Foi com profundo pesar que recebemos a notícia de falecimento de Kátia Jorge em 20 de dezembro de 2025. Kátia foi uma pioneira na artesanal brasileira, abrindo portas e compartilhando conhecimento com centenas de profissionais cervejeiros que tiveram a sorte de conhecê-la.
Kátia tinha 62 anos e atuava como diretora das Américas da FlavorActiv. Engenheira química, mestre em Bioquímica e doutora em Ciências de Alimentos, ela formou-se cervejeira pela VLB Berlim e sommelier de cerveja e vinho pela DoemensAkademie/Senac-SP. Cervejeira, atuou em grandes marcas e voltou os olhos para as artesanais, participando de associações como a Associação Brasileira dos Profissionais de Cerveja e Malte (Cobracem) e contribuindo para os rumos da cerveja brasileira. Consultora, participou da fundação e crescimento de dezenas de negócios. Jurada, esteve na consolidação da qualidade das artesanais ao julgar diferentes concursos. Professora, pavimentou o caminho para que centenas de profissionais seguissem seu legado. Sua atuação foi fundamental para o movimento cervejeiro, influenciando os rumos de crescimento do setor e as vidas de todos nesta área.
A mestre-cervejeira faz parte da história da Revista da Cerveja desde o seu início, integrando o Conselho Editorial e nos honrando com suas contribuições. Concedeu a primeira entrevista para a seção Mestre e voltou a participar, com generosidade, de diversos conteúdos ao longo dos anos, inclusive assinando a coluna Momento Sensorial em 2018.
Manifestamos nossa mais sincera solidariedade aos familiares e amigos por esta inestimável perda. Todos perdemos imensamente com o seu falecimento. O setor cervejeiro não seria o mesmo se não fosse por ela.
Nossa homenagem
Para homenagear e valorizar a história de Kátia Jorge, publicamos a seguir a entrevista concedida por ela para a RC nº 48, edição de setembro de outubro de 2020, na qual recupera sua trajetória e compartilha seus pensamentos sobre o mercado brasileiro de cerveja.
SEÇÃO MERCADO BRASILEIRO RC #48
Produção: Andréia Ramires | Texto: Emílio Chagas | Foto: Letícia Garcia
Kátia Jorge – Conhecimento cervejeiro sem fronteiras
Ela é o que se pode chamar de “cidadã do mundo” — e do mundo cervejeiro, no caso.
Com 57 anos, Kátia Jorge possui uma grande trajetória e muita estrada, com viagens de trabalho e estudos pelos principais países do mercado de cerveja — Alemanha, Bélgica, Estados Unidos, Inglaterra, México, Portugal e vários outros. No mercado interno, é reconhecida como um dos principais nomes do meio cervejeiro, seja como professora, consultora, jurada ou mestre-cervejeira. Profissional versátil, vive atualmente entre o Rio de Janeiro e o Canadá como diretora das Américas da FlavorActiv, empresa especializada e líder mundial em gestão sensorial na área de alimentos e bebidas. Engenheira química, Kátia também é formada cervejeira pela VLB Berlim/Alemanha e sommelier de cerveja e vinho pela Doemens Akademie/Senac-SP.
Como começou a sua relação com o mundo cervejeiro?
Quando fui morar em Berlim, acompanhando o meu marido na época, que era aprendiz de mestre-cervejeiro na Brahma, em 1984, quando casamos. Eu queria continuar estudando química, fiz prova e entrei na Universidade Técnica de Berlim (TU Berlin), porém, as aulas do meu marido eram mais fascinantes e comecei a me interessar por cerveja. Era a única mulher da classe. Também comecei a dar aulas particulares de química e trabalhei, inclusive, como pesquisadora dentro da universidade, no início de 1986. Meu salário fazia a diferença. O laboratório onde trabalhei prestava serviços para as cervejarias e eu mexia com equipamentos na parte (que eu amo) analítica de água, tanto cervejeira como de despejo, análise de organoclorados na água, por exemplo. Aprendi muito sobre análise instrumental. Essa parte vem evoluindo muito, porém, o princípio continua valendo.
