Por Fernando von Borstel, fundador e cervejeiro da VON Cervejaria e fundador do gastrobar Casa von Borstel. Formado em Gastronomia, faz da cerveja sua vida profissional desde então, trabalhando para democratizar essa fantástica e única bebida.
Sempre que leio livros cervejeiros me deparo com um capítulo inteiro voltado para a história da cerveja, com todas as suas curiosidades e milagres que levaram a cerveja a se tornar a bebida que consumimos hoje.
Mas somente o relato da história em si não é suficiente para evidenciar a sua importância na evolução de nossa humanidade.
“Fernando, por que devo pensar nisso? Me passe logo o copo de cerveja… e vamos só beber.”
É justamente por esse motivo que o assunto possui tanta relevância!
Fomos acostumados a encontrar em supermercados quantidades massivas de uma bebida superindustrializada, que teve o seu valor — essência — praticamente perdido.
Em cada novo momento, encontramos cada vez mais cervejas, com cada vez menos valor e, diferente do vinho, um dos fatores-chave no momento da compra ainda é o preço baixo.
O problema não é: cervejas com preços baixos. Esse não é um texto para justificar os preços das cervejas.
Ora! Por ser uma bebida democrática, é mais do que esperado que tenhamos cervejas para todas as circunstâncias financeiras.
O problema é: produzir cervejas sem inspiração, com a justificativa de manter os preços baixos.
Quanto mais participamos/praticamos essa ação, geramos cada vez mais desinteresse no consumidor cervejeiro e, em consequência, o aumento do “beber por beber”.
Para que possamos mudar essa visão deturpada da cerveja, é fundamental nos questionarmos, como produtores ou como consumidores: por que a cerveja está presente na humanidade por tanto tempo?
Considero interessante relatar a capacidade da cerveja de estar intrinsecamente relacionada a momentos marcantes da evolução da história humana, trabalhando como um fator subjetivo, quase imperceptível, de nossas ações, descobertas e pesquisas, como se estivesse sempre ao nosso lado, como um amigo discreto, mas prestativo.
Por muito tempo, a cerveja foi um elemento intrigante para a população. Dada a falta de mecanismos, tecnologia e, consequentemente, de conhecimento sobre ela, tradições e ritos foram criados para suprir a falta de entendimento de suas capacidades, gerando métodos peculiares de criação e produção. A fermentação mesmo, uma das etapas fundamentais da produção da cerveja, era desconhecida até o século XVIII, fazendo com que cervejeiros e cervejarias se utilizassem de ritos e práticas herdadas para que pudessem reproduzir as cervejas.
Essa intrigante mística da cerveja é mais um dos motivos que levaram, por exemplo, Louis Pasteur a iniciar pesquisas e o desenvolvimento de mecanismos para entender e compreender o que acontecia com a cerveja.
Pesquisas essas que levaram ao entendimento dos mecanismos microbiológicos de fermentação e, consequentemente, à aplicação dos estudos em outros campos profissionais, até o desenvolvimento da pasteurização e da assepsia, fundamentais em diversos âmbitos, até mesmo no trato com a medicina.
O livro de Louis Pasteur: “Estudos sobre a cerveja: suas doenças, causas que as provocam, processo para torná-la inalterável, com uma nova teoria da fermentação”
Como esse, encontramos incontáveis exemplos da influência dos costumes culturais de cada parte da história na bebida que tanto amamos hoje. Desde influências comerciais e políticas até científicas e sociais, direcionando drasticamente a qualidade da cerveja que consumimos hoje.
Essa “via de mão dupla” foi importante para consumidores e criadores, para escritores e leitores, para o lazer e conhecimento, para sociedade e para a cerveja.
Então voltamos à questão: por que a cerveja está presente na humanidade por tanto tempo?
Como vimos, além da capacidade de unir pessoas em alegria, a cerveja teve o seu papel no desenvolvimento de tecnologias, processos e métodos em diversas áreas de atuação; uma verdadeira aliada inesperada no desenvolvimento humano.
Toda essa história aguça minha curiosidade e me faz sonhar com o magnífico mundo cervejeiro, onde respeitar a bebida representa respeitar a nós mesmos. Resta saber: você está comigo nessa busca além do copo de cerveja?
P.S.: no próximo encontro, inspirados pelo texto de hoje, entraremos em um tema incrível, os três C’s da cerveja! Identificaremos como certas circunstâncias influenciaram os sabores das cervejas e a criação dos estilos clássicos. Os três C’s que influenciaram como as cervejas se desenvolveram de forma sensorial.
Foto de perfil: Tadao Nishida
Demais fotos: Canva








