdados dos imigrantes germânicos – marcas que o tempo não apaga.

Pomerode, a cidade mais alemã do Brasil

Alemã, Pomerode/SC se destaca e serve como exemplo de preservação histórica. Gladys Dinah Sievert, vice-prefeita de Pomerode, faz um pequeno mergulho nas raízes da história da cidade para situar um pouco a sua tradição: “Os sulcos na terra arada para receber as sementes, as rugas no rosto do povo revelam a história e a memória da saga dos imigrantes alemães, vindos em 1863 da Pomerânia, no norte da Alemanha. E contam a sua trajetória de lutas diárias para vencer obstáculos para a construção de uma nova vida, em um novo mundo”. O novo mundo era o Brasil, mais precisamente, Pomerode.

Ali os imigrantes lançaram as bases dessa cultura, adaptada à nova realidade. Em 1959, a cidade se emancipou, deixando de pertencer a Blumenau, nascendo um novo município. A economia caracterizou-se pela policultura de subsistência, enquanto indústrias pioneiras, pequenas empresas no ramo de laticínios, linguiça e serrarias entravam em cena. “Em Pomerode, é comum as pessoas residirem na área rural e trabalharem em empresas situadas na área urbana. Desta maneira, a cidade é poupada dos problemas de inchaço típicos das cidades em processo de industrialização. Percebe-se, ainda, que, ao longo da década de 1970, houve um forte deslocamento da mão de obra do setor primário para o secundário (indústrias)”, diz ela, citando o Diagnóstico de Pomerode publicado em 2002.

Características marcantes

Segundo as suas fontes, em 1983, com a criação do Serviço de Cultura e Turismo de Pomerode, atendendo à política estadual de desenvolvimento turístico da década de 1980, realizou-se um levantamento das peculiaridades do município. Foram identificados alguns aspectos: a descendência pomerana como origem comum da maioria da população; o uso acentuado do alemão; o protestantismo de origem luterana como religião predominante; o alto índice de alfabetização da população; a mão de obra qualificada; o grande número de construções em enxaimel; 16 sociedades de caça e tiro e o grande número de bandas musicais.

Ela lembra que a cultura alemã, duramente reprimida no movimento nacionalista de Getúlio Vargas (durante a 2ª Guerra Mundial), passou a ser valorizada. “Ocorre um grande empenho na recuperação das tradições culturais, silenciadas no processo de nacionalização. As manifestações culturais, as festas e as construções típicas são identificadas como os maiores bens culturais do município, caracterizando Pomerode como um símbolo de singularidade diante do Brasil.”

Para Gladys, o destaque da cidade como a mais alemã do Brasil tem várias razões, principalmente por ter presente na comunidade, de uma forma muito viva e ativa, muitos traços da cultura herdada dos antepassados, a começar pela língua. O alemão se tornou a segunda língua oficial do município, e a língua pomerana, a terceira oficial, revela. “A cidade tem implantado o ensino bilíngue em três das nove das escolas municipais. A música e a dança presentes são preservadas nos eventos sociais e turísticos, por meio das bandinhas típicas e dos grupos de dança folclórica. Além disso, a gastronomia e o artesanato também se encarregam de manter as tradições alemãs.” E, claro, a arquitetura, principalmente das casas construídas com a técnica enxaimel, com grande número de exemplares ainda preservados — são 233 casas, compondo um cenário próprio da pequena cidade.

Poder público e incentivo à cultura alemã

Foto: Renato Soares

Incentivo e apoio à cultura alemã não faltam por parte do poder público: além das escolas bilíngues, existem leis oficializando o alemão e o pomerano, apoio aos grupos folclóricos e ao coral pomerano, à escola de bandoneons, às associações de artesanato e aos proprietários de casas do estilo enxaimel, com apoio no seu restauro e preservação, assim como na isenção do IPTU. Essas iniciativas, entre outras, acabaram transformando Pomerode em um destino de turismo cultural. “Os eventos oficiais do município, criados pela Secretaria de Turismo, usam a mesma fórmula, ou seja, promovem o resgate, a apresentação, divulgação e, por consequência, a preservação das tradições dos antepassados.” Assim, diz Gladys, surgiu a Festa Pomerana, com desfiles típicos pela cidade, concursos culinários, competições típicas, apresentações de grupos de danças folclóricas, grupos vocais, bandas, teatros e encenações de antigas tradições, sempre acompanhados pelo som de bandinhas de música típica alemã.