Era para ficarmos lá dois anos apenas, mas quando ele estava terminando e era para voltar para o Brasil, ele foi convidado a continuar, fazer o curso de Engenharia de Alimentos/Engenharia cervejeira. Ele aceitou — naquela época, só existiam cinco [engenheiros cervejeiros] aqui no Brasil. Para mim, foi ótimo, eu já estava trabalhando, continuei o que eu estava fazendo. Voltamos no final de 1988.
Como foi a volta?
Ele foi direto para o trabalho, e eu tinha conhecido a gerente de qualidade da Brahma, que foi fazer um curso em Berlim e acabou conhecendo meu trabalho no laboratório — e disse que era exatamente o que ela queria que eu fizesse no laboratório da Brahma. E disse que, quando eu voltasse, fosse falar com ela. Quando voltei, ela ligou me chamando, e comecei em seguida.
Cervejeira no Brasil
Como foi seu início na Brahma?
Acabei substituindo uma pessoa que havia saído e que já tinha iniciado a cromatografia a gás. Tínhamos um laboratório montado com equipamentos brasileiros e já se analisava diacetil por GC, headspace. Fiz, então, um upgrade nesse laboratório, com uma equipe pequena. Também introduzi a cromatografia líquida, desenvolvemos alguns métodos analíticos e adequamos outros.
Quanto tempo você ficou na Brahma?
Nesse local, eu fiquei de 1989 a 1992, aí a pesquisa saiu da área industrial e passou para o marketing, mudando, inclusive, de lugar, indo para o prédio central, na Tijuca, no Rio de Janeiro/RJ. Ali começamos o planejamento do Centro de Pesquisas e Desenvolvimento da Brahma, que ia ser montado em Guarulhos/SP. E aí já era o início da Ambev.
Em 1995, fiz uma grande mudança indo para São Paulo. Eu tinha filho pequeno, minha mãe e meu marido tomavam conta dele durante a semana — ia para São Paulo na segunda-feira e voltava para o Rio na sexta-feira. Meu marido não foi porque continuou sendo da diretoria industrial. Eu esperava que ele fosse para lá, mas isso não aconteceu, e veio o pior: chamaram a gente e disseram “agora não pode mais marido e mulher na empresa, vocês vão ter que decidir” [mudou a política da empresa]. Então eu decidi sair — ele já tinha 21 anos na empresa e eu, apenas sete.
Era impossível trabalhar em qualquer outra cervejaria porque não se admitia que você migrasse de uma para a outra, acho que pensavam que existiam muitos segredos… Aí resolvi estudar, fazer mestrado em Bioquímica. Fiz a prova, tirei primeiro lugar no Instituto de Química da UFRJ. Me encantei pelo café e pensei que iria trabalhar um pouco nessa área, estava decidindo quando a Brahma me chamou de novo.
Você fez o mestrado e voltou para a Brahma?
Sim, como contratada, para continuar a montar o centro de pesquisa e desenvolvimento (laboratório e a cervejaria piloto) em Guarulhos. Nesse meio tempo, meu mestrado foi financiado na área de lúpulo. Fui para Alemanha, Estados Unidos, Inglaterra, tudo em função do lúpulo. Em 96, descobri que estava grávida, mas tinha que viajar ainda porque havia um plano de viagem para coleta de amostras e adequação de metodologia analítica para ser feita na Inglaterra. Continuei fazendo mestrado, trabalhando para a Brahma, e eu, grávida já de oito meses, andando de trator pelas plantações de lúpulo na Alemanha.
BrewTech e novas cervejarias
O que fez depois de sair da Brahma?
Em 1997, o André Nothaft me convidou para ser sócia dele na BrewTech. Ali a gente fez todo o planejamento que deu origem ao primeiro centro de pesquisa e desenvolvimento independente da América Latina, inaugurado em agosto de 1997, em Jacarepaguá, no Rio. Fiquei na BrewTech só até terminar o meu doutorado, mas fizemos várias coisas, foi outro aprendizado na minha vida, dedicado ao negócio. Passamos a prestar serviços para a Cargill, Maltaria Agrária, Grace, Maltaria do Vale, dentre outras. Trabalhamos com enzimas, sílicas, diferentes caramelos, maltes e malteações diferentes, insumos e outros ingredientes. No finalzinho do meu doutorado, em 2002, fui para Portugal e fiquei lá até a metade de 2003. Na volta, a sociedade já tinha se desgastado um pouco, os funcionários não estavam muitos felizes, e eu também não. Vi que podia fazer outras coisas.
