Lúpulo brasileiro, uma realidade — A força da união na produção do lúpulo

Aprolúpulo

Por Cezar Faiad Neto, presidente da Cooperativa Brasileira de Lúpulo (CBL) e diretor da Associação Brasileira de Produtores de Lúpulo (Aprolúpulo).

 

Como qualquer cadeia produtora do agronegócio, o lúpulo também começou sua trilha no Brasil de forma empírica, com muitas tentativas e erros, com pouca literatura disponível, mas com muita vontade. Apesar de seu (re)início ter ocorrido em meados da década passada, a coisa pegou volume e ritmo no começo da década atual. Em minha visão, um pouco por conta do ócio produtivo causado pela pandemia, outro tanto por conta do imenso mercado interno. Misture-se a isso o espírito empreendedor do brasileiro, voilà.

A cadeia é composta basicamente por três elos:

  • Agrícola — responsável pela produção da flor de lúpulo, que proporciona a lupulina, ingrediente fundamental para produção da cerveja através de seus componentes alfa-ácidos, beta-ácidos e óleos essenciais.
  • Indústria — que transforma a flor de lúpulo fresca em produto acabado, lúpulo em pellet, em atmosfera modificada por nitrogênio.
  • Comércio — que disponibiliza, comercializa e distribui o produto final ao mercado consumidor, tendo como principal cliente o mercado cervejeiro.

 

Gráfico: Cezar Faiad Neto

 

Após alguns anos de euforia e muito romantismo, veio a dura realidade, as contas. Atualmente, temos uma produtividade em alta, alcançando patamares próximos, às vezes superiores, aos dos mercados norte-americanos e europeus, mas com frescor e aromas tropicais inigualáveis. As múltiplas safras também nos diferenciam. Enquanto o mundo trabalha com uma safra ao ano, por aqui temos de duas a três safras. Apesar de termos muitas lições a serem aprendidas, a lavoura vai muito bem, obrigado!

Uma das maiores barreiras de entrada no negócio é o custo do capital, considerando o investimento inicial necessário, seja ele no campo, com estaqueamento, cablagem, irrigação, iluminação, etc., seja na indústria, com os equipamentos para as operações de pelagem, secagem, enfardamento, peletização, etc.

Como se não bastasse, os produtores de lúpulo têm a empreitada da comercialização. Apesar dos cervejeiros terem abraçado o lúpulo nacional, a diversidade qualitativa do produto, devido aos distintos terroirs do Brasil, tem alguns desdobramentos no setor cervejeiro:

  • Existem cerca de 100 produtores de lúpulo no Brasil, segundo o último censo da Aprolúpulo 2024. Imaginem o cervejeiro fazer uma concorrência para aquisição de lúpulo com tamanha oferta, totalmente impraticável. Obviamente, fica restrito a região e/ou contatos pontuais.
  • A extensão territorial do Brasil proporciona grande diversidade de terroirs, que é maravilhoso para a exploração de diferentes sabores e aromas, proporcionando excelentes cervejas sazonais, fora de série.
  • Por outro lado, essa mesma diversidade impõe maior atenção na elaboração de cervejas de série, devido à querência da repetibilidade e reprodutibilidade do processo.

Ponderando os diversos aspectos da cadeia do lúpulo, surgiu a ideia de agrupar os produtores em um novo modelo de negócio, através de um sistema colaborativo, e assim nasceu a Cooperativa Brasileira de Lúpulo (CBL). Nosso principal objetivo é focar o esforço do produtor de lúpulo na agricultura, sem, contudo, perder o contato e a sensibilidade do mercado.

Por meio da CBL, podemos capitalizar o frescor do lúpulo nacional e fazer um blend balanceado e inteligente, proporcionando um produto padronizado e facilitando a vida dos nossos cervejeiros. Também mitigamos a necessidade de investimento, por parte do produtor, fazendo com que grande parte do processo industrial seja incorporado pela Cooperativa. Há a concentração de esforços de marketing e comercial, com todos lutando por um só ideal, uma só marca, uma razão única.

Para àqueles que preferem um produto diferenciado, não se preocupem: também poderemos manter algumas linhas regionalizadas a fim de conservar as características únicas das cervejas de estações e/ou um público gourmet.

Atualmente, a CBL conta com cerca de 20 produtores, que são responsáveis pela produção de 1/4 da produção brasileira. Está sediada em Santa Rosa de Viterbo/SP e tem dois Centros de Beneficiamentos em Itapetininga/SP e Pariquera-Açu/SP. Nossa ideia é capilarizar, receber lúpulo de diversas partes do país e homogeneizá-lo, a fim de reduzir a variabilidade e adotar um padrão de produto.

Essa ficha demorou a cair para o produtor, e a insistência na carreira solo ainda persiste em alguns cantões, mas, do nosso ponto de vista, o caminho dos agrupamentos de produtores é inexorável.

Muitos players nos perguntam sobre os papeis das duas entidades, Aprolúpulo e CBL, que, a princípio, parecem se confundir. No entanto, basta uma pequena análise para entender que são totalmente complementares. Aprolúpulo tem um papel institucional perante todo o segmento lupuleiro, protege os interesses da cadeia, discute questões tributárias com entidade estaduais e federais, enfim, fala pelo segmento de forma institucional. Já a CBL responde pelos interesses dos produtores de lúpulo no âmbito físico: produção, beneficiamento, estocagem e comercialização. Em qualquer outro setor temos essas duas figuras, fazem papeis distintos e complementares.

Não podemos ignorar a criatividade, a energia e a resiliência da nação brasileira. A história nos mostra que o caminho é esse, COOPERATIVISMO. Podemos citar diversos exemplos, mas vou me ater àqueles ao nosso redor, como: a soja, que, há 30 anos, era uma visão, e hoje somos um dos maiores players globais; a maltação da cevada, que, 50 anos atrás, era 100% importada, e após a produção ser canalizada e incentivada por sistemas cooperativistas, virou um monstro, de proporções gigantescas e aí afora.

Vantagens do cooperativismo na cultura do lúpulo:

  • padronização do lúpulo;
  • mitigação de riscos comerciais;
  • aquisição de insumos de forma coletiva;
  • intercâmbio de ideias entre produtores;
  • desenvolvimento conceitual de projetos de forma conjunta;
  • compartilhamento de soluções;
  • sensível redução do custo de capital;
  • fazer parte de uma equipe e empresa em franco crescimento.

Enfim, unidos estamos aprimorando o setor, indo do amadorismo ao profissionalismo, resolvendo os problemas do PRODUTOR e do CERVEJEIRO, essa é nossa missão. Poderíamos ficar aqui listando diversas vantagens adicionais, mas o maior trunfo de ser cooperado é o sentimento de pertencimento a uma cadeia de produção extremamente importante, que resulta na nossa preciosa CERVEJA, produto tão apreciado por nós brasileiros. Então SAÚDE!

 

Logo: Divulgação Aprolúpulo

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