Lúpulo brasileiro, uma realidade — Amargor é tudo igual! Será?

Por Cezar Faiad Neto, presidente da Cooperativa Brasileira de Lúpulo (CBL) e diretor da Associação Brasileira de Produtores de Lúpulo (Aprolúpulo).

 

Depois de trabalhar décadas na agroindústria alimentícia, eu me acostumei com o termo “commodity” para designar matérias-primas comuns, padronizadas ao longo do mundo, sejam elas agrícolas, pecuárias, minerais ou energéticas. Apesar disso, como consumidor, nas gôndolas dos supermercados, percebia os diferentes níveis de preços dessas mesmas commodities, dependendo da embalagem, do ponto de venda, do marketing envolvido, mas, acima de tudo, dependente da percepção do cliente. Contudo, quando tratamos de B2B, o preço varia só e basicamente em função da qualidade percebida e reconhecida. Aí o diferencial de preço surge naturalmente.

Focando na questão original, será que lúpulo de amargor é tudo igual e pode ser considerado uma commodity incondicional? Essa é uma afirmação que escutamos de forma recorrente no mercado cervejeiro. Porém, vamos fazer algumas ponderações que podem mudar seu conceito.

É verdade que o cervejeiro pode administrar o teor de amargor através da conversão dos alfa-ácidos em isso-alfa-ácidos, por meio do momento da adição e do tempo de fervura. Contudo, temos diversos tipos de amargor, desde aqueles limpos, suaves, redondos, curtos, delicados, até os longos, ásperos, adstringentes. Somente esse traço já indica que amargor não é exatamente tudo igual. Além disso, não podemos ignorar o arraste dos variados compostos fenólicos, que são bem mais complexos de se avaliar.

Como se não bastasse, os lúpulos brasileiros têm mostrado um traço diferente dos importados. Isto é, quando compramos um lúpulo de amargor nacional, ocorre uma entrega adicional não encontrada em igual intensidade nos lúpulos importados. Por exemplo: Zeus, Nugget, etc., têm entregue sabores e aromas muito além daqueles esperados por essas cultivares.

O tema é controverso, mas têm gerado muitas alternativas interessantes. Um indício de que estamos falando de matérias-primas diferentes é o fato de estarmos utilizando, cada vez mais, lúpulos de amargor para elaboração de cervejas single hop por cervejarias renomadas.

É certo que as infinitas potencialidades desta flor ganharam mais complexidade com os lúpulos brasileiros, proporcionando aos nossos alquimistas uma imensidão de possibilidades através da mistura de cereais maltados e não maltados, e com processos cada vez mais inventivos.

Então, divirtam-se elaborando novas receitas, que nós, apreciadores, nos divertiremos degustando-as. PROST!

 

Logo: Divulgação Aprolúpulo

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