Você fez o doutorado em quê?
Em Ciências de Alimentos, era estabilidade físico-química da cerveja, utilizando análise sensorial como ferramenta de medição da qualidade.
E como foi o período com a Devassa?
A Devassa foi antes de eu ir para Portugal. Ela nos procurou em 2001. Já tínhamos outro negócio, de indústria e comércio, para ajudar a custear o nosso laboratório de pesquisas — eu, o meu sócio André Nothaft e mais um sócio, o nosso amigo Edson Patrocínio, da Mec Bier. Acho que fomos pioneiros nesse negócio de ciganos. A gente fazia cerveja com a marca do restaurante, de churrascaria, pizzaria, onde houvesse a demanda de cerveja com a marca própria. E a Devassa veio nessa onda, alguém falou para eles que nós estávamos fazendo cerveja sob licença. Até então, não havia demanda para outros estilos, somente Lager. Quando o Marcelo do Rio e o Cello Macedo, da Devassa, vieram, não havia o conhecimento profundo dos estilos de cerveja, essa descrição do BA ou do BJCP. A gente tinha nosso background da Alemanha, conhecíamos o Michael Jackson [estudioso de cerveja na década de 1980/90] já fazendo as suas catalogações de estilos, mas ninguém falava muito sobre isso, e a maioria dos consumidores não sabia disso também.
Eles [da Devassa] vieram já com uma ideia do que queriam, com uma pegada tropical, uma “loura”, que seria a Lager deles, um pouco amarga, com presença de lúpulo. Também queriam uma ruiva, aí fizemos uma Pale Ale. Essa tinha uma pegada mais inglesa do que americana, mais low profile, mais pelo equilíbrio e drinkability do que qualquer coisa
A Devassa surgiu, então, com a BrewTech?
Sim. Foi onde fizemos também os projetos da Eisenbahn (SC) e da Wäls (MG). Só que essas duas foram projetos desde o início, não só formulação, como o caso da Devassa. Fomos lá montar a cervejaria, dar a partida, fizemos toda a equalização de proposta de fornecimento de equipamentos — já existiam fornecedores brasileiros, como a Egisa(RS), Mec Bier (SP) e outras. O nosso equipamento, na BrewTech, era canadense.
Foi depois do seu doutorado que o trabalho com a Devassa se aprofundou?
Quando eu voltei, em 2003 e a sociedade [da BrewTech] terminou, eu não estava mais querendo cerveja na minha vida. O meu marido, Fernando Soares de Araújo, já estava trabalhando em uma cervejaria no Sul, viajando para casa de 15 em 15 dias. Eu falei “vamos todos para lá”. Pensei em entrar para outra área, para não trabalhar mais com cerveja. Então passei num processo seletivo para trabalhar na Phillip Morris, que ficava em Santa Cruz/RS, novamente com cromatografia a gás. Pensei que essa seria uma saída, porém, naquela mesma semana, o Cello, da Devassa, me chamou para visitar a cervejaria deles, já sendo montada no Bairro Santo Cristo (RJ), inclusive já tinha equipamento brasileiro, muito bom, da Egisa (RS). Fui conversar com eles, acertamos meu salário, me contrataram e fui muito feliz, de 2003 a 2007, até que a Schincariol comprou a Devassa em julho de 2007.
Consultoria cervejeira
Como foi seu período durante e após a Devassa?
