Além do Amargor — Ácidos amargos oxidados do lúpulo e cognição: ativação do nervo vago como elo funcional

Duan colunista

Por Duan Ceola, mestre em Química Pura e Aplicada, professor na Escola Superior de Cerveja e Malte (ESCM), sommelier de cervejas ESCM/Doemens e cervejeiro caseiro desde 2012. Desenvolve pesquisas relacionadas à utilização do lúpulo na cerveja, com publicações em revistas nacionais e internacionais, além do acompanhamento da qualidade e robustez dos lúpulos nacionais. Foi idealizador da Copa Brasileira de Lúpulo.

 

Os ácidos amargos oxidados, ou “maturados”, do lúpulo (MHBA) são compostos derivados da oxidação de ácidos α e β do lúpulo durante processos de armazenamento e envelhecimento. Estruturalmente relacionados aos iso-α-ácidos, esses compostos vêm despertando interesse crescente por seus efeitos fisiológicos, especialmente no sistema nervoso central.

Em um estudo recente, os MHBA foram investigados quanto ao seu impacto sobre a função cognitiva em modelos de roedores, incluindo animais saudáveis e modelos de amnésia induzida por escopolamina. Os resultados demonstraram que a administração oral de MHBA promoveu melhora significativa da memória espacial e episódica, avaliada por testes comportamentais amplamente validados.

O aspecto mais relevante desse trabalho está no mecanismo de ação identificado. Diferentemente de compostos neuroativos clássicos, os MHBA não atuam por penetração direta no sistema nervoso central. Em vez disso, seus efeitos cognitivos são mediados pela ativação do nervo vago, uma das principais vias de comunicação entre o trato gastrointestinal e o cérebro.

A ativação vagal induzida pelos MHBA resultou em aumento da liberação de norepinefrina no hipocampo, região crítica para processos de memória e aprendizado. Esse efeito foi confirmado por análises de microdiálise e pela observação de que a melhora cognitiva desaparece após vagotomia ou bloqueio de receptores β-adrenérgicos, evidenciando a dependência da sinalização noradrenérgica (sistema que utiliza a noradrenalina, ou norepinefrin, como neurotransmissor e hormônio).

Adicionalmente, componentes específicos dos MHBA, como 4′-hydroxyallohumulinone e 4′-hydroxy-cis-alloisohumulone, apresentaram atividade comparável ao extrato completo, sugerindo que a estrutura β-tricarbonílica comum a esses compostos desempenha papel central na ativação fisiológica observada.

Esses achados posicionam os MHBA como moduladores do eixo intestino–cérebro, um campo emergente da neurociência que investiga como estímulos periféricos influenciam funções cognitivas e emocionais. A possibilidade de modular a função cerebral por meio de compostos alimentares que atuam via nervo vago representa uma abordagem promissora e potencialmente segura para estratégias preventivas relacionadas ao declínio cognitivo.

Para a área técnica ligada ao lúpulo e à cerveja, esses resultados ampliam o debate sobre envelhecimento, oxidação e transformação química dos ácidos amargos, tradicionalmente vistos apenas como fatores de perda de qualidade sensorial, mas que podem carregar relevância funcional.

 

Referência

Ayabe, T. et al. Matured hop-derived bitter components in beer improve hippocampus-dependent memory through activation of the vagus nerve. Scientific Reports, v. 8, 15372, 2018.

 

 

Foto: Arquivo pessoal

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