Lúpulo brasileiro, uma realidade — 10 motivos para você começar a apostar no lúpulo brasileiro

Por Gabriel Cássia Fortuna, engenheiro agrônomo e Doutor em Produção Vegetal, com pesquisa aplicada no manejo e adaptação de variedades de lúpulo cultivadas no Brasil. Atualmente é consultor e pesquisador na Brazuca Lúpulos, empresa de assistência técnica para o cultivo de lúpulo, e diretor técnico da Associação Brasileira de Produtores de Lúpulo (Aprolúpulo).

 

Você já parou para pensar no potencial que o lúpulo tem para se desenvolver em nosso país, sendo o Brasil o terceiro maior consumidor do mundo desse produto e uma potência do agronegócio mundial?

Como é empolgante saber que essa cultura agrícola que começa a ser cultivada em nossos solos é daquela planta trepadeira que cresce até 6 m de altura e cujas flores são a alma da cerveja! Sim, foi essa planta, com seus cones aromáticos e amargos, que aguçou os seus sentidos quando você provou uma cerveja de verdade pela primeira vez e pôde sentir o sabor e o aroma de lúpulo. E esse primeiro copo foi o start para você mergulhar de cabeça no universo da cerveja.

A mim ocorreu dessa forma — e acredito que à maioria aqui também! O lúpulo foi o amor à primeira vista que hoje te faz ser uma pessoa estudiosa/curiosa e um excelente provador/bebedor de cerveja artesanal. Então certamente nós vibraríamos muito com esse promissor cultivo se desenvolvendo em nosso país e, trabalhando no setor cervejeiro, não mediríamos esforços para ajudar a tornar essa cadeia produtiva nacional uma realidade!

Os primeiros passos foram dados há apenas 10 anos. Uma década depois, olhamos lá para 2016 e nos espantamos ao ver o quanto o lúpulo nacional já avançou desde então. Do mesmo modo, também nos espanta olhar para frente e saber o tamanho do desafio, o quanto teremos que crescer em todos os setores para nos tornarmos um grande país produtor de lúpulo.

Mas, como tudo na vida, o importante é começar. E, como todo começo, vamos relembrar o início da cena cervejeira. Provavelmente as primeiras cervejas artesanais que você bebeu não eram tão boas iguais às de hoje. Isso porque nos faltavam bons insumos, equipamentos e, principalmente, conhecimento teórico/prático sobre a produção da cerveja. Mas sobrava paixão por aprender, trocar experiências e querer se desenvolver cada vez mais no universo cervejeiro.

Então, se a primeira impressão fosse a que ficasse, acho que nenhum amigo teria dado uma segunda chance para as suas primeiras cervejas e iríamos chegar ao bar e preferir pedir uma convencional, estupidamente gelada, que não teria erro.

As primeiras cervejarias artesanais no Brasil surgiram na década de 1990. A cena cervejeira começou a se desenvolver no início da década de 2000, fortemente influenciada pelo mercado americano (que, por sua vez, começou a se desenvolver 20 anos antes do que o nosso, no final da década de 1970) e pelo centenário movimento cervejeiro europeu.

No início da cena cervejeira, antes de termos acesso a boas cervejas artesanais brasileiras, só encontrávamos cervejas americanas, alemãs, inglesas, belgas, etc. Conhecemos os pellets e a diversidade de aromas que cada variedade de lúpulo podia trazer. Começamos a beber as nossas cervejas feitas com lúpulo americano e alemão. Excelentes Pilsens com lúpulo alemão e tcheco. Ótimas Ales feitas com lúpulo do Tio Sam.

De repente, o universo das cervejas mais lupuladas surgiu, avassalador, no nosso país tropical bebedor de Pilsen. E junto veio a entrada de uma diversidade de variedades de lúpulo, que abriram os nossos sentidos para além dos Cascades, Chinooks, Columbus, Saaz e Nuggets, que eram os mais comuns por aqui. Hoje existem mais de 400 variedades de lúpulo no mundo, a maioria vinda dos EUA e da Alemanha, porém, mais recentemente, também lúpulos da Austrália e da Nova Zelândia, que são países do Hemisfério Sul (está chegando perto de nós!).