Bem, eu fiquei até o fim da Devassa. Fui convidada para ficar na Schincariol, mas falei que não queria. E foi quando decidi que iria viver do meu nome. Os “meninos” da Devassa me deram muito respaldo. Quando era para falar de cerveja, eles não dividiam o palco comigo — eles me davam o palco. Quando era para falar dos negócios, tudo bem. Fui diretora industrial e depois de operações, cuidando da logística e de toda a área de compra de insumos, tanto para a cervejaria como para os bares, porque, no início, eles eram só um bar no Leblon. Nesses quatro anos, a gente teve 14 bares — um em SP e 13 espalhados pelo Rio de Janeiro. Era bastante trabalho, mas foi um enorme aprendizado para mim. Primeiro, porque cheguei na cervejaria numa posição muito privilegiada, de montar toda a minha equipe, resgatar a identidade das minhas “filhas” [cervejas]. Era uma equipe que trabalhava com muito respeito, cumplicidade e companheirismo. A fábrica ficava inteira comigo e minha equipe, as chaves, código de segurança. Foi um dos períodos mais felizes da minha vida profissional.
Foi depois disso que você começou a fazer consultorias?
Sim, aí comecei. Lá vou eu, agora é Kátia Jorge! [risos] Comecei a fazer formulações, uma cerveja aqui e ali, vieram projetos, muitos. Mas não fiquei muito tempo nessa vibe,não: logo me “pegaram” numa outra sociedade, mesmo fazendo ainda alguns projetos. Isso que eu tinha prometido para mim mesma que não entraria em mais nenhuma sociedade: fui sócia de um bar no Leblon e de uma cervejaria. Mas a sociedade durou pouco. Foi tão curta e estressante que fui embora para o Sul, para Santa Maria/RS, aí fomos todos morar com meu marido. Foram cinco anos de muitas viagens.
Fale um pouco sobre as suas pesquisas e a sua visão sobre incentivos às pesquisas cervejeiras.
Pesquisas em níveis artesanais não existem. As pessoas até fazem, mas não da forma correta, como uma pesquisa científica. Por exemplo, o dry hopping, até hoje, cada um faz de um jeito — o tempo, o tipo de equipamento usado, a quantidade de lúpulo, a variedade. Mas a gente está num momento em que deveria estudar melhor o dryhopping, por exemplo. Isso é uma coisa nossa, coisa do segmento craft. Só que tem que fazer tudo muito certinho, utilizar desenhos experimentais, anotando as temperaturas, tempos, etapas de processo, quantidade de lúpulo, variedade, etc. Mas ainda não temos todos os dados de todos esses diferentes trabalhos desenvolvidos juntos, como uma grande matriz de dados.
Claro, tem livros sobre lúpulo, água, malte, mas isso tudo já existia. A fonte de onde se bebe é a mesma, e é muito da grande cervejaria. Eu fico triste quando vejo alguns profissionais craft colocando a grande cervejaria como sendo um “demônio”. Pode até ser, quando se trata de uma relação comercial, eles não vieram para perder, por isso são grandes. Têm logística, toda uma fortaleza por trás, as relações com eles são leoninas, mas o aprendizado vem de lá. Senão ninguém estaria fazendo cerveja em tanque de inox, uni tanque, por exemplo.
Há várias pesquisas já realizadas e em andamento, métodos científicos de medição de vários parâmetros de processo que podem ser encontrados na American Society ofBrewing Chemists (ASBC) ou na Master Brewers Association of the Americas, ou na European Brewing Convention (EBC), por exemplo.
Seja qual for o tamanho da cervejaria, há uma preocupação com a shelf life das cervejas mais sensíveis, que não são para envelhecer, que possuem data de validade de seis meses, por exemplo. Se esta é uma preocupação, então tem de haver uma preocupação com as etapas do processo de fabricação, com a armazenagem, o transporte. A oxidação é a grande inimiga. Existe um equipamento que vem fazendo bastante sucesso na medição de radicais livres na cerveja. Ele dá a exata posição em que a cerveja está e quanto tempo ela tem de prateleira. É um grande investimento, mas o retorno é certo e nada impede que uma cervejaria craft faça esse investimento para poder monitorar, adequar o seu processo de produção até o produto final.
Anos de mercado
Como era o início da cerveja do Brasil, já que você tem mais de 30 anos de mercado?
