Lúpulo brasileiro, uma realidade — Da ciência ao copo: como a pesquisa está ajudando a construir o lúpulo brasileiro

Por Gabriel Cássia Fortuna, engenheiro agrônomo e Doutor em Produção Vegetal, com pesquisa aplicada no manejo e adaptação de variedades de lúpulo cultivadas no Brasil. Atualmente é consultor e pesquisador na Brazuca Lúpulos, empresa de assistência técnica para o cultivo de lúpulo, e diretor técnico da Associação Brasileira de Produtores de Lúpulo (Aprolúpulo).

 

Por muito tempo, falar em produção de lúpulo no Brasil era um desafio improvável. Uma cultura tradicionalmente cultivada nas regiões de clima temperado do Hemisfério Norte precisava encontrar condições para se desenvolver em um país de clima tropical com enorme diversidade climática e de solos.

Hoje o improvável já se tornou realidade. O cultivo de lúpulo se espalha por diferentes regiões brasileiras e, paralelamente, universidades, centros de pesquisa, consultores e produtores começam a construir um conhecimento mais refinado sobre o manejo específico para cada variedade em determinado local. Afinal, não podemos replicar o mesmo manejo empregado no Cascade cultivado no frio do Sul do país no Cascade produzido no calor do Centro-Oeste.

A pergunta não é mais “como cultivar o lúpulo no Brasil?”, e sim como “cultivar o Comet no Sul e e o Comet no Nordeste?”.

Muitas universidades e instituições, como UFV, Unesp/FCA, UFPR, UFES, Unicamp, IAC, USP, dentre outras, estudam a fitoquímica e o uso no processo cervejeiro de variedades cultivadas em diferentes regiões (efeito do terroir). Também estudam as diferenças entre o pellet nacional e o pellet importado, avaliando características físico-químicas e perfil aromático dos pellets, além das características sensoriais transmitidas à cerveja.

No campo, a pesquisa agronômica também avança em áreas como fisiologia, nutrição, irrigação, manejo do solo, fitossanidade, manejo fotoperiódico, melhoramento genético, propagação de plantas, com diversas pesquisas sendo realizadas do Sul ao Nordeste. Abaixo, listo algumas universidades e instituições com suas respectivas linhas de pesquisa:

• Adaptação de variedades — Udesc, Incaper, Unesp/FCA, UESC, IFMS, UFPR, Cetene, UEM, Unipar.

• Análises de qualidade de lúpulo ou cerveja — Udesc, UFC, UFV, UFES, UNB, Unicamp, IAC, Unesp/FCA, USP.

• Adaptação genética e fisiológica — Ufla.

• Uso de microrganismos e bioinsumos — UFRRJ/Embrapa Agrobiologia

• Cultivo in vitro, estudos moleculares — UFRRJ.

• Melhoramento genético — Esalq.

• Manejo agroclimático — Unesp/FCA.

• Manejo fotoperiódico e fisiologia — UFPR, Unesp/FCA.

As primeiras pesquisas em campo com o lúpulo brasileiro começaram em 2016, que é a data que consideramos como o início dos primeiros cultivos no Sul e Sudeste. O meu doutorado, que começou em 2018 na Unesp/FCA, foi a segunda tese de campo no Brasil avaliando a adaptação de variedades e manejos no Sudoeste Paulista.

É tudo muito recente, estamos começando a construir o conhecimento de como produzir lúpulo em clima tropical, e ainda temos uma longa e promissora história sobre a introdução de uma nova cultura agrícola no país. Vocês sabiam que o Brasil hoje é um dos países pioneiros no uso e pesquisa sobre o manejo com suplementação luminosa? A necessidade de produzir fora das zonas de latitude ideal para o pleno crescimento da planta, onde não temos a quantidade de horas de sol suficientes, faz com que o país se torne hoje uma referência no cultivo de lúpulo com iluminação artificial

Sendo assim, produtores, pesquisadores e cervejarias começaram a formar uma rede de conhecimento e sinergia essencial para transformar o lúpulo brasileiro em uma matéria-prima competitiva e com identidade própria.

Essa rede toma forma também através dos congressos científicos. Hoje temos o Encontro Nacional de Pesquisadores e Produtores de Lúpulo (Enbralúpulo), realizado em Botucatu pela Unesp/FCA. Com várias palestras técnicas e apresentação de trabalhos científicos feitos por todas as universidades/institutos que pesquisam lúpulo, o evento é um grande encontro de debates e troca de experiências entre o campo, a academia e o mercado cervejeiro.

Embrapa, universidades, instituições de pesquisa e empresas privadas vêm desenvolvendo trabalhos que mostram justamente a complexidade dessa adaptação. Não existe, portanto, um único “protocolo” para produzir lúpulo no Brasil. As respostas podem variar de acordo com o material genético plantado, altitude, temperatura, disponibilidade hídrica, solo e sistema de manejo.

Para além de descobrir se é possível produzir lúpulo no Brasil, a pergunta que começa a orientar essa nova fase é outra: como produzir um lúpulo que traga rentabilidade ao produtor e, ao mesmo tempo, tenha qualidade, regularidade e características que interessem à indústria cervejeira?