Passamos uns 15 anos aceitando os gringos falarem que era impossível produzir lúpulo no Brasil. Até que alguns produtores perguntaram: e por que não? Plantaram, cuidaram e, seja por obra do acaso, seja por insistência do homem do campo, viram que aquela trepadeira crescia e produzia flores muito cheirosas, que lembravam uma boa IPA.

Assim como no início da cerveja artesanal brasileira, é claro que os primeiros lúpulos não ficariam bons. O desafio era ainda muito maior do que fazer uma boa cerveja sem acesso ao conhecimento e materiais. Dependia do clima, dos fatores incontroláveis inerentes à atividade agrícola e, nesse caso, do grande desafio de produzir uma planta de clima temperado em um país tropical, e das máquinas de beneficiamento que ainda não existiam. Até chegar aos pellets de qualidade que hoje produzimos, demorou uma década. Mas parece que esse início foi ontem!

Pacote de pellets brasileiro. Foto: Gabriel Fortuna.

O lúpulo hoje encontra-se em um patamar parecido ao da cerveja artesanal de 10 anos atrás, que demorou também uma década para começar a ter qualidade e se propagar no país.

E para fazer esse cultivo se propagar por centenas de hectares, precisamos incentivá-lo! Você, consumidor, tem um papel muito importante nisso, pois, agora que sabe que está se inicindo a cadeia de produção nacional, pode pedir para a cervejaria que tanto gosta: “Eu gostaria de provar uma cerveja com lúpulo brasileiro”.

Para as cervejarias, sim, isso já é totalmente possível! Chegou o momento em que o mercado cervejeiro tem acesso a lúpulo brasileiro de qualidade similar ou, em muitos casos, até superior à do lúpulo importado, e com o volume e padrão necessários para abastecer cervejas de linha de pequenas e médias cervejarias.

Dito tudo isso, listo aqui 10 motivos para você começar a usar lúpulo brasileiro em suas cervejas.

 

1. Preço

Hoje todas as cervejarias buscam, além da qualidade, um bom custo-benefício na sua produção. O lúpulo brasileiro de aroma consegue competir em preço e qualidade com qualquer lúpulo importado, entregando a qualidade que o cervejeiro busca a um preço totalmente competitivo (entre R$ 160 a R$ 240 o kg).

Já para o lúpulo de amargor, devido ao importado chegar aqui mais barato que os importados de aroma, existem ainda poucos campos brasileiros com escala em variedades de amargor e que conseguem competir com o preço do lúpulo gringo.

 

2. Qualidade

Os laudos químicos não mentem. O lúpulo brazuca apresenta teor de alfa-ácidos e óleos essenciais geralmente similar ou superior quando comparado ao importado. No perfil químico do óleo essencial, temos encontrado valores altos dos álcoois terpênicos, que são buscados hoje pelo mercado para trazer aromas frutados e florais para IPAs, como o linalol, geraniol e citronelol, que, em muitas variedades, aparecem em teores maiores do que os importados.

 

3. Frescor

Você já usou orégano ou manjericão desidratado recém-colhido? Se sim, certamente viu que a intensidade aromática é muito maior do que a do saquinho vendido no supermercado, trazendo um frescor incomparável. Pois é, quando falamos, principalmente, de ervas aromáticas, a intensidade de aroma de um produto fresco recém-colhido é muito maior do que a de um produto que, mesmo muito bem conservado, foi colhido há mais tempo.

No lúpulo, sabemos que esse tempo geralmente é de dois anos após a colheita. Quando chega um lúpulo muito bom importado, ele está fazendo aniversário de um ano que foi colhido! Como aqui no Brasil fazemos duas safras no ano, estamos deixando o cervejeiro “bem acostumado”: já tivemos casos em que a cervejaria preferiu esperar a colheita da safra de inverno, que já estava para acontecer, pois a safra de verão já tinha passado longos cinco meses da colheita e o lúpulo não estava tão fresco assim (risos).

Para finalizar esse item, deixo aqui o relato de um cervejeiro brasileiro que ia muito para a Califórnia aprender com os cervejeiros de lá, voltava para o Brasil e reproduzia na sua cervejaria a mesma receita que tinha brassado lá, com equipamentos parecidos, e nunca conseguia chegar na intensidade de aroma que as IPAs de lá tinham.

