Profissão cerveja — Como é, para uma mulher, trabalhar com cerveja?

Por Fernanda Meybom, engenheira química, sommelier e mestre em estilos e avaliação de cervejas.

Desde que comecei a trabalhar com cervejas, em todas as entrevistas que concedi, raramente essa pergunta não apareceu. E quando menciono que sou engenheira de formação, o comentário mais comum é “ah, então você está acostumada com esse meio, né?”. E eu sempre reflito sobre essa questão, ao que exatamente eu já deveria estar acostumada. A ser desrespeitada e ser obrigada a ignorar?! Acostumada a que a postura machista em ambientes da ciência e tecnologia é uma prática comum e bem normalizada?! Eu dedico boa parte da minha vida à ciência, quando, nos meus 14 anos de idade, iniciei meu primeiro curso na área tecnológica e, confesso, eu nunca me acostumei a nada.

Trabalhar com cervejas ou em tecnologia é tentar fazer diariamente com que pessoas reflitam e entendam que não sou eu quem deve se acostumar ao preconceito ligado a mulheres nestas profissões, mas sim as posturas preconceituosas é que devem ser mudadas, excluídas, de preferência.

O desafio da mulher de viver em pleno século XXI à mercê de (pre)conceitos tão antiquados, que são, literalmente, de séculos passados me faz pensar respeitosamente que somos hoje um tipo de sufragistas modernas. (Resumidamente, sufrágio é um movimento social, político e econômico de reforma, com o objetivo de estender o direito a voto às mulheres do Reino Unido no século XIX.)

Na época, as sufragistas foram tidas como loucas, solteironas “mal-amadas”, histéricas, encrenqueiras e criminosas, tudo isso apenas por lutarem por um direito básico, como votar, por exemplo. Hoje, passados (quase) dois séculos, quando uma mulher questiona, dá sua opinião, reivindica seus direitos (básicos, garantidos pela Constituição), ou ainda exige respeito, seja no bar ou num festival de cerveja, qual o rótulo que ganhamos?! Sim, exatamente: esses de DOIS SÉCULOS atrás!

Recentemente, numa conversa num grupo de WhatsApp de profissionais do mercado cervejeiro do Brasil, o objeto em questão era uma loja de departamentos criar um “cantinho” tipo bar para maridos enquanto estes esperam suas mulheres fazerem as compras. Confesso que, quando li, eu pensei: trabalhar no mercado cervejeiro me faz sentir cansada. Trabalhar no mercado cervejeiro me faz sentir repetitiva. Trabalhar no mercado cervejeiro me faz sentir como se eu nadasse e morresse na praia. Trabalhar no mercado cervejeiro me faz sentir que eu devo, todo dia, amar muito minha profissão porque, sim, dá vontade de desistir.

A questão em criar “espaço homem” me lembra diretamente o “espaço kids”, porque é o que tem nos shoppings ou em outros lugares e eventos para que as mães possam fazer suas atividades, ou apenas para que tenham seus raros momentos de lazer enquanto os filhos ficam brincando. Sim, mulheres que são mães têm direito a lazer. Mas essa é outra questão. Aqui vamos pensar porque o homem precisa de um “espaço homem” para beber cervejas em shoppings.

Primeiro vem o fato de que muitos homens podem ainda não ser capazes de comprarem suas próprias roupas, ou ainda delegam a tarefa, com a desculpa de que “as mulheres entendem mais do assunto”, ou acreditam que as tarefas de comprar roupas e presentes de natal ou de qualquer outra data comemorativa não seja deles, mas sim das mulheres. Um colega, inclusive, citou no grupo que a maior parte das pessoas que estava no departamento masculino (sim, masculino!) da tal loja eram mulheres, justamente corroborando tal ideia.

Depois, podemos pensar ainda no fato de que muitos casais fazem tudo juntos e só podem sair juntos. Mas só em parte, não é mesmo? Porque o homem ainda pode ir ao bar sozinho ou com amigos — porém, e a mulher?! Se uma mulher casada, como eu, por exemplo, está no bar sozinha, a primeira pergunta é “onde está seu marido?” e a segunda é “mas ele DEIXA você sair sozinha?”. Isso quando não emendam o infeliz comentário “eu jamais deixaria uma mulher como você sair sozinha”.

E se eu responder que meu marido não é meu proprietário, que eu não preciso de autorização dele para nada e que um “homem como você” jamais seria meu marido/namorado, eu sou tida como grossa, estúpida e de TPM. E essa resposta é a simples e óbvia verdade. Nesse contexto, ninguém pensa (talvez nem você que está lendo este artigo) que a pessoa já me ofendeu lá na primeira pergunta, ou seja, minha resposta não deveria existir porque esse tipo de pergunta não deveria ser feita.

Além disso, o que as pessoas pensam de uma mulher sozinha num bar? Infelizmente, eu tenho incontáveis desagradáveis situações que vivenciei, inclusive algumas bem recentes. Uma mulher ir a um bar para apenas beber sua cerveja sozinha ou com amigas soa quase como uma ofensa para um homem. “Como assim ela só veio beber uma cerveja?! Com certeza está procurando ‘alguma coisa’.” Sim, procuramos: a cerveja.