Ah, era muito difícil. Não tínhamos acesso a matérias-primas especiais no fim dos anos 1990. Era difícil conseguir malte, levedura e lúpulo. Primeiro, quem nos ajudou com cargas menores de malte e lúpulo foi a Maltaria do Vale, do Sr. Júlio Landmann, depois veio a Maltaria Agrária, o Frank Nohel nos ajudando também com amostras de maltes especiais.
E o microrganismo? Nossa, era um contrabando que se fazia! Não havia esse acesso à internet, nem essa comunidade cervejeira craft. Isso tudo é muito novo, tem 15–20 anos. Era cada um por si. Depois, começamos a ver alguns nomes despontando, o Marcelo [Carneiro, então da Colorado, de Ribeirão Preto/SP], o Dado [Eduardo Bier, da Dado Bier, de Porto Alegre/RS], o Marcelo do Rio e o Cello Macedo [da Devassa], mas hoje sabemos que muito antes já se fazia cerveja no sul do país e em outras regiões. Existiram muitos desbravadores.
Explodimos aqui no RJ, com o bar do Leblon vendendo 10 mil L num lugar onde cabiam 100 pessoas, mas como vendia! As pessoas bebiam em copo plástico, do outro lado da rua. Era impressionante. E não havia vocabulário de estilos de cerveja; pediam “me dá essa aí, a loura, a ruiva…”. Sem sermos chatos, estávamos começando a educar o público, falar sobre estilos de cervejas e onde as cervejas da Devassa se enquadravam. Eu dei algumas palestras na parte de cima do bar, onde a gente fazia algumas reuniões. Isso era 2003, 2004, as pessoas vinham ávidas por informação. Fiz o curso de sommelier aqui no Brasil com a Cilene [Saorin] em 2010.
O que destaca das primeiras microcervejarias daquela época?
A cervejaria Devassa era grande, 4 mil L de brassagem. E o que é muito interessante nessa época é com relação aos modelos de negócio: eram diferentes, com identidades diferentes. A Devassa cresceu com as cervejas sendo o foco, com o slogan “Aqui se faz, aqui se bebe”, e fornecia para os seus próprios bares, onde o cardápio já harmonizava com as cervejas. Os pratos eram sugeridos. O Dado, já com pub como modelo de negócio, com música, casa noturna, que produzia a sua própria cerveja. Já o Marcelo, nada de bar, ele tinha a fábrica, e as suas cervejas sendo produzidas com ingredientes locais. Uma outras história a ser contada. Lembro da primeira Brasil Brau com o espaço Beer Lounge: só tinha Devassa e Falke Bier (MG) com estande.
A gente sempre teve cerveja sendo produzida em casa, em inúmeros lugares do Brasil, por essa descendência e colonização alemã. Então tem essa caminhada, anterior a essa consequência dos anos 1980 nos Estados Unidos, que nós começamos a viver nos anos 90.
Quais as principais mudanças que você acompanhou ao longo desse tempo? E qual sua avaliação como jurada, da qualidade das cervejas, de 90 para cá?
Maior estabilidade do produto, mais conhecimento, pessoas com maior poder aquisitivo. Quem entrava para esse negócio, se não era o total financiador, tentava ter algum fundo do governo ou financiamento de um banco. E já tínhamos equipamento brasileiro sendo ofertado, tecnologia, como foi o caso da Mec Bier, vinda do setor lácteo ou do lado do vinho, como foi com a Egisa. Ou seja, já havia expertise em fabricação de tanques em inox e domínio do frio, da tecnologia de produção, o que ajudou muito.
Vejo que algumas cervejas estão evoluindo em qualidade. Tem algumas que são e continuam sendo boas, não é à toa que têm medalhas em tantos concursos. E são cervejas de produção, fiéis aos seus estilos, e não as feitas para ganhar medalha em festival ou as que estão sempre oscilando — ora estão bem, ora estão mal, isso se vê bastante. Mas o que era muito ruim, já sumiu [risos]. O que falta, não é processo — são muitos cervejeiros que dominam o processo, estudam —, creio que o que falta é um plano de qualidade que seja sustentado por três pilares: controle físico-químico, controle microbiológico e controle sensorial.
Na FlavorActiv
Como começou e como é o seu trabalho na FlavorActiv?
