Lúpulo brasileiro: do sonho a uma realidade em crescimento

Foi entre 2017 e 2019 que o cultivo de lúpulo no Brasil ganhou seu maior impulso. Adaptações relacionadas às condições climáticas do país estiveram entre as primeiras necessidades, e de lá para cá diversas pesquisas foram sendo desenvolvidas, investigando desde o manejo até melhoramento genético. O maior potencial do lúpulo brasileiro, segundo especialistas, está na criação de uma identidade sensorial própria para a cerveja nacional — o que pode se conectar diretamente à retomada do crescimento do mercado cervejeiro. Os desafios não são poucos, ligados especialmente à industrialização e comercialização técnica. Uma ampla rede de produtores, pesquisadores, especialistas e cervejarias se conecta para tornar possível a realidade do lúpulo no Brasil. Nesta reportagem em duas partes, apresentamos um panorama completo e atualizado sobre a produção nacional desta flor cervejeira. Confira a parte 1 na RC Técnica #14.

 

O investimento na pesquisa de lúpulo começou no Brasil principalmente por conta do crescimento do mercado de cervejas artesanais, que busca ingredientes nacionais e exclusivas. É o que avalia Duan Ceola, mestre em Química Pura e Aplicada, professor e coordenador na Escola Superior de Cerveja e Malte (ESCM-SC), sommelier de cervejas e cervejeiro caseiro, que há anos desenvolve pesquisas relacionadas à utilização do lúpulo na cerveja, inclusive o acompanhamento da qualidade e robustez dos lúpulos nacionais.

O país ainda depende totalmente da importação de lúpulo, explica Duan, e ampliar a produção local pode reduzir custos e trazer mais autonomia cervejeira. “Além disso, há potencial econômico para agricultores. O cultivo exige adaptações ao clima brasileiro, o que justifica os investimentos em pesquisa. A longo prazo, o objetivo também é desenvolver variedades com identidade brasileira”, o especialista resume.

 

Terroir nacional

O lúpulo brasileiro é diferente do importado principalmente por conta das condições de cultivo e do ambiente em que é produzido, explica Duan Ceola. “Embora seja a mesma espécie (Humulus lupulus), o lúpulo cultivado no Brasil desenvolve características únicas devido ao clima tropical ou subtropical, ao solo e às técnicas de manejo agrícola — elementos que formam o chamado terroir”, detalha.

Esses fatores — clima, solo, altitude e manejo — influenciam diretamente a composição química dos cones, determinando aroma e amargor. “No Brasil, essas condições têm gerado perfis aromáticos diferenciados, com notas frutadas, tropicais e em alguns casos, adocicado em cultivares como Cascade, Comet e Saaz, especialmente nas regiões Sul, Sudeste e áreas de altitude”, observa Duan. “Embora ainda seja um tema em estudo, já se percebe sutilmente o surgimento de um ‘sabor brasileiro’ do lúpulo, capaz de conferir identidade diferenciada às cervejas produzidas no país.”

 

Índices de alfa-ácido

O pesquisador também destaca outra diferença: o lúpulo brasileiro tende a ter índices maiores de alfa-ácidos, compostos que são responsáveis pelo amargor da cerveja. “Isso está relacionado às particularidades do clima brasileiro e ao fato de a cultura ainda estar em fase de adaptação e aprimoramento”, explica Duan. “Mesmo com essas diferenças, o lúpulo brasileiro vem sendo cada vez mais valorizado, especialmente por cervejeiros artesanais que buscam ingredientes locais e exclusivos, capazes de trazer autenticidade e diferencial às suas receitas.”

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Ilustração: Eduardo Soares

 

 

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