Por Kelvin Azevedo de Figueiredo, analista de sistemas, suporte e segurança de dados, mestre-cervejeiro na Cervejaria Libertastes (linha especial), homebrewer desde 2010 (como hobby na Cerveja Eisenherren) e cervejeiro profissional desde 2018. Tem 43 conquistas em concursos nacionais e internacionais, profissionais e de homebrew. É ex-presidente da Acerva Brasil e teve dois mandatos como presidente da Acerva Mineira. É cofundador do Instituto Mineiro da Cerveja (IMC), pós-graduado em Tecnologia Cervejeira e juiz Certified BJCP (ID: E1751).
O risco de esquecer a engrenagem — cervejeiros caseiros, verdadeiros artesanais
A cultura da cerveja “artesanal” brasileira nasceu, em grande parte, na panela dos cervejeiros caseiros (homebrewers). A base que quase sempre fica fora do gráfico, “detalhe” pouco observado quando se analisa a evolução da cerveja “artesanal” no Brasil: o que acontece e aconteceu na base e sua importância.
Antes das fábricas, dos festivais e da profissionalização do setor, existe a produção caseira (ARTESANAL), suas gambiarras e, ao redor dela, as lojas de insumos, “brewshops”.
Entre 2005 e 2019, essas lojas se multiplicaram pelo país. E não por “moda”: foram hubs técnicos e culturais. No balcão se resolvia moagem, substituição de maltes e lúpulos, controle de fermentação, correções de processo e, principalmente, formação de repertório.
Essas lojas eram pontos de encontro, onde conhecimento virava prática e prática virava cultura, de forma colaborativa.
Hoje, o mercado e o meio são maiores e mais complexos. Segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), o país chegou a 1.949 cervejarias registradas em 2024 e ultrapassou 43 mil cervejas registradas.
Em contrapartida e ao mesmo tempo, o cervejeiro caseiro sente o mercado ficar mais difícil para sua cultura: menos lojas físicas, menos retirada local, mais dependência de logística e planejamento. As lojas (brewshops) não desapareceram, mas diminuíram e migraram para o digital. O que antes era distribuído e variado nas lojas virou mais concentrado; o que antes era presencial virou logística. Isso não é só questão comercial, é sintoma de como a cultura está se reorganizando.
A seleção natural do custo e da conveniência dão sentido a isso: logística e operação pressionam margens; o câmbio pesa sobre insumos importados (lúpulos, leveduras, peças) e as cervejarias comerciais elevam o padrão do que chega ao consumidor, reduzindo parte da vontade de produzir para ter acesso ao não “ofertado”.
Menos lojas físicas e mais vendas on-line — a revolução do e-commerce, que era suporte, virou opção e, quase sempre, única opção de comércio com lucro. A conta fecha melhor com giro nacional, estoque otimizado, poucos funcionários, sem aluguel e maior automação.
Hoje, o efeito colateral é óbvio para quem fabrica em casa: menos balcão técnico e menos soluções imediatas para o “esqueci a levedura” ou “preciso ajustar a moagem”.
O que muitos não entendem ou se lembram é que a revolução da cerveja artesanal (atual) nasceu e foi impulsionada pelo cervejeiro caseiro (homebrew). O cervejeiro caseiro foi (e ainda é) um agente multiplicador. Foi ele quem formou paladar, espalhou repertório, aplicou a tal da “cerveja amarga”, gerou demanda por diversidade e elevou a conversa sobre qualidade.
Não foi coincidência que associações de cervejeiros caseiros (Acevas) tenham se estruturado no Brasil desde 2006, criando rede, concursos e formação com o objetivo de expandir e apoiar a cultura cervejeira e seus atores. Tudo sem finalidade financeira… Sempre pela CULTURA.
Importante entender que o uso de tecnologias ou meios virtuais, como o e-commerce, não são os fatores que levam a futuros incertos ou à degradação da cultura cervejeira. No passado, já houve uma tecnologia virtual e que conectava avatares/pessoas curiosas quanto à produção de cervejas em casa: a rede social Orkut foi responsável por linkar apreciadores/curiosos/cervejeiros artesanais de todo o Brasil ao oferecer um ambiente de debates comunitários sobre produção e consumo de cervejas artesanais, levando à real socialização e multiplicação massiva da cultura cervejeira no Brasil… As Acervas que o digam!
Quando uma cultura assim está viva, ela se torna um “viveiro” de onde saem ideias, estilos, métodos e, muitas vezes, profissionais. Se o ecossistema enfraquece essa cultura ou não a apoia, por desatenção, custo, falta de apoio ou ausência de espaços de troca, acaba perdendo também parte da sua força motriz.
