Colaboração, identidade regional e turismo estão fortalecendo o setor no estado
Por Mário Kleina, empreendedor do setor cervejeiro, fundador da cervejaria Fumaçônica e diretor de marketing da Associação das Microcervejarias do Paraná (Procerva). Atua no desenvolvimento de projetos voltados à promoção da cultura cervejeira, organização do setor e fortalecimento das cervejarias independentes no estado.
Nos últimos anos, o movimento cervejeiro brasileiro amadureceu. Se em um primeiro momento o crescimento da cerveja artesanal foi marcado pela abertura de novas marcas e pela experimentação de estilos, hoje o setor começa a consolidar estruturas mais sólidas de organização e desenvolvimento. Nesse cenário, o Paraná vem se destacando como um exemplo de articulação coletiva e construção de um verdadeiro ecossistema cervejeiro.
Parte importante desse processo passa pelo fortalecimento das associações estaduais, que atuam como ponto de encontro entre cervejarias, instituições e iniciativas voltadas ao crescimento do setor. No caso paranaense, a atuação da Procerva tem sido fundamental nesse avanço. Atualmente, a entidade representa 63 cervejarias em todo o estado, atuando na defesa de interesses do setor, na construção de cultura cervejeira e na aproximação com o poder público.
Mais do que apenas reunir produtores, a organização coletiva permite construir uma visão de longo prazo. A articulação entre cervejarias abre espaço para iniciativas conjuntas de promoção, participação em eventos, diálogo institucional e desenvolvimento de projetos estruturantes para o mercado.
Construindo um território cervejeiro
O Paraná possui hoje uma cena cervejeira diversa, distribuída em diferentes regiões, com características próprias e identidades em construção. Esse movimento vai além da produção de cerveja: trata-se da consolidação de um território cervejeiro, onde cultura, gastronomia e economia criativa caminham juntas.
Um dos principais exemplos dessa construção coletiva é o Festival da Cultura Cervejeira Artesanal (FCCA), que chega à sua 8ª edição consolidado como uma das principais vitrines do setor no estado. Mais do que um evento cervejeiro, o FCCA reúne gastronomia, música e arte, ampliando o alcance da cultura cervejeira para novos públicos.
A atual gestão da Procerva viabilizou, de forma inédita, a captação de recursos públicos e o apoio de secretarias de turismo e da Prefeitura de Curitiba, permitindo que o evento fosse realizado em praça pública e com acesso gratuito. Na última edição, o circuito passou por Curitiba, Maringá e Foz do Iguaçu, reuniu mais de 20 mil pessoas e começou a integrar o calendário oficial dos municípios por onde circula.
Turismo cervejeiro: quando a cervejaria vira destino
Outra frente estratégica em expansão no Paraná é o turismo cervejeiro. Cada vez mais, cervejarias têm se estruturado para receber visitantes, oferecendo experiências que vão além da degustação, como visitas guiadas, bares de fábrica, gastronomia e eventos culturais.
As rotas cervejeiras do estado estão em processo de estruturação, com o objetivo de, no futuro, formar uma rota estadual integrada, conectando diferentes regiões produtoras. Hoje, cidades como Guarapuava, Maringá, Pinhais, São José dos Pinhais e Curitiba já contam com rotas estabelecidas.
Curitiba, em especial, possui atualmente 17 cervejarias receptivas preparadas para receber turistas, reforçando o potencial da cidade como um importante destino cervejeiro urbano. Esse movimento amplia as oportunidades de negócio e fortalece o vínculo entre cervejarias e consumidores.
Além da força das cervejarias, o Paraná também se destaca como um importante polo produtor de insumos para o setor, abrigando estruturas estratégicas para a cadeia cervejeira — como a Agrária Malte, considerada a maior maltaria da América Latina. Esse fator fortalece ainda mais as rotas regionais, agregando valor à experiência e evidenciando o estado como um território completo da cerveja, que integra produção, insumos e cultura em uma mesma jornada.
Colaboração como caminho para o futuro
Apesar dos avanços, o setor ainda enfrenta desafios relevantes, como a complexidade tributária, a logística e o acesso a mercado para pequenos produtores. Nesse cenário, a cooperação entre cervejarias e o fortalecimento das associações seguem sendo fundamentais para garantir um desenvolvimento sustentável.
O modelo paranaense mostra que, quando há organização coletiva, é possível transformar um conjunto de iniciativas isoladas em um ecossistema estruturado, com impacto econômico, cultural e turístico.
Mais do que competir entre si, as cervejarias independentes brasileiras têm demonstrado que a colaboração pode ser um dos principais ingredientes para a construção de um mercado mais sólido, inovador e conectado com o público.
Imagem: Divulgação Procerva
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