Eventos consagrados

Ao longo do tempo, foram surgindo eventos como a Ostermarkt, que depois se transformou em Osterfest, hoje na 11ª edição, consolidado como o maior evento da cidade em número de visitantes, e os ligados à Páscoa alemã e cristã. Outra atração que já está incorporada ao calendário de eventos de SC: o Festival Gastronômico de Pomerode, na 15ª edição, pensado para fazer resgates da gastronomia, com receitas antigas de família, muitas adaptadas, bem como da cozinha alemã contemporânea, e o KaffeeKlatsch, de confeitaria, que recupera a tradição de senhoras de se encontrar em torno de uma mesa com doces, no horário do café da tarde (encontro que é definido como Kaffeeklatsch). E existem ainda os eventos organizados pela iniciativa privada, de alcance estadual e nacional, a exemplo do Pomerode Bierfest, com atrações culturais típicas.

Rota do Enxaimel

Foto: Renato Soares

O bairro onde se localiza a Rota do Enxaimel denomina-se Testo Alto. As duas ruas principais que delimitam o trajeto de 16 km a ser percorrido são a Testo Alto e a Progresso. Entre elas, corre o Rio do Testo, assim denominado desde os primórdios da localidade. A Rota do Enxaimel foi inaugurada em maio de 2002 por iniciativa também da Secretaria de Turismo, com o incentivo do Conselho Municipal de Turismo (Comtur). O objetivo era criar atrativos para que o turista permanecesse mais tempo na cidade. “Neste sentido, o planejamento feito em parceria com a Secretaria de Agricultura e a Epagri era criar, ao todo, quatro rotas no interior do município: enxaimel, agroturismo, museus e mirantes, valorizando as atrações do percurso.” A Rota do Enxaimel foi a primeira a ser implantada, com a presença de grande número de casas do estilo, em bom estado de conservação, como a Casa Siewert (de 1913) e a Casa Wachholz (de 1867). Algumas famílias que participaram passaram a comercializar produtos na Rota, como bolachas, doces, geleias caseiras, além do artesanato. 

Turismo e desenvolvimento econômico

Segundo a vice-prefeita, a presença de turistas e visitantes na cidade já era percebida desde a década de 1930, em função da existência do zoológico, o terceiro mais antigo do Brasil. Mas a atividade turística começou a ser organizada a partir da instalação da Diretoria de Turismo no organograma da prefeitura em 1983. Políticas públicas, então, foram implementadas para  fomentar o setor. “A partir disso, foi feito um trabalho de conscientização da população, valorização do patrimônio material e imaterial, e divulgação destes valores junto à comunidade. Na rede escolar, este tema foi trabalhado intensamente com os alunos. E em outubro de 2005, foi assinada a lei que instituiu o programa de iniciação ao turismo nas escolas, cujo mote principal era promover a conscientização e a educação patrimonial e ambiental.”

Na sua avaliação, o turismo como atividade econômica não pode ser baseado apenas em eventos. A taxa de ocupação hoteleira não atingiria o número necessário para que os empreendimentos fossem economicamente viáveis, argumenta, acrescentando que é preciso criar, também, atrativos que garantam o fluxo de turistas o ano inteiro. “Neste aspecto, a Rota do Enxaimel cumpre bem o papel, pois possibilita uma ‘viagem’ na história e na memória, com a contemplação dos exemplares lá concentrados, da paisagem do entorno e também da visitação das casas que o permitem.”

A importância da Oktoberfest

Foto: Clio Luconi
Foto: Clio Luconi

Hoje considerada a maior Oktoberfest das Américas e a segunda maior do mundo, a grande festa da cerveja de Blumenau surgiu em outubro de 1984. Desde lá, ela ocorre ininterruptamente, chegando à 37ª edição em 2020. Na primeira, foram 10 dias de duração, contando com a presença de 102 mil pessoas e consumo de 103 mil litros de chope, segundo dados de Marcelo Greuel, secretário de Turismo e Lazer de Blumenau/SC e presidente do Parque Vila Germânica. “Hoje, a Oktober acontece em 19 dias, tendo, em 2019, passado pelos seus pavilhões 576.560 pessoas, e vendidos 526.281 litros de chope. A festa está em constante transformação, movendo-se em busca de se aprimorar, a cada ano, oferecendo qualidade na gastronomia e bebida e contato com a cultura germânica herdada dos nossos colonizadores.”

