Bate-papo com Miloš Sklenka, Cônsul-Geral da República Tcheca em São Paulo

A Revista da Cerveja bateu um papo com Miloš Sklenka, Cônsul-Geral da República Tcheca em São Paulo, para saber um pouco mais sobre a história do consulado, como surgiu e em quais trabalhos vêm atuando. Confira abaixo.

Você pode contar como surgiu o Consulado? Quem está à frente?

As relações diplomáticas entre o Brasil e a República Tcheca foram estabelecidas em 1920, sendo o Brasil um dos primeiros países a reconhecer a autonomia da República Tchecoslovaca criada em 1918. Desde então, os dois países têm desenvolvido um amplo diálogo e colaboração mútua em diversas áreas. Assim, as primeiras menções sobre o Consulado em São Paulo são datadas do ano de 1926. 

Atualmente, a República Tcheca possui duas missões diplomáticas no Brasil: a Embaixada em Brasília e o Consulado Geral em São Paulo, que atua nos estados do Sul e do Sudeste brasileiro. Especificamente, nos seguintes estados: Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo, Mato Grosso do Sul, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

Quais os principais objetivos do Consulado?

Na prática, atuamos em três áreas distintas e definimos como: agenda consular, diplomacia econômica e diplomacia pública. 

Entre outras atividades, na área consular oferecemos, principalmente, os serviços de auxílio aos cidadãos tchecos que possam estar em qualquer tipo de perigo no Brasil, emissão de documentos para brasileiros que tem intenção de permanecem no território tcheco e análise de documentos com o fim de obter a nacionalidade tcheca. 

Na área da diplomacia pública, incentivamos a promoção da cultura, educação e língua tcheca por meio de diversos eventos e ações. Nos últimos anos, intensificamos a colaboração científica e intercâmbio estudantil, que nos traz numerosas trocas e aproximações entre nossos países. 

E por fim, no campo da diplomacia econômica, proporcionamos apoio às empresas tchecas que importam para o Brasil ou têm interesse em investir no mercado local. O apoio ao comércio é uma agenda relacionada especialmente a nossa missão em São Paulo, uma vez que o Consulado se situa nos estados economicamente mais desenvolvidos da federação. E é neste momento, que entra nosso apoio ao setor cervejeiro da República Tcheca. 

Vale ressaltar que a agenda política cabe à Embaixada e se faz com o governo federal em Brasília.

O que você citaria de ações de sucesso já realizados pelo Consulado, aqui no Brasil?

Nos últimos anos, o Consulado idealizou várias ações com a finalidade de divulgar o setor cervejeiro tcheco por meio de projetos de marketing e projetos de diplomacia econômica.  Apoiamos as empresas tchecas que importam cerveja, insumos e maquinário em suas ações particulares ou nas apresentações oficiais, como, por exemplo, no Festival Brasileiro de Cerveja em Blumenau.  

Algumas das empresas tchecas já estão colhendo os frutos de sua dedicação, como a empresa Cheops, que fornece tecnologia para estabilização da cerveja, envase e limpeza de barris. A tecnologia deles é muito particular e segue padrões atuais da Indústria 4.0. Soa como algo simples, mas não é. Se a tecnologia deles for usada no Brasil em grande escala, poderia melhorar a qualidade do produto final e também transformar toda a cadeia da produção local. 

Outra empresa que nos liga à tradição tcheca é Bohemia Hop, que fornece o lúpulo tcheco. Inclusive, segundo uma pesquisa recente, um dos primeiros produtos de exportação da Tchéquia para o Brasil na primeira metade do século XX, foi precisamente o lúpulo tcheco.  

Como você definiria na atualidade a cultura cervejeira tcheca?

A cultura cervejeira tcheca é uma confluência muito bem-sucedida, graças a rica tradição adjunto com as novas inspirações que dão a esse segmento seriedade e reconhecimento. Devido a tecnologias, insumos de primeira classe e procedimentos específicos, a cerveja tcheca obteve qualidades que a transformaram em um tesouro nacional. Atualmente, há 50 cervejarias industriais e mais de 450 cervejarias artesanais no país com a extensão um pouco menor que estado de Santa Catarina. Os números correspondem a uma cervejaria a cada 150km² e 95 % dessas cervejarias produzem lagers claras. Consequentemente, o consumo de cerveja per capita da República Tcheca, é o maior do mundo. 

Ademais, para ir além das curiosidades e entender o que significa essa cultura no contexto do nosso país, torna-se essencial visitar os estabelecimentos, falar com especialistas e amadores, e experimentar diferentes estilos de como se pode “servir a cerveja”. E, por fim, aprender a degustar e apreciar tudo isso na sua complexidade. Acredito que para os cervejeiros brasileiros, existem muitos temas que possam ser explorados com intuito de enriquecer a produção local. Queremos que o nosso trabalho contribua para essa missão.  

Quais ações estão sendo planejadas, destinadas aos cervejeiros/empresários brasileiros? No que o consulado está trabalhando neste período de pandemia?

Em decorrência da pandemia, infelizmente, muitas de nossas ações foram canceladas e esperamos um momento oportuno para reintroduzi-las. Nos últimos meses, em colaboração com a Revista da Cerveja, publicamos quatro informes sobre empresas tchecas que atuam no Brasil e uma matéria sobre as especificidades da decocção tcheca que dá as nossas cervejas um sabor inigualável. 

Acreditamos que a introdução desse saber específico no Brasil pode dar incentivos ao setor. Para citar um exemplo, o cervejeiro Danilo Mata começou a produzir a cerveja a partir da decocção múltipla. O resultado chegou em seguida, sendo coroado pelo sucesso em diversas competições cervejeiras. 

Quanto ao futuro, posso revelar que continuaremos focados na contribuição mútua entre os dois países. Para setembro de 2021 queremos organizar uma missão cervejeira destinada aos empresários e cervejeiros brasileiros com o fim de apresentar a cadeia de produção e possibilitar o contato direito com os tchecos. Acredito que é uma oportunidade significativa para todos que procurem novas inspirações e queiram se vincular a essa tradição do coração da Europa. 

Além disso, ressalto que essa relação recíproca deve refletir a demanda e interesse específico dos empresários e cervejeiros brasileiros. Dito isto, o Consulado está aberto para atender essas vozes e, caso haja algum interesse específico, não hesitem entrar em contato conosco.  

Gostaria de acrescentar algo mais?

Além da cultura cervejeira que está presente em todo o Brasil por meio da denominação de tipos de cerveja “Pilsen” e “Bohemia”, ambos de origem de tcheca, os próprios tchecos estão por todos os lados. Ao total, nos últimos dois séculos mais de 8 mil tchecos vieram para o Brasil. De forma panorâmica, menciono alguns deles que ganharam fama no Brasil: entre eles estão os antepassados do presidente brasileiro Juscelino Kubitschek de Oliveira e o empresário Jan Antonín Bata, dono da marca de calçados Bata, que é mundialmente reconhecida, e que fundou aqui não apenas fábricas de calçados, mas também quatro cidades em dois estados: Batayporã (MS), Bataguassu (MS), Mariápolis (SP) e Batatuba (SP).

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