Turismo cervejeiro — Sobre “sobrevivência”

Por Ana Pampillon, turismóloga, sommelier de cervejas, coordenadora da Rota Cervejeira RJ e atuante no mercado de lúpulo brasileiro. 

Um ano se passou desde o início da pandemia, e acredito que esse tema já esteja se esgotando, mas acho que a data vale para um balanço e reflexão do que foi esse último ano. Um ano em que as cervejarias, brewpubs e bares se reinventaram, de tal forma que por muitas vezes sua própria identidade foi questionada.

Entre os sobreviventes, quando pensam que tudo de pior passou, vem mais lambada para realmente percebermos o quão forte é a matéria prima do ser humano cervejeiro. Não é somente feita de malte, água, lúpulo e levedura como a cerveja. Tem algo mais nessa “carcaça” cervejeira que vai muito além da paixão.

O fio condutor para escrever a coluna desse mês veio por uma ação de uma prefeitura que ataca uma categoria que gera muitos empregos, gera muitos impostos, gera renda em toda uma cadeia que provêm especialmente do turismo como um todo e não somente o cervejeiro.

Aproveito meu lugar de fala para dar espaço ao sentimento que nesse momento assola os empresários do setor onde sofreram mais essa “paulada” na cabeça. As cervejarias, bares e restaurantes da cidade de Petrópolis, localizada na região serrana do Rio de Janeiro, foram duramente atacadas em uma campanha de um comercial, em que poderiam ter apelado de várias formas.

Trago um trecho de uma carta aberta de alguns empresários do setor cervejeiro da cidade de Petrópolis para contextualizar melhor a situação que se encontram.

“Somos comerciantes, proprietários de bares, restaurantes e cervejeiros em Petrópolis. Empreendedores, acordamos cedo, dormimos tarde, com o objetivo que nossa cidade cresça, se desenvolva, se reinvente que, assim, nosso comércio crescerá também.

Queremos que a economia se desenvolva e lutamos por uma cidade mais justa; com emprego para todos, saúde e educação de qualidade; turismo e entretenimento aquecendo esse sistema. Como empresários legalizados pagamos impostos, assinamos carteiras de funcionários, gerando empregos diretos e indiretos nesse mesmo município.

Quando um estado de calamidade pública assola o país, o estado, o município, nós cidadãos contribuintes e dependentes da economia local só esperamos ser defendidos, protegidos, apoiados, ouvidos. Quando a PMP, em sua página oficial, posta um vídeo sem referências científicas, mal elaborado, tendencioso, ela ataca diretamente esse empreendedor local, o gerador de empregos e uma das molas dessa economia. Sendo o cervejeiro artesanal, o dono do restaurante tradicional ou não, o empregador, com o sentimento de menosprezo, atacado, sem saída.

Lembre, Prefeitura, da Bauernsfest, a segunda maior festa da cultura alemã do Brasil e a maior festa cervejeira do estado; lembre das feiras de cervejas artesanais; lembre dos artistas petropolitanos. Todos fonte de receitas importantes que foram interrompidos! Não faça isso conosco! Publiquem vídeos e textos com orientações à população. Coloquem seus especialistas para falar. Mostrem suas equipes fiscalizando as irregularidades. Informe a população sobre a situação de recebimento de doses das vacinas e sua metodologia de distribuição. Apresente dados científicos locais, estudem sua população.

Aonde estão os surtos? Quem está sendo mais afetado por essa doença (idosos, comorbidades)? Quais são os dados, baseadas em estudos científicos da equipe da secretaria de saúde, que norteiam as ações de prevenção locais? Não nos deixem na mão e sozinhos, nos colocando como vilões! Estamos passando por isso a um ano e não temos mais uma saúde financeira forte, onde o governo não pode nos garantir o ganha pão.

Só queremos trabalhar e colaborar com as ações técnicas; respeitar os protocolos; contribuir para que esse momento seja de fato passageiro; manter nossos negócios vivos é manter parte da saúde funcionando, possibilitando que nossos trabalhadores continuem comprando suas comidas, remédios e cuidando das famílias. Este vídeo e campanha nos trata de maneira desrespeitosa e coloca os nossos negócios antagonistas da saúde pública! Estamos pedindo que nos respeitem!”

O vídeo ao qual o empresário se refere começa com uma conversa de WhatsApp em que uma pessoa convida o grupo para um chope e alguns respondem, menos o Carlinhos que morreu de Covid. A campanha diz que o chope de sexta vai voltar mas o Carlinhos não.

Forte?! Sim. Será que não teria uma campanha que impactasse sem sangrar ainda mais um setor que contribui tanto para a economia da cidade e de toda uma região? Fica o desabafo. Fica a reflexão.

E vamos em frente.

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