As grandes atrações

São muitas as atrações da Oktober, principalmente grandes bandas alemãs, fruto de um intercâmbio cultural entre Blumenau e Munique/Alemanha; os desfiles oficiais, com mais de 100 atrações, no Centro da cidade; tradicionais brincadeiras, como o Chope em Metro, Equilibrista do Chope e Prova do Serrador. “Chope em Metro é a mais antiga. O desafio é tomar uma tulipa com 600 mL de chope, sem álcool, mais rápido que os concorrentes.” Além disso, gastronomia e bebida — aproveitando que Blumenau é a Capital Brasileira da Cerveja e que a tradição dos colonizadores alemães deixou muitos rastros na gastronomia local. “São diversas opções de cervejas artesanais regionais e opções de pratos deliciosos, como o tradicional joelho de porco e o marreco recheado, para harmonizar.”


Contribuição para a cultura alemã

Foto: Daniel Zimmermann

“A Oktoberfest Blumenau respira tradição e cultura. A nossa festa tem uma identidade muito clara, e penso que isso é o que a torna tão irresistível, tanto para os moradores da região quanto para os turistas que vêm de todo o mundo para conhecer de perto todo o significado dela. É música, dança, gastronomia, chope, e muita diversão!”, diz um entusiasmado secretário. Para ele, a festa mantém vivas as tradições alemãs deixadas pelos antepassados. “Embora a cidade cresça e se desenvolva, outubro é sempre o mês para celebrar a nossa cultura. É uma forma de eternizar a história, relembrando sempre sobre os costumes dos alemães que fundaram Blumenau, em 1850.”

Grupo Folclórico Germânia, tradição na dança

O Grupo Folclórico Germânia foi fundado em março de 1988 por alguns amigos para resgatar, preservar e manifestar a cultura alemã pela dança folclórica, tendo como sede o clube de caça e tiro Sociedade Recreativa e Cultural Fortaleza Tribess. Atualmente, como revela o coordenador geral Roger Carlos Veneri, é constituído por mais de 40 integrantes, entre jovens e adultos, divididos em duas categorias — adultos e casados. As apresentações já percorreram boa parte do país, e em várias cidades de SC, principalmente onde prevalece a influência germânica e, claro, na Oktoberfest.

Foto: Divulgação

Além de apresentações, o Grupo Folclórico Germânia participa de encontros e festivais folclóricos. “São nesses lugares que o grupo se destaca, quando o assunto é a alegria, integração e criação de grandes laços de amizade dos seus integrantes com outros grupos folclóricos”, afirma Roger. Fiel às tradições alemãs, o grupo carrega no seu estandarte o símbolo da República Federal da Alemanha e usa trajes elaborados por meio de pesquisa histórica, baseados nas vestes tradicionais de regiões da Alemanha. 

Danças que contam histórias

Mas é preciso muito ensaio, durando aproximadamente duas horas cada, para que os integrantes aprendam os passos e evoluções das danças. “Todas elas contam uma história de forma descontraída. Nosso grupo apresenta danças de várias partes da Alemanha e também de outras etnias de origem germânica.” Qualquer pessoa pode participar, desde que tenha bastante disposição e condições de realizar giros, pulos e passos de dança, que são a base da dança folclórica.

O grupo possui um coordenador, que repassa as danças que aprende nos cursos da Casa da Juventude (Gramado/RS) e pela Associação dos Grupos Folclóricos Germânicos do Médio Vale do Itajaí (AFG). Os cursos são para capacitação dos coordenadores, com professores da Alemanha especializados. “Lembrando que o Grupo Germânia não apresenta danças criadas, e sim danças folclóricas de origem germânica, repassadas de geração em geração”, registra Roger.

Legado para gerações futuras

O coordenador geral afirma que a cultura alemã ainda aqui preservada não encontra mais similar sequer na própria Alemanha. “Mas entendemos que faltam meios e formas de incentivo à preservação da herança cultural germânica, que cada vez é menos difundida e conhecida pelas gerações futuras.” Também cita Pomerode, “que abriga o maior conjunto de edificações enxaimel fora da Europa”. Por fim, ele espera que haja mais apoio do poder público, especialmente à dança folclórica. “Não conhecemos nenhum tipo de incentivo para o folclore, caso das danças e canções executadas durante os festejos atuais. Poderia haver mais incentivo, disponibilizando espaço dentro das escolas, onde os grupos folclóricos poderiam transmitir às crianças o conhecimento histórico das coreografias e trajes, preservando essa forma de manifestação cultural.”

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