Além do Amargor — História, genética e terroir: compreendendo o futuro do lúpulo

Duan Ceola

Por Duan Ceola, mestre em Química Pura e Aplicada, professor na Escola Superior de Cerveja e Malte (ESCM), sommelier de cervejas ESCM/Doemens e cervejeiro caseiro desde 2012. Desenvolve pesquisas relacionadas à utilização do lúpulo na cerveja, com publicações em revistas nacionais e internacionais, além do acompanhamento da qualidade e robustez dos lúpulos nacionais. Foi idealizador da Copa Brasileira de Lúpulo.

 

O lúpulo (Humulus lupulus L.) é uma das matérias-primas mais importantes da cerveja, responsável principalmente pelo amargor, aroma e por parte da estabilidade da bebida. Entretanto, compreender seu potencial exige olhar para além das variedades comerciais atualmente conhecidas. A história do lúpulo, seu processo de melhoramento genético, sua diversidade molecular e o ambiente onde é cultivado estão diretamente relacionados à qualidade final dos cones. Alguns estudos mostram justamente essa evolução, desde a presença do lúpulo na Europa medieval até as modernas ferramentas genômicas e sua adaptação às condições brasileiras.

As evidências arqueobotânicas apresentadas por Wilson (1975) demonstram que o lúpulo já era transportado na Europa Ocidental durante a Alta Idade Média. Na Graveney Boat, uma embarcação medieval encontrada na Inglaterra, foram identificados numerosos restos de inflorescências femininas de Humulus lupulus, inclusive dentro da embarcação e em uma plataforma associada a ela. A distribuição dos restos levou o autor a propor que o barco provavelmente transportava uma carga de lúpulo. Embora o estudo não prove que aquele material tenha sido utilizado especificamente na produção de cerveja, ele fornece uma evidência física importante da circulação e do uso humano do lúpulo naquele período.

Com o passar dos séculos, o homem deixou de apenas utilizar e selecionar plantas espontaneamente superiores e passou a realizar melhoramento genético direcionado. Neve (1986) mostra como os programas de melhoramento desenvolvidos principalmente a partir do início do século XX transformaram profundamente a cultura. O objetivo inicial era aumentar o teor de resinas e, posteriormente, combinar alto teor de alfa-ácidos com produtividade, aroma e resistência a doenças. Variedades como Brewer’s Gold, Bullion e Northern Brewer tiveram papel fundamental nesse processo e serviram como fonte genética para inúmeras cultivares posteriores.

O resultado foi expressivo. Enquanto variedades tradicionais apresentavam aproximadamente 3 a 5% de alfa-ácidos, novas cultivares alcançaram concentrações muito superiores e passaram a produzir mais alfa-ácidos por hectare. O melhoramento, portanto, aumentou significativamente a eficiência da produção de lúpulo. Ao mesmo tempo, ficou evidente que alto teor de alfa-ácidos não é sinônimo de melhor lúpulo. Aroma, resistência, produtividade e adaptação ambiental também são características fundamentais, especialmente para uma indústria cervejeira cada vez mais interessada em diferentes perfis sensoriais.

O avanço da genética molecular permitiu compreender melhor a origem dessas diferenças. Natsume et al. (2015) desenvolveram uma referência genômica para o lúpulo e identificaram mais de 41 mil genes potencialmente codificadores de proteínas. A análise da expressão gênica mostrou que muitos genes relacionados à produção de ácidos amargos, terpenos e compostos fenólicos apresentam elevada atividade nos cones, especialmente nas glândulas de lupulina. Essas estruturas funcionam como verdadeiras fábricas bioquímicas da planta, concentrando compostos fundamentais para o aroma e o amargor da cerveja.

A comparação entre lúpulos cultivados e selvagens também mostrou que a domesticação modificou a expressão de genes relacionados ao metabolismo especializado. Dessa forma, as diferenças de aroma e composição química observadas entre variedades não são apenas características visuais ou agronômicas: possuem uma base genética e molecular.