A FlavorActiV existe há mais de 20 anos. Em 1999, o CEO atual, Richard Boughton, tinha acabado de assumir e estava expandindo o mercado. E o Brasil sempre foi um grande mercado, com fortes grupos cervejeiros. Ele veio ao Brasil para visitar a Brasil Brau, fomos apresentados e conversamos. Depois, evoluímos a conversa; em 2000, fizemos um workshop no Brasil e as pessoas ficaram sabendo da FlavorActiv, a utilização de cápsulas de flavor, a forma fácil de aplicação do flavor à cerveja, sem aquela preparação toda, de diluição de padrões químicos. Uma preparação fácil, rápida e no local do treinamento, sem preparação prévia. Em 2001, fui para a Inglaterra, onde conheci todo o processo de fabricação dos flavors e a metodologia de treinamento, os programas de calibração de degustadores. Fiquei encantada como tudo parecia fácil, eficiente e seguro. Conheci também a Cilene pessoalmente, que também estava lá para fazer o mesmo treinamento. A partir desse momento, passamos a trabalhar para a FlavorActiv. Em 2002, eu fui fazer parte do meu doutorado em Portugal e a relação entre a BrewTech e a FlavorActiv se esvaziou um pouco. Mas ainda fiquei fazendo uns trabalhinhos, ajudando a Cilene através dos contatos que eu tinha, mantendo relações aqui e lá fora, em eventos.
Em 2010, quando eu já estava em carreira solo, Richard entrou em contato comigo porque estavam fechando um contrato grande na área de não alcoólicos. Aí fui para a Bélgica fazer uma certificação e, em 2012, minha relação com a FlavorActiv começou, passei a dividir o meu tempo entre minha empresa e a FlavorActiv. Em 2014, comecei a cuidar do México e de outros países latinos. Assim, em 2016, assumi como diretora MCLA (México e América Latina).
Em janeiro de 2018, o CEO da FlavorActiv dividiu as nossas áreas de atuação em três partes: EMEA, APAC e Américas, e desde então sou responsável pelas Américas, dividindo minhas responsabilidades com uma equipe muito competente, com bases no Brasil, Colômbia e México.
E quais os principais produtos e serviços da FlavorActiv?
Nós temos quatro principais áreas de atuação: treinamento, fornecimento de padrões de flavor (GMP), programas de calibração e instrumentos. Com esta última área começamos há uns cinco anos, e dedicados à indústria cervejeira — um dos equipamentos, IBULyzer, mede especificamente o amargor do mosto e cerveja, de forma automática, e o outro equipamento é o MicroESR, nosso pacote de beerfreshness, que mede os radicais livres, que podem ser medidos desde o mosto até a cerveja envasada.
Estou muito feliz com o meu trabalho, com a equipe e com a empresa. Amo o que faço e pretendo continuar ainda por algum tempo fazendo parte do grande time FlavorActiv. A empresa tem mais de 20 anos, os 10 primeiros dedicados exclusivamente à cerveja. Passamos a atender outras bebidas por solicitação de alguns clientes, que perguntavam: será que podemos aplicar em água, refrigerante, suco, café, chá, laticínio, destilados? E fomos indo. Hoje atendemos aos setores de “alimentos e bebidas”.
Você acha que este pode ser o momento mais difícil enfrentado pelo mercado, por conta da pandemia?
Com certeza. Em março, durante o festival em Blumenau/SC, falávamos que a pandemia estava chegando no Brasil, mas acho que não estávamos cientes da real proporção que isso iria tomar no mundo. Nada do que a gente conversou durante o festival se assemelha ao baque da Covid-19 que estamos vivendo. Todos os negócios estão sendo repensados, a nossa própria vida está sendo repensada — nossas relações pessoais e profissionais. É uma questão muito maior, é sobrevivência!
Acho que a gente tem que ter fé que vamos sobreviver a isso tudo. E para quem tem o seu próprio negócio, está tendo que rever todas as etapas do processo, para ter menor prejuízo, e revendo, principalmente, os canais de venda — eles têm que equilibrar essa conta. É repensar e criar novas formas. O momento é de muita criatividade e rapidez para mudar o rumo das decisões.