É nesse ponto que a integração entre pesquisa, campo e mercado se torna fundamental. Para que o conhecimento produzido nos laboratórios se transforme em um “produto” real aplicado no campo, o produtor precisa deixar de ser apenas o usuário do pacote tecnológico de produção e passar a participar da construção desses conhecimentos.

É no campo do produtor que aparecem perguntas que, muitas vezes, não conseguem ser respondidas nas pesquisas realizadas nos campos experimentais, ou não são adaptáveis para a realidade específica daquele local.

Qual cultivar apresenta melhor desempenho naquela região? Qual sistema de condução funciona melhor? Qual é o custo real da minha produção? Como manejar a irrigação e adubação? Qual é o momento ideal para induzir a floração? Qual é o momento adequado para a colheita? Como secar e armazenar os cones preservando seus compostos de interesse?

Essas informações, quando organizadas e compartilhadas, também retornam para a pesquisa. Essa interface entre o campo e a pesquisa é feita pela extensão rural. Hoje existem alguns órgãos estaduais de extensão rural começando a trabalhar com o lúpulo nacional, buscando entender, junto ao produtor, qual é o manejo mais adequado de cada variedade naquela região.

Os consultores técnicos especializados no cultivo de lúpulo acabam fazendo esse papel extensionista de maneira intensiva ao trabalharem com diversos produtores e variedades em diferentes estados. Ao fazerem duas a três safras no ano em cada fazenda, acumulam uma experiência rápida em um curto tempo, podendo acompanhar 20, 40, até mais de 60 safras por ano. Outro ponto muito importante a ser trabalhado pelos consultores e extensionistas é a interlocução com os centros de pesquisa, trazendo os problemas enfrentados pelo campo para que sejam criados conhecimentos úteis que realmente vão ajudar o produtor a otimizar o seu processo produtivo.

Mas e o que a cervejaria precisa? Ela precisa conhecer o que aquele lúpulo entrega à cerveja. É necessário construir essa relação de confiança de que o seu produto tem qualidade e estabilidade de entrega.

Qual é o perfil químico do óleo essencial? Quais compostos aromáticos estão presentes no lúpulo e na cerveja feita com esse lúpulo? Como o armazenamento influencia sua qualidade? O perfil aromático permanece estável quando comparamos a safra de verão com a de inverno? O processo de peletização feito aqui faz o lúpulo perder mais qualidade do que lá fora? Esses pellets já possuem padrões químicos e físicos similares ao importado?

E, como nunca em nenhum processo de aprendizagem você chega a uma pergunta final, perguntamos também: quais estilos posso fazer com esse lúpulo e qual é a melhor forma de usá-lo no processo de fabricação da cerveja?

Alguns estudos brasileiros já começam a aproximar o campo do copo, avaliando características químicas, sensoriais e o desempenho de lúpulos nacionais em cervejas. Essa aproximação é essencial porque transforma uma discussão predominantemente agrícola em uma discussão também cervejeira.

Para isso, entretanto, será necessário conectar os dados agronômicos aos dados químicos e sensoriais e, finalmente, à percepção do consumidor. Temos uma enorme e diversificada cadeia que precisa conversar: o produtor precisa dizer quais são seus principais problemas e limitações, o pesquisador precisa transformar essas questões em experimentos e conhecimento, a indústria precisa apresentar quais características e padrões são importantes para suas cervejas e o mercado precisa indicar quais aromas, sabores e histórias despertam o interesse do consumidor.

Essa integração também pode ajudar a enfrentar um dos principais desafios do lúpulo brasileiro: a regularidade. Uma cervejaria precisa confiar que o produto comprado hoje terá características semelhantes às do próximo lote. Para isso, são necessários protocolos de produção, colheita, secagem, armazenamento, análise e classificação.

É um trabalho que nenhum elo da cadeia consegue fazer sozinho. O objetivo final não é simplesmente fazer o produtor produzir mais quilos de lúpulo por hectare, é produzir uma matéria-prima que tenha qualidade, identidade nacional, previsibilidade, estabilidade e mercado.

A criação de variedades brasileiras mais bem adaptadas às nossas condições de clima, solos, pragas e doenças e quantidade de horas de luz é um caminho essencial para desenvolvermos o lúpulo brasileiro.

Isso leva tempo, mas já se iniciaram os primeiros trabalhos. Um programa bem sucedido de melhoramento genético leva de oito a 10 anos para poder lançar uma nova variedade de lúpulo. Ou seja, em breve, vamos começar a cultivar variedades brasileiras que têm potencial de serem mais lucrativas para o produtor e continuarem entregando a qualidade que obtemos em todas as variedades gringas produzidas em solos brasileiros.

E ao invés de tentar reproduzir exatamente o perfil de um lúpulo produzido nos Estados Unidos, na Alemanha, na República Tcheca ou na Austrália, a pesquisa brasileira também pode ajudar a responder a uma outra pergunta: quais características sensoriais o lúpulo pode desenvolver quando produzido em determinada região do Brasil?

Diferenças de clima, solo, altitude, manejo, época de colheita podem influenciar a composição química e, consequentemente, as características sensoriais dos cones. Isso abre espaço para a construção de uma característica própria, o chamado “terroir” do lúpulo brasileiro, que ainda está sendo descoberto, mas pode se tornar um dos elementos de maior valor e diferenciação da cerveja artesanal brasileira.

 

Logo: Divulgação Aprolúpulo

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