Por Fernando von Borstel, fundador e cervejeiro da VON Cervejaria e fundador do gastrobar Casa von Borstel. Formado em Gastronomia, faz da cerveja sua vida profissional desde então, trabalhando para democratizar essa fantástica e única bebida.
“Aprenda a beber”, essa é uma frase que incomoda muitas pessoas!
Muitos são levados ao falso entendimento de que “saber beber” está relacionado com suportar uma grande quantidade da bebida e, obviamente, esse pensamento está extremamente equivocado. Tal como, muitos também acreditam que não precisamos aprender a beber, julgando como algo muito formal para uma atividade que prevê apenas trazer alegria e diversão.
De fato, com uma coisa eu concordo, e ainda ressalto, a cerveja deve ser apreciada com, no mínimo, uma companhia: a alegria.
Aprender
Vir a ter melhor compreensão (de algo), esp. pela intuição, sensibilidade, vivência, exemplo.
(APRENDER, in: OXFORD LANGUAGES, 2020)
Como o aprender sempre está conectado ao compreender, em todas as áreas em que o aprendizado é aplicado, percebemos uma segunda reação em relação ao conteúdo aprendido: o respeito.
Ou seja, a linha do saber é uma sequência entre aprender, compreender, respeitar e, só então, saber. Por isso, saber beber uma cerveja é algo que vai além de suportar beber uma grande quantidade da bebida. Esse seria um saber do seu próprio organismo, mas não do que você está inserindo nele.

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Em muitos momentos, valorizamos apenas a quantidade e o frescor da bebida, como se ela tivesse sido criada apenas para matar a nossa sede, ou como se todas as variedades de insumos disponíveis para agregarmos sabores e experiências tivessem sido desenvolvidas em vão. Eu não quero que você confunda o trabalho de um sommelier com o ato de beber uma cerveja, pois são coisas bem diferentes!
Uma parte da confusão está justamente na conduta de muitos profissionais da área, sommeliers e experts, que utilizam conceitos complicados para explicar aspectos simples da cerveja, dificultando o entendimento da bebida e, pior, inibindo que esse conhecimento se espalhe de forma mais orgânica, amigável e informal, assim como, naturalmente, a cerveja é.
Por si só, essa é uma ação que acaba distanciando o consumidor comum do acesso a novas experiências, pelo simples fato de muitos se sentirem constrangidos por não entenderem determinados conceitos ou nomenclaturas cervejeiras.
Julgo este como um ato antipopular sobre a cerveja. Porém, se você está lendo esse texto é porque você é um curioso e ávido por poder ter novas e fantásticas experiências e, principalmente, tem a esperança de confirmar que beber cerveja não é uma ação nada complexa.
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O primeiro passo para aprender a beber é abrir a mente e perceber que a cerveja pode ser muito mais do que uma garrafa verde ou uma latinha vermelha.
De acordo com o Beer Judge Certification Program (BJCP), também conhecido como um guia mundial de estilos cervejeiros, possuímos mais de 120 estilos de cervejas catalogados, isso sem contar as criações e interpretações particulares de cada cervejaria e de cada cervejeiro.
Estamos falando aqui em 120 estilos de cervejas reconhecidas, devido ao seu alcance, popularidade e frequência de vezes que foram reproduzidas. Cervejas embasadas em conceitos, que possuem qualidades técnicas e sensoriais reconhecidas.
Seguramente, posso confirmar que muitos consumidores ainda não conhecem seu estilo de cerveja favorito, pois, devido às práticas do mercado, simplesmente, não possuem acesso à essa informação — ou por se sentirem coagidos, ou por preferirem se manter nas cervejas que já conhecem.
Em todos os meus anos produzindo e consumindo cervejas, não houve um único ano em que deixei de me surpreender provando novos estilos cervejeiros, me encantando e me instigando com novidades ou até mesmo com cervejas que já estavam no mercado muito antes de eu ter nascido.
Mas… apenas sair comprando cervejas de forma aleatória não é a melhor forma de conhecer cervejas. Aliás, essa é uma prática que pode te afastar de novos estilos cervejeiros, por simplesmente consumir algo inusitado que seu paladar ainda não esperava conhecer. Como comentei, esse ainda é o primeiro passo para você conquistar sua liberdade cervejeira, existem ainda dois passos muito importantes para que você possa completar essa caminhada.
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O segundo passo para aprender a beber é conhecer seu paladar, e entender que nem tudo que aparece na sua frente será agradável, por mais que seja bem feito. Tive a oportunidade de ver, por diversas vezes, pessoas decepcionadas com cervejarias artesanais.
É óbvio que, em alguns momentos, as cervejarias vacilaram em oferecer produtos desconexos ou até ruins, porém, na maioria das vezes, percebo que os consumidores tentam pular etapas da jornada, comprando cervejas de estilos completamente desconhecidos, pelo hype de consumir um estilo que está na moda, ou por, simplesmente, terem gostado do rótulo ou por terem ouvido falar da cervejaria sem ao mínimo tentarem entender se essas cervejas seriam agradáveis para o seu próprio paladar.
Por isso, criei uma lista de fácil entendimento, para que você possa se questionar e compreender como é o seu paladar hoje, para que sempre tenha uma experiência evolutiva e não uma experiência desagradável.
Ex.: você está acostumado a beber cervejas de garrafinhas verdes (geralmente, pertencentes à um estilo denominado International Lager, um estilo leve, suave e refrescante, com leves notas de malte e lúpulo), e tenta provar uma Catharina Sour (um estilo brasileiro de cerveja, refrescante também, porém ácida e com adição de frutas).
| O que estou acostumado a beber? | Quais características tem a cerveja que eu gosto de beber hoje? | Qual é a característica que mais me chama atenção? | Quais aromas me chamam a atenção? | Quais sabores me chamam a atenção? | Qual a intensidade alcóolica das cervejas que eu gosto? |
| Ex: Pilsen, Pale Ale, Sour, IPA… | Ex: amarga, adocicada, ácida, azeda… | Ex: alguma das anteriores | De acordo com a roda de aromas da cerveja* | De acordo com a roda de sabores da cerveja* | Ex:
Leve: 3 a 4,9 Média: 5 a 6,4 Alta: 6,5 para cima |
Compreender seu paladar não é importante apenas para o mundo cervejeiro. Você pode usar essas questões para qualquer área que envolve seu paladar, desde o seu entendimento para outras bebidas e até para comidas.
Essas questões são eternas e você poderá sempre retornar a elas, pois irá perceber que, em cada momento da sua vida, um estilo de cerveja será o seu favorito e chamará mais a sua atenção. Porém, como comentei, esse é o segundo passo para aprender a beber, para conseguir migrar e se divertir nas próximas aventuras da Jornada da liberdade cervejeira.
Exploramos apenas os seus costumes atuais, ou seja, a forma como você se identifica com as características das cervejas que já consome e já entendeu que as aprecia. O ponto chave para a descoberta de novos estilos começa no momento em que entramos no terceiro passo da Jornada da liberdade cervejeira: conheça o que as cervejas podem proporcionar para você.
Mas será assunto para o próximo capítulo da nossa conversa, quando apresentarei formas de como você pode conhecer o que as cervejas podem te proporcionar e, melhor ainda, como conseguir extrair o melhor de cada cerveja, aprendendo, de fato, ao final destes dois capítulos, como beber uma cerveja.