“Já tinha usado vários lúpulos importados em uma receita de West Cost IPA que aprendi lá fora, mas só quando usei o Comet e o Chinook brasileiros nessa receita é que consegui chegar ao sabor do frescor do lúpulo, que muda até a textura da cerveja, deixando mais aveludada. Também trouxe um punch de aroma que só sentia quando tomava essa cerveja fresca lá na Califórnia. Foi aí que percebi que o que fazia a diferença da cerveja deles para a minha era que eles usavam os pellets frescos, recém-colhidos, e eu aqui usava os pellets do lúpulo colhido há dois anos.”

 

4. Uso de lúpulo em outros formatos

O uso do lúpulo não se restringe apenas aos pellets. Hoje diversos produtos derivados do lúpulo são usados, como óleo essencial, extratos de amargor e de aroma, flor seca, plugs, flor fresca (fresh hops), hop hash, cryo hops. Esses produtos importados são muito mais escassos no mercado do que os pellets, chegando aqui com um preço mais elevado, além de haver falta de oferta em algumas épocas do ano, o que dificulta o seu uso em cervejas de linha.

O uso da flor fresca (úmida) em, no máximo, 8 horas após a colheita para se fazer o estilo conhecido como Fresh Hops, Wet Hops ou Harvest Brew agora é possível no Brasil, trazendo à cerveja sabor, textura e paladar diferenciados daquele proporcionado pelo uso comum do lúpulo na forma desidratada. Com a produção nacional dessa matéria-prima tão amada, agora é possível produzir esses derivados do lúpulo e garantir constância de fornecimento para a cervejaria, com um custo mais baixo do que esses produtos importados.

 

5. Laudo químico da safra que você está usando

Você já parou para ler aquelas letrinhas bem pequenas que vêm no pacote de pellets importado? Na maioria deles, os resultados analíticos de qualidade que vêm descritos são de uma média histórica daquela variedade. Por isso, os teores de alfa e beta-ácidos, óleo essencial e terpenos vêm descritos sempre em faixas de teores em vez de em números exatos.

Por mais que o cultivo seja bem padronizado, estamos falando de um produto agrícola que tem clima mudando de uma safra para outra. Até mesmo o ataque de alguma praga em uma safra pode mudar significativamente a qualidade do lúpulo. E isso pode ser ainda pior, pois em testes de qualidade feitos por laboratórios brasileiros nos lúpulos importados, alguns resultados ficaram abaixo da faixa de teores estipulada no pacote, tendo redução de até 30% de alfa-ácido e 20% de óleo essencial em algumas variedades.

Enquanto isso, o pequeno produtor brasileiro faz o laudo químico do seu lúpulo após toda a safra, apresentando o resultado em número exato e fidedigno daquela safra. E como o lúpulo vai ser comercializado rapidamente, o teor de alfa-ácido e óleo essencial descrito na análise não irá mudar ao longo do curto tempo entre a colheita e o uso pela cervejaria.

 

6. Variação cambial

O preço praticado no comércio do lúpulo brasileiro não vai sofrer alterações, seguindo, no máximo, a inflação, como qualquer produto nacional. Agora o importado está sujeito à variação cambial, além da oferta e demanda dos estoques de lúpulo mundial. Ou seja, o seu contrato com a importadora de lúpulo pode mudar bastante de preço de um ano para o outro, e o consumidor certamente não vai ficar feliz de ter que pagar essa diferença!

 

7. O cervejeiro pode chamar de sua uma parte do campo do produtor

Se você nunca teve a oportunidade de ir para Hallertau ou para o Yakima Valley ver um campo de lúpulo, agora você poder conhecer uma plantação viajando provavelmente não mais do que umas 4h de carro, se estiver na região Sul/Sudeste. E se você já visitou uma plantação de lúpulo lá fora, provavelmente foi recebido como mais um turista que quer conhecer os processos e tirar fotos, e não como um cliente da fazenda. Nos campos brasileiros, você, cervejeiro, além de ser muito bem recebido pelo produtor como um potencial cliente, pode até definir o ponto de colheita ideal que quer para a sua receita.

