Caropreso com Cerveja — Sobre Lambic

Caropreso colunista

Por Luiz Caropreso, sommelier de cervejas, diretor da Beerbiz e consultor para cervejarias, especializado em campeonatos cervejeiros.

 

Olá, meus amigos cervejeiros!

Nos últimos tempos, vem acontecendo uma polêmica, principalmente em campeonatos cervejeiros. Tenho visto algumas premiações de cervejas denominadas “Lambic” feitas em diversos países. Mas, afinal de contas, podemos dizer que Lambic é um termo que define uma bebida com Denominação de Origem Protegida (DOP) ou Denominação de Origem Controlada (DOC)?

 

Se Lambic não é Denominação de Origem, por que o termo merece cuidado?

No universo cervejeiro, poucas palavras carregam tanta história, identidade e carga cultural quanto Lambic. Ainda assim, é comum observarmos o uso do termo de forma ampla, muitas vezes deslocado de seu contexto original. E aqui está o ponto central desta discussão: embora Lambic não seja oficialmente uma DOP, tratá-lo como um simples estilo reproduzível em qualquer lugar é, no mínimo, uma simplificação perigosa.

Sim, juridicamente Lambic não tem a blindagem que champagne, tequila e até mesmo a nossa cachaça conquistaram ao longo dos anos. A União Europeia protege apenas algumas de suas derivações — Gueuze, Oude Geuze, Kriek, Oude Kriek —, deixando o termo Lambic num limbo conceitual: sem amarras legais, mas carregado de significado cultural.

E justamente por isso a reflexão é necessária.

 

Quando o território fala mais alto

A região da Lambic na Bélgica é o Pajottenland, uma área agrícola a sudoeste de Bruxelas, entre os Rios Senne e Dendre. A produção também se estende a uma pequena parte da cidade de Bruxelas, como o bairro ocidental de Neerpede, regiões essas que se tornaram, ao longo dos séculos, laboratório natural de microrganismos únicos. Dois elementos sustentam essa singularidade:

• a fermentação espontânea, dependente da flora microbiana do vale do Rio Senne;
• a técnica transmitida de geração em geração, fazendo da Lambic não apenas uma cerveja, mas um patrimônio cultural.

Podemos replicar tanques, fórmulas, barris e cronogramas. O que não se replica é o terroir microbiano que sustenta o caráter sensorial dessa tradição. E é aí que, no meu entender, o uso indiscriminado do termo começa a se tornar problemático.

 

Entre o legal e o legítimo

Do ponto de vista legal, especialmente no Brasil, nada impede que uma cervejaria rotule sua criação como “Lambic”. O termo, isoladamente, não é protegido. Não existem barreiras regulatórias. Mas “legalidade” não é sinônimo de legitimidade técnica.

No ambiente profissional — entre juízes, sommeliers, pesquisadores e produtores tradicionais —, o consenso é claro: usar “Lambic” fora de seu contexto geográfico é inadequado. Não porque alguém proibiu, mas porque há um “pacto” de respeito à tradição. O mesmo pacto que, antes da DOP, já garantia que champagne fosse apenas o espumante feito em Champagne, região localizada no nordeste da França.

 

O caminho da precisão técnica

Se o objetivo é comunicar de forma honesta e tecnicamente consistente, há alternativas bem-vindas:

• Wild Ale,

• fermentação espontânea,

• estilo inspirado em Lambic,

• método tradicional belga de fermentação espontânea.

Essas expressões são suficientemente claras para o consumidor e suficientemente respeitosas com a história que Lambic carrega. Por outro lado, expressões como “Lambic brasileiro” ou “Lambic-style” criam ruído, confusão e empobrecem a narrativa cervejeira.

 

Nos concursos, a realidade se impõe

Mesmo em competições renomadas, batizadas pelo guia BJCP, como Copa Cervezas de América e tantas outras, as cervejas inspiradas em Lambic não são julgadas como Lambic. Elas são avaliadas em categorias como:

• Belgian Sour Ale,

• Wild Specialty Beer,

• Brett Beer, Spontaneous Fermentation ou Mixed Fermentation.

Ou seja: o próprio escopo técnico já reconhece que o termo carrega um peso que não pode ser universalizado.

 

Afinal, o que está em jogo?

O debate não é burocrático. É cultural.

Ao tratar Lambic como um mero estilo, corre-se o risco de reduzir uma tradição centenária a um rótulo de prateleira. O termo não precisa estar juridicamente protegido para ser protegido pela ética profissional. E, se valorizamos a história cervejeira, devemos fazer nossa parte para preservá-la.

Por isso, embora não seja ilegal chamar uma cerveja brasileira de Lambic, é — para usar a palavra certa — impreciso. E precisão é a base de qualquer diálogo técnico sério.

No fim das contas, a melhor escolha continua sendo a mais simples: chamar de Lambic apenas aquilo que realmente nasce da tradição belga, e reconhecer como inspiração tudo aquilo que, mesmo com grande mérito, não compartilha do mesmo terroir.

Se tiver sugestões para esta coluna, entre em contato através de meu e-mail: luizcaro@gmail.com.

Até a próxima.

 

 

Foto: Arquivo pessoal

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