O balcão como infraestrutura de inovação
A transição para o digital trouxe eficiência, mas o balcão físico era uma infraestrutura invisível de inovação, onde acontecia feedback rápido, diagnóstico de falhas, substituições inteligentes e ensino informal. Sem isso, a entrada no hobby muda. O novo cervejeiro caseiro tende a ser mais informado e necessita ser organizado com suas produções, além de quase sempre seguir em “carreia solo”, ficando mais “solitário”. Uma cultura menos coletiva. Logo, diminuem o número de novos adeptos.
Alguns países já passaram ou passam por algo parecido. Muitos entenderam que é importante e vital o apoio às bases para acelerar e manter o ecossistema em evolução.
Nos EUA, a American Homebrewers Association (AHA) registra marcos claros: foi fundada em 1978, com a legalização federal do homebrew em 1979 e o início da National Homebrew Competition no mesmo ano. Essa arquitetura (associação + competição + feedback) fortaleceu a base, criou linguagem comum e formou um viveiro de talentos. Um caso emblemático é a Sierra Nevada: a própria história institucional relata Ken Grossman como cervejeiro caseiro e a abertura de uma loja de insumos (brewshop) antes da consolidação da cervejaria.
Fica claro que quando a cultura/base cervejeira cresce com suporte (comunidade, técnica, competição, varejo especializado), o setor inteiro ganha, propiciando oportunidades e inovações ao consumidor final.
Já no Reino Unido, o peso da base aparece em outro formato: a Campaign for Real Ale (CAMRA — Campanha pela Cerveja Real). Fundada em 1971, nasceu como movimento de consumidores para defender qualidade e diversidade em pubs e cervejas, provando também que a engrenagem cultural nem sempre nasce no topo; às vezes, nasce na base e fortalece o mercado.
Logo, se o suporte, a prática e a cultura oriunda dos cervejeiros caseiros diminuem, isso também reflete na espontaneidade de talentos amadores e no número de experimentos fora da escala industrial, levando a uma padronização. Porque o mercado pode continuar crescendo, mas cresce diferente: mais eficiente, porém menos diversificado, rico e competitivo com as importações.
“Evolua ou morra”
Apoiar a base não é caridade nem favor, é estratégia de sustentabilidade cultural e até mesmo comercial. Lojas de insumos podem evoluir para hubs técnicos (cursos, consultoria, retirada local, curadoria premium…). Cervejarias podem fortalecer o funil com iniciativas “profissional-amador”, colabs com caseiros, apoio a concursos, mentorias e eventos.
O apoio a esses movimentos culturais relacionados às cervejas “artesanais” leva à evolução do público e do comércio, principalmente numa época que indica a diminuição do consumo de álcool e à demanda por maior qualidade e variedade de cervejas.
Quanto ao cervejeiro caseiro, ele tende a produzir menos e com mais técnica, sem tanta atuação como agente multiplicador.
Fica claro que, para continuarmos a ter uma cultura cervejeira artesanal relevante e inovadora, é preciso haver mais apoio e fortalecimentos das bases. Caso contrário, seremos copiadores de realidades alheias (estilos e gostos de outros países) e querendo ter estilo próprio (brasileiro).
Quem fez e faz acontecer, os verdadeiros agentes/engrenagens da cerveja “artesanal” no Brasil, são os cervejeiros caseiros… Verdadeiros artesãos e responsáveis!
Referências
- Acerva Brasil — O que são as Acervas? (concurso e histórico). Disponível em: https://acervabrasil.com.br/o-que-sao-as-acervas.
- Acerva Brasil — Quem somos (movimento desde 2006). Disponível em: https://acervabrasil.com.br.
- AHA — How homebrewing led to Sierra Nevada Pale Ale (Zymurgy Live). Disponível em: https://homebrewersassociation.org/zymurgy-live/how-homebrewing-led-to-sierra-nevada-pale-ale/
- BrewDog — Our History (início em 2007, pequenos lotes e venda em mercados). Disponível em: https://brewdog.com/pages/history
- CAMRA — Who we are (fundada em 1971). Disponível em: https://camra.org.uk/about/who-we-are
- Mapa (gov.br) — Brasil tem mais de 43 mil cervejas registradas, 1.949 cervejarias em 2024. Disponível em: https://www.gov.br/agricultura/pt-br/assuntos/noticias/brasil-tem-mais-de-43-mil-cervejas-registradas
- National Homebrew Competition — Histórico (desde 1979). Disponível em: https://homebrewersassociation.org/national-homebrew-competition/
- Sierra Nevada — About Us (Ken Grossman homebrewer; The Home Brew Shop). Disponível em: https://sierranevada.com/about-us
Foto: Francisco Dumont
Imagem: IA generativa/arquivo do autor
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