Governo Federal zera imposto de importação para extrato de lúpulo cervejeiro

Insumo para fabricação de cerveja está entre os itens que tiveram alíquota zerada no dia 26 de março. Medida foi feita a partir de solicitação do Grupo Heineken e renova por 12 meses a redução da alíquota para 0% exclusivamente para o extrato de lúpulo, referente a uma quota de 1,2 mil toneladas. Ação tem poucos reflexos para pequenas e médias cervejarias.

 

O Governo do Brasil divulgou a ampliação da política de redução de impostos com a decisão do Comitê-Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior (Gecex/Camex) de zerar ou reduzir o imposto de importação para quase mil produtos, pela ausência ou produção nacional ainda insuficiente para atender ao mercado interno.

A medida foi anunciada pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) após deliberação do Gecex no dia 26 de março. Ela integra um conjunto de ações que busca reduzir custos e estimular a produção e quase mil produtos tiveram a tarifa zerada.

Na divulgação oficial, “lúpulo para fabricação de cerveja” está entre os itens contemplados. No entanto, a isenção do imposto de importação vale apenas para o extrato de lúpulo, e não para os demais formatos, como pellets, que é o mais utilizado por cervejarias artesanais.

Essa isenção aconteceu mediante solicitação do Grupo Heineken, referente a quota de 1,2 mil toneladas, a mesma do pedido anterior, feito no fim de 2024, segundo informa a Associação Brasileira de Produtores de Lúpulo (Aprolúpulo), que acompanha a questão e compartilhou os detalhes. “Cabe registrar que não existe nenhuma planta de extração de lúpulo em escala industrial no Brasil”, acrescenta a nota da Aprolúpulo. A isenção vale por 12 meses e as informações estão divulgadas em uma Nota Técnica.

 

O recorte para extrato

O advogado tributarista Marcos André de Moraes, professor do ICB que acompanha há mais de 20 anos o setor de bebidas alcoólicas, explica que a alíquota de importação do lúpulo é fixada em 7,2%, numa espécie de alinhamento entre países do Mercosul.

“O extrato de lúpulo possui uma alíquota de imposto de importação (Tarifa Externa Comum — TEC) de 7,2%, todavia, anualmente, o lobby dos interessados faz com que a alíquota seja reduzida a 0% através de pleitos reiterados junto ao MDIC, órgão responsável pela deliberação das desonerações”, detalha.

Marcos conta que as desonerações do imposto de importação são temporárias, geralmente anuais, e os interessados precisam requerer e fundamentar a necessidade, inclusive informando o volume (quota) para o Governo.

“Assim, anualmente, os interessados, não apenas de lúpulo, mas de qualquer produto sem similar nacional, requerem ao MDIC a desoneração, que pode ser parcial ou total [a zero]. No caso específico do lúpulo, a desoneração já é de longa data”, recupera Marcos. “Óbvio que cada interessado pleiteia o que lhe interessa, que, nesse caso da Heineken, foi apenas o extrato.”

 

Medida não deve atingir as pequenas e médias

Procurada, a Associação Brasileira de Cerveja Artesanal (Abracerva) destacou que, na prática, o efeito da medida para as pequenas e médias cervejarias tende a ser praticamente nulo neste momento, justamente porque grande parte do segmento representado pela entidade trabalha com lúpulo em pellet.

Para a Associação, o caminho mais adequado é estender esse tratamento também ao lúpulo em pellet, para que a redução tributária chegue de fato a toda a cadeia produtiva da cerveja.

“A Associação acompanha o tema e está levantando dados e argumentos para defender essa isonomia nas discussões com o poder público. A entidade ressalta ainda que apoia o desenvolvimento da produção nacional de lúpulo, mas observa que o mercado brasileiro ainda não consegue atender, com escala, preço e regularidade de oferta, a demanda do setor cervejeiro”, ressalta em nota.

Apesar de a produção brasileira da planta avançar mais a cada ano (confira aqui), o mercado da cerveja ainda depende do lúpulo estrangeiro para a fabricação da bebida.

“A Abracerva está acompanhando o tema e vai defender que essa redução chegue de fato a toda a cadeia produtiva. Queremos ver a redução de custo dentro da pequena indústria”, comenta Gilberto Tarantino, presidente da Abracerva.

A Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom PR), que divulgou a nota oficial citando a isenção para o lúpulo, foi procurada para complementar as informações e não havia retornado até o fechamento desta matéria.

 

Fotos: Markus Spiske/Unsplash

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