Por Fernando von Borstel, fundador e cervejeiro da VON Cervejaria e fundador do gastrobar Casa von Borstel. Formado em Gastronomia, faz da cerveja sua vida profissional desde então, trabalhando para democratizar essa fantástica e única bebida.
O próprio título desse texto já parece ser algo impossível de se acontecer.
Para um enorme número de pessoas, seja do nosso próprio país ou de outros países espalhados no mundo, este era um evento impensável alguns poucos anos atrás, pelo simples fato de existir uma máxima, até então irrompível: “É impossível plantar lúpulo no Brasil!”
Percebo que, neste texto, tenho o grande privilégio de estar escrevendo e representando “Lupuleiros”, consultores, estudiosos e todos esses pioneiros da área, em dizer o que está ainda engasgado em suas gargantas:
“Não é só possível produzir lúpulo no Brasil, como já está acontecendo e ele possui características muito positivas e únicas”.

Herman Wigman, Fundador do Viveiro Van de Bergen; Vitor Marinho, Propietário da Cervejaria Dádiva; José Felipe Carneiro, Fundador da Cervejaria Wals e Fazenda Lupuleira.
Com algumas ações pioneiras sendo realizadas desde o início dos anos 2000, a que mais se destacou, sendo como um grande incentivo inicial para todos os “Lupuleiros” ali no seminário, foi a iniciativa do agrônomo Rodrigo Veraldi, homenageado no evento, que perseverou uma pesquisa em sementes até a natureza o agraciar com o pé de lúpulo pioneiro desse cultivo no Brasil, o lúpulo Mantiqueira.
Esse fato, chocante até hoje, foi relatado em reportagem no programa Globo Repórter em Maio de 2016, o que ajudou a disseminar ainda mais essa história, digna de um conto de ficção científica.

Seminário
Congresso científico ou cultural, com exposição seguida de debate.
(SEMINÁRIO, in: OXFORD LANGUAGES, 2020)
Fiquei impressionado com a quantidade de pessoas envolvidas no, ainda embrionário, mercado do lúpulo brasileiro. Confesso que, erroneamente, esperava um evento com assuntos mais básicos sobre o mercado, como conselhos de como ingressar nesse segmento, mas não foi isso que vi no seminário.
Neste primeiro encontro internacional, muito foi abordado sobre questões evolutivas de um setor que já iniciou seu caminho. Questões como técnicas melhoradas de plantio, dicas de como melhorar produtividade, relatos e comprovações da evolução das variedades em solo brasileiro, dicas de qualidade para comercialização através de visões cervejeiras e até a grande participação do “Lupuleiro” argentino Hernan Testa, uma figura de imensa importância no cenário do lúpulo internacional, que compartilhou sua experiência e visão sobre o plantio para os iniciantes pioneiros brasileiros.
“O 1º Seminário Internacional do Lúpulo surge em um momento em que estamos saindo da pandemia. Então, o setor – que tinha acabado de passar 2 anos sem se encontrar pessoalmente – carecia de um evento para poder se conhecer e articular, mas, principalmente, planejar os próximos passos deste mercado!
Para um negócio tão novo como o lúpulo nacional é importantíssimos que nos unamos para construir, de maneira sólida, os próximos passos.
Esse legado foi muito visível para todos que, de maneira unânime, saíram com a percepção dos grandes desafios que enfrentaremos, e que se nos unirmos, esses desafios serão enfrentados de maneira muito melhor.”
Felipe Wigman, Fundador do Viveiro Van de Bergen¹* e Organizador do 1° Seminário Internacional do Lúpulo.

O mercado do lúpulo é gigantesco – Claro! Toda cerveja utiliza lúpulo – e não é um segredo que o Brasil, como 3° maior produtor de cervejas do mundo, movimenta uma imensa quantidade de lúpulo, porém este, até então, é 100% importado.
Para se ter ideia, apenas o Grupo Petrópolis – Participante do evento e o 11° maior grupo cervejeiro do mundo – importou em 2021, 8 milhões de quilos de lúpulo, investindo um montante de cerca de 82 milhões de dólares.
Para que, apenas o Grupo Petrópolis, seja autossuficiente em lúpulo, seria necessário cerca de 4.200 hectares de lúpulo plantado. Porém, atualmente no Brasil, temos aproximadamente 40 hectares de lúpulo plantado, que rendem, aproximadamente, 25 mil quilos de lúpulo.
Por isso, aqui estão alguns dados do plantio de lúpulo no Brasil, fornecidos em levantamento da APROLÚPULO²* em 2021:
– 200 associados
– 40 Hectares plantados
12 estados cultivam, sendo eles: Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Minas Gerais, Goiás, Bahia, Tocantins e Pernambuco.
“Diferente de alguns outros encontros que já participamos, voltados para circunstâncias muito técnicas e específicas, o 1º Seminário Internacional do Lúpulo nos trouxe um contexto mais amplo do lúpulo, desde o plantio à comercialização e recepção deles pelas cervejarias. Porém mais do que isso, ter a iniciativa de trazer produtores de fora do país e cervejeiros, fez do networking criado neste evento uma troca de informações única e fantástica!”
Daniel Palma, Proprietário da Brava Terra³*
A barreira mais importante do mercado foi quebrada, é possível produzir lúpulo no Brasil, este ainda é um conceito que não foi implantado na mente de muitos brasileiros, e foi comprovado para mim, presencialmente, que o espaço disponível para crescimento do mercado é indescritível.
De qualquer forma, como em qualquer mercado inicial, há muitos desafios pela frente e, para que possamos ver ele em pleno crescimento precisaremos, como cervejarias e cervejeiros, nos unir para auxiliar os “Lupuleiros” nessa maratona.
Espero que esse texto, como a reportagem do pioneiro Rodrigo Veraldi, possa plantar uma semente e incentivar muitas pessoas não só ingressarem nesse mercado como produtores de lúpulos, mas que também possam ingressar nesse mercado com conhecimento, técnica e tecnologia, de tal forma que as cervejarias possam trabalhar em conjunto com os agricultores, de forma harmoniosa e unida.
Que venham mais seminários e encontros como esse!
PS.:
O Brasil já possui lúpulos de extrema qualidade sendo comercializados e utilizados por cervejarias artesanais de renome, como também agora possui um complexo produtivo com capacidade de produção de 300.000 mudas a cada 3 meses, inaugurado, pelo Viveiro Van de Bergen.
Porém, de forma geral no Brasil, alguns processos pós plantio, o que chamamos de beneficiamento, ainda necessitam de aprimoramentos, para que o mesmo lúpulo, de altíssima qualidade que é plantado e colhido em terras brasileiras, chegue em ótimo estado para que as cervejarias possam utilizá-lo da melhor forma, para que então os consumidores possam ter as melhores experiências.
Por isso acredito que, profissionais que possuem conhecimentos específicos podem ainda ingressar nesse campo, e fazer parte deste mercado pioneiro, contribuindo com toda a evolução necessária.
Um grande passo já foi dado por esses corajosos “Lupuleiros”, agora outros passos devem ser dados.
*1. Viveiro Van de Bergen
*2. APROLUPULO
*3. Fazenda Brava Terra






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