Mais recentemente, Kale et al. (2026) demonstraram que a diversidade genética do lúpulo é ainda mais complexa. O estudo identificou diferenças importantes entre linhagens europeias e norte-americanas e mostrou que grandes blocos cromossômicos dessas origens podem permanecer relativamente preservados devido à baixa recombinação. Ao mesmo tempo, diferentes regiões genômicas carregam características favoráveis. Regiões de origem europeia e norte-americana foram associadas ao teor de alfa-ácidos, e a combinação desses diferentes alelos apresentou efeitos aditivos. Esse resultado demonstra que o futuro do melhoramento pode estar menos relacionado à escolha de uma variedade inteira e mais à combinação estratégica de regiões genômicas favoráveis.

Entretanto, a genética não explica sozinha o desempenho do lúpulo. O estudo realizado por Santos et al. (2022) no Brasil demonstra claramente a importância do ambiente. Ao avaliar 28 clones cultivados em diferentes regiões brasileiras, os autores observaram que aproximadamente 30% da variação estava relacionada aos clones, enquanto 47% estava associada aos componentes ambientais. O coeficiente de repetibilidade inferior a 0,25 reforçou a forte influência da interação entre genótipo e ambiente.

Esse resultado evidencia a importância do terroir do lúpulo. Temperatura, fotoperíodo, altitude, solo, disponibilidade de água, manejo e época de colheita podem modificar a expressão do potencial genético de uma planta. Assim, uma mesma variedade pode apresentar diferentes concentrações de alfa-ácidos e diferentes perfis químicos quando cultivada em ambientes distintos. Para o Brasil, essa questão é especialmente relevante devido à grande diversidade climática e às diferenças de latitude em relação às principais regiões produtoras tradicionais.

O desenvolvimento do lúpulo brasileiro, portanto, não deve buscar simplesmente reproduzir variedades estrangeiras. É necessário identificar quais genótipos apresentam melhor adaptação a cada região e quais ambientes favorecem determinadas características químicas e sensoriais. Além do alto teor de alfa-ácidos, os programas de melhoramento devem considerar aroma, produtividade, resistência a doenças, estabilidade e adaptação climática.

Entender a história do lúpulo é, portanto, fundamental para compreender seu futuro. As variedades modernas carregam genes provenientes de populações antigas, materiais selvagens e diferentes programas de melhoramento. A próxima etapa será utilizar essa diversidade de forma cada vez mais precisa, combinando genética, genômica, química, agronomia e análise sensorial.

Para o Brasil, essa integração representa uma oportunidade única. Em vez de simplesmente adaptar variedades desenvolvidas em outros países, existe a possibilidade de selecionar e desenvolver materiais verdadeiramente adaptados aos diferentes ambientes brasileiros. O futuro do lúpulo não estará apenas na busca pela variedade com maior teor de alfa-ácidos, mas na compreensão de qual combinação entre genética e ambiente produz o melhor resultado para cada objetivo cervejeiro.

O lúpulo do futuro, portanto, será resultado da interação entre sua história, seu genoma e o lugar onde é cultivado. Compreender essa relação permitirá transformar a diversidade genética e ambiental brasileira em novas cultivares, novos aromas e, potencialmente, em uma identidade própria para o lúpulo produzido no país.

 

Referências bibliográficas

KALE, S. M. et al. Extensive variation between chromosomes of North American and European hop. Nature Communications, v. 17, art. 4110, 2026. DOI: 10.1038/s41467-026-72379-8.

NATSUME, S. et al. The draft genome of hop (Humulus lupulus), an essence for brewing. Plant and Cell Physiology, v. 56, n. 3, p. 428–441, 2015. DOI: 10.1093/pcp/pcu169.

NEVE, R. A. Hop breeding worldwide—its aims and achievements. Journal of the Institute of Brewing, v. 92, n. 1, p. 21–24, 1986. DOI: 10.1002/j.2050-0416.1986.tb04370.x.

SANTOS, F. C. dos et al. Phenotypic variability in the induction of alpha acids in hops (Humulus lupulus L.) in Brazil. Journal of Agricultural Science, v. 14, n. 6, p. 198–205, 2022. DOI: 10.5539/jas.v14n6p198.

WILSON, D. G. Plant remains from the Graveney Boat and the early history of Humulus lupulus L. in W. Europe. New Phytologist, v. 75, n. 3, p. 627–648, 1975. DOI: 10.1111/j.1469-8137.1975.tb01429.x.

 

Foto: Arquivo pessoal

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