O lúpulo, quando chega no ponto de colheita, tem uma janela de 15 dias para ser colhido; depois disso, os cones começam a oxidar e formar compostos que remetem a cheiro de cebola. Porém, dentro dessa janela de 15 dias de colheita, uma mesma variedade colhida no início da janela vai trazer aromas bem diferentes do mesmo lúpulo colhido mais tardio, para o final da janela. Então você tem ao menos duas possibilidades de uso diferentes do mesmo lúpulo, que pode ser usado em etapas diferentes em uma mesma receita ou em duas receitas diferentes. Se você precisar, o produtor pode ofertar um laudo químico do lúpulo colhido mais verde e do lúpulo colhido mais maduro, 15 dias depois, e essas diferenças poderão ser vistas analiticamente, e não apenas no sensorial.

 

8. Marketing é tudo

Hoje dizemos que o comerciante não pode vender apenas o seu produto: ele tem que vender a experiência. E é claro que você vai querer estar no campo para filmar o lúpulo que você vai usar crescendo, sendo colhido, beneficiado e, poucos dias depois, em um pacote de pellets fresquíssimo que você vai estar abrindo e que será jogado no tanque — e, em uns 30 dias após a colheita, você vai ter pronta uma cerveja única.

Mostrar para o seu cliente que aquela cerveja é feita com lúpulo brasileiro, fresco, colhido na região, explicar que aquele local em que o lúpulo é cultivado propicia um terroir único, característico daquela localidade, são experiências diferenciadas. O cliente precisa saber que, se tomar a mesma cerveja, com a mesma variedade de lúpulo, porém cultivada em outra região, o aroma e o sabor da cerveja serão diferentes. Assim como a uva e o cacau, o lúpulo é uma das espécies agrícolas que mais sofre influência do ambiente na composição das suas propriedades químicas.

Cultive umas plantas de lúpulo na sua cervejaria, proporcione às pessoas conhecerem a planta e sentirem o aroma encantador das suas flores. Mas não esqueça de colocar o logo da cervejaria naquele espaço, porque provavelmente esse vai ser o local mais fotografado! Saiba contar bem essa história, que certamente vai ser um diferencial para a sua cervejaria.

 

9. Quer ganhar concurso?

Faz uma cerveja boa com lúpulo nacional! Hoje os principais concursos têm a categoria “lúpulo nacional” ou “insumos cervejeiros nacionais”, que ainda é bem menos concorrida do que a maioria das categorias. Além disso, uma boa cerveja feita com lúpulo brasileiro, que consiga extrair o máximo potencial do frescor e da intensidade aromática daquele lúpulo, briga em qualquer estilo com qualquer lúpulo importado.

 

10. Você pode contribuir para o desenvolvimento da cadeia produtiva nacional

O consumidor de cerveja artesanal e o cervejeiro que busca entregar cervejas cada vez mais diferenciadas para seus clientes são a ponta final do sistema de produção. Se vocês não consomem, o produtor, que investe muito dinheiro e tempo no seu campo, não consegue ter o retorno para viabilizar o giro da sua produção. Se o produtor não consegue lucrar nos primeiros anos, não tem dinheiro para investir no aumento da sua área. Os seus vizinhos, que estão de olho naquela novidade que ele está plantando, não vão se interessar em plantar também, pois não veem o cultivo dele prosperar.

Hoje o Brasil todo tem 100 hectares cultivados de lúpulo, o mesmo tamanho de uma fazenda grande de lúpulo nos EUA. Se daqui a 10 anos alcançarmos uma escala de produção considerável, o lúpulo nacional vai chegar muito mais barato do que o importado nas cervejarias e a cerveja vai ter uma qualidade de frescor e aroma incomparável — e, o melhor de tudo, com um preço menor! Ganha o país, o produtor, o cervejeiro e o consumidor. Quem sabe futuramente vamos poder bater no peito e falar que o Brasil também é uma potência do agro na produção do lúpulo. Só depende de todos nós vestirmos essa camisa e incentivarmos a produção nacional!

Alguns rótulos feitos com lúpulo brasileiro. Montagem de Gabriel Fortuna com fotos de divulgação.

 

Foto de capa: lúpulo brasileiro em flor seca, plug e pellets. Foto de Gabriel Fortuna.

 

As informações e opiniões emitidas pelos colunistas são de sua responsabilidade, não expressando, necessariamente, a opinião dos membros da equipe da Revista da Cerveja.

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