Já participei também de debates com o tema “Mulheres no Mercado Cervejeiro” no Mondial de La Bière e no Festival Brasileiro de Cervejas, dois dos maiores eventos de cerveja no Brasil. Na mesma linha das entrevistas, sempre me questionei por que ainda precisamos de um debate sobre isso. Infelizmente, precisamos, sim.

Precisamos de perguntas como essa, precisamos de debates com esse tema e precisamos escrever artigos como este enquanto ainda houver preconceito e discriminação, enquanto ainda negarem empregos às mulheres em cervejarias (às vezes, nem como estagiárias são admitidas) ou em bares por causa apenas do gênero e, ainda algo mais grave, enquanto houver assédio e desrespeito, até mesmo com as piadinhas tidas como bobas, mas carregadas de ofensas.

Enquanto essas e tantas outras situações existirem, a Fernanda, mulher, que algumas vezes trabalha no mercado cervejeiro cansada, desanimada e sendo deliberadamente ofendida, vai conceder entrevistas, ir a debates, vai escrever e falar em nome dela e de muitas mulheres, que é, sim, um desafio trabalhar com cerveja, mas que já conquistamos importantes espaços e vamos conquistar ainda mais.

Porque é dessa forma que uma mulher trabalha no mercado cervejeiro: conquistando o seu espaço em lugares onde sempre pertenceu.

>> Leia a última coluna de Fernanda Meybom

3 Comments

  1. E a gente vai continuar vindo aqui, aplaudindo, compartilhando e mostrando que a evolução está longe de estacionar, pois não é apenas na qualidade do líquido que o ser humano precisa melhorar seu entendimento. É no respeito e na diversidade. O buraco é tão fundo, mas seu texto traz luz neste túnel chamado 2019.

  2. Obrigada pelo texto, até que enfim alguém veio falar a verdade.
    Eu trabalho em bares de cervejas artesanais há quase 10 anos, fiz alguns cursos, acabei de trancar meu curso de tecnologia cervejeira por mais uma vez estar cansada e desanimada. Atrás do balcão sofremos muitos preconceitos, abusos, assédio e machismos vindo de mulheres também e não e menos importante classicismo vindo de mulheres e Biersommeliers, nunca fui tratada bem por uma, inclusive várias delas compartilharam esse texto.
    Esse ano no dia Internacional da mulher, não sei se você se lembra mas rodou vídeos de escolas voltadas aos estudos cervejeiros e pouquíssimas delas falaram o que acontece realmente no meio cervejeiro com as mulheres, ou sei lá, talvez elas não percebem (não sei como) mas uma e outra falaram que são super apoiadas e que não sofreram. Abri algumas discussões, fui completamente ignorada, insisti, fui ignorada novamente.
    Desculpe o desabafo. Precisamos falar sobre isso, precisamos falar sobre essa “herarquia” do trabalho no mercado cervejeiro e sobre mulheres que trabalham na área e de respeito, empatia e sororidade além da hipocrisia da fachada das time lines do facebook onde o feminismo só existe pra ficar fora da curva. Quem serve cerveja também estuda e rala e luta, precisamos nos respeitar antes mesmo de pedir respeito à eles homens.

  3. Obrigada pelo texto, até que enfim alguém veio falar a verdade.
    Eu trabalho em bares de cervejas artesanais há quase 10 anos, fiz alguns cursos, acabei de trancar meu curso de tecnologia cervejeira por mais uma vez estar cansada e desanimada, sem dinheiro e sem disposição e saúde mental.
    Atrás do balcão sofremos muitos preconceitos, abusos, assédio e machismos vindo de mulheres e não e menos importante classicismo vindo de mulheres e Biersommeliers, nunca fui tratada bem por uma, inclusive várias delas compartilharam esse texto.
    Esse ano no dia Internacional da mulher, não sei se você se lembra mas rodou vídeos de escolas voltadas aos estudos cervejeiros e pouquíssimas delas falaram o que acontece realmente no meio cervejeiro com as mulheres, ou sei lá, talvez elas não percebem (não sei como) mas uma e outra falaram que são super apoiadas e que não sofreram ou sofrem machismos. Abri algumas discussões, fui completamente ignorada, insisti, fui ignorada novamente.
    Precisamos falar sobre isso, precisamos falar sobre essa “herarquia” do trabalho no mercado cervejeiro e sobre mulheres que trabalham na área, e sobre respeito, empatia e sororidade que tanto está em falta, da hipocrisia da fachada das time lines do facebook onde o feminismo só existe pra ficar fora da curva.
    Quem serve cerveja também estuda e rala e luta, muitas estamos ali porque somos também apaixonadas por cerveja, e muitas não tem condições de pagar cursos caros. Precisamos nos respeitar antes mesmo de pedir respeito à eles homens.
    Juntas somos a solução e não a rivalidade.

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