Lúpulo brasileiro, uma realidade — Vista: uma promissora variedade recém-chegada aos campos brasileiros

Por Gabriel Cássia Fortuna, engenheiro agrônomo e Doutor em Produção Vegetal, com pesquisa aplicada no manejo e adaptação de variedades de lúpulo cultivadas no Brasil. Atualmente é consultor e pesquisador na Brazuca Lúpulos, empresa de assistência técnica para o cultivo de lúpulo, e diretor técnico da Associação Brasileira de Produtores de Lúpulo (Aprolúpulo).

 

O lúpulo Vista é o lançamento mais recente do programa público de melhoramento genético do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA). Este programa do governo americano é único, pois pode beneficiar amplamente toda a indústria do lúpulo e da cerveja no mundo. Foi esse programa que desenvolveu a base genética dos lúpulos que fizeram a cerveja artesanal americana ser construída, como os lúpulos Cascade e Centennial.

Gabriel Fortuna

O programa continua inovando para se adaptar às novas preferências de cervejeiros e consumidores de IPAs, com lançamentos como Cashmere, Triumph e agora com o seu recente lançamento, a variedade Vista.

E por que esse programa público de melhoramento genético de lúpulo do USDA pode ajudar diretamente a produção brasileira de lúpulo?

Porque as variedades desenvolvidas neste programa são públicas, podendo, assim, logo após serem lançadas nos EUA, chegarem ao Brasil legalmente para serem testadas a campo. Para quem não sabe, as variedades americanas mais novas usadas em maior escala pelo mercado artesanal brasileiro, como Citra, Mosaic, Simcoe, Amarillo, El Dorado, Idaho 7 e Ekuanot, são desenvolvidas por programas de melhoramento genético privados, tendo a proteção de patentes por um período médio de 20 anos.

Ou seja, todas essas novas variedades americanas com patentes não podem ser cultivadas legalmente no Brasil. Portanto, se alguém te oferecer um lúpulo Citra falando que é cultivado no Brasil, você pode ter certeza de que aquele lúpulo não é o Citra — ou de que ele está sendo cultivo ilegalmente aqui.

Isso ocorre também com variedades patenteadas da Nova Zelândia, como Nelson Sauvin, Motueka, Riwaka, os australianos Galaxy e Vic Secret, o alemão Polaris, dentre outros.

É por isso que, com exceção do Vista, do Triumph e do Cashmere, todos os lúpulos cultivados no Brasil são variedades mais antigas, que já perderam a patente, porém ainda são usados largamente por cervejarias no mundo todo, como Cascade, Centennial, Chinook, Saaz, Nugget, Columbus, Magnum e Hallertau Mittelfrueh. Temos também, nos campos brasileiros, outras variedades que são menos consumidas pelo mercado cervejeiro mundial, como o Comet, lúpulo mais cultivado no Brasil por ser o que teve melhor adaptação agronômica e aceitação no mercado, e outras variedades, como Triple Pearl, Crystal, Sorachi Ace, Pacific Gem, Alpha Aroma, Tettnanger e Southern Cross.

E por que estamos falando apenas do Vista, e não do Triumph e do Cashmere, lúpulos também públicos lançados pelo USDA e que já são cultivados no país?

Por dois pontos, que são pré-requisitos básicos para uma nova variedade de lúpulo ter sucesso: apresentar bom desempenho agronômico e ter aceitação no mercado cervejeiro, seguindo as tendências atuais de consumo.

O lúpulo Vista demonstrou, agronomicamente, alto rendimento e alta tolerância à seca e ao calor, além de ter tolerância moderada a algumas doenças. Boas produtividades logo nas primeiras safras vêm sendo obtidas no Brasil, com cones maiores e mais largos do que todas as variedades cultivadas por aqui. Sua tolerância a climas quentes possibilita que ele possa ser cultivado do Sul ao Nordeste brasileiro.

Foto: Gabriel Fortuna

Falando agora da qualidade química/sensorial e do seu uso na cerveja, um dos grandes destaques do Vista é o fato de seu perfil sensorial encaixar muito bem em IPAs modernas, como Hazy IPAs e Double IPAs, atrelado ao fato de também possuir uma potência equilibrada e limpa o suficiente para estilos mais leves, como American Wheat, Blonde Ale e, especialmente, Hop Lager.

Esse lúpulo traz notas bem marcantes de melão maduro, mamão e tangerina, tendo aspectos marcantes de frutas tropicais e de pêssego branco e pera. Sua faixa analítica de composição química de alfa-ácidos fica entre 11–12%, de beta-ácidos, entre 4–5% e de óleo total, entre 1,0–2,0 mL/100 g.

Muitas cervejarias brasileiras já estão começando a usar o Vista importado dos EUA, e os resultados sensoriais e feedbacks são muito positivos, principalmente em relação ao seu potencial marcante de trazer aromas limpos de frutas tropicais.

Agora, com o início do cultivo desse lúpulo em solo brasileiro, as cervejarias terão a oportunidade de usá-lo logo após a sua colheita, o que pode trazer frescor e aromas mais intensos. Além disso, os mestres-cervejeiros têm a possibilidade de estarem dentro dos campos de cultivo de Vista fazendo testes sensoriais para escolha de lotes, e até mesmo para definir o ponto de colheita ideal para aquela receita que ele planeja — ou que ele acabou de pensar ao sentir os aromas únicos daquela fazenda, naquela semana em que o lúpulo está no ponto de colheita, já que temos de duas a três semanas de janela de ponto de colheita e o perfil aromático do lúpulo muda dentro desta janela.

Será que o Vista chega para ser o novo Comet brasileiro? Os próximos anos irão dizer!

 

Logo: Divulgação Aprolúpulo

Fotos: Gabriel Fortuna

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