Fermentando a web: Roberto Fonseca, da Colarinho

IMG_9021A coluna Colarinho, da Revista Menu, é apenas um dos tantos projetos que tem à sua frente o jornalista Roberto Fonseca. Mais conhecido, talvez, pelo Blog do B.O.B (BeersOn/Of/OutsideBrazil) — ativo até 2013 —, ele também escreve ocasionalmente para o blog Cerveja na Mesa, da Veja SP, e, anualmente, abre espaço às figuras do meio cervejeiro brasileiro, para que estas deem seu palpite sobre como foi o ano cervejeiro no país.

As latinhas do Bob

Fazendo uma retrospectiva da trajetória do Roberto no cenário brejeiro, voltamos à década do grunge, do Plano Real, do Super Nintendo, do ressurgimento das cervejas artesanais nos Estados Unidos, e da abertura do mercado brasileiro aos produtos importados. Enfim, foi nos anos 90 que o jornalista começou sua coleção de latinhas, muitas delas adquiridas em uma loja do Shopping Ibirapuera, em São Paulo, “com mais de uma centena de cervejas dos mais variados países” — número altíssimo para a época. Do hobby, mais tarde, em 2005, veio a vontade de criar um blog que contasse a história de cada item. Nasceu, então, o Latinhas do Bob.

No ano seguinte, durante suas férias, Roberto esbarrou em um site norte-americano chamado Beerme.com, que lista cervejarias do mundo todo. Ficou impressionado com a quantidade de fábricas e produtores brasileiros que aparecia por lá. Não teve dúvidas: escolheu logo o estado que mais tinha cervejarias, Santa Catarina, e partiu em uma trip cervejeira. Nessa viagem, conheceu Rupprecht Loeffler, da Canoinhense, uma das mais antigas em operação no Brasil. “Fiquei estupefato com o método de produção rústico e artesanal, no estrito sentido da palavra, que ele utilizava, bem como com o ambiente da cervejaria”, relata o jornalista.

De volta ao trabalho e cheio de histórias pra contar, Roberto, que à época atuava na editoria de Política do Jornal da Tarde, foi convidado por um colega a escrever para o então criado Paladar. Resultado: a matéria virou capa do caderno e Roberto passou a escrever sobre cerveja no jornal, isso, sem deixar o seu trabalho na editoria de Política de lado. “A jornada dupla rendeu situações como avaliar cervejas no meio da madrugada, para entregar o texto às 11h do dia seguinte”, conta.

 De dupla à tripla jornada

Ou quádrupla. Aparentemente, tocar apenas um projeto nunca foi a praia de Roberto. Durante uma cobertura e outra do cenário político e as avaliações para o Paladar, ele ainda criou, em 2009, o Blog do B.O.B (abrigado no portal do Estadão), no qual trazia novidades sobre o mercado cervejeiro, avaliava e eventualmente dava alguns pitacos sobre rótulos que degustava. No meio disso, ele iniciou a enquete Os Melhores (e piores) do Ano na Cerveja, realizada anualmente (à exceção de 2010). “A edição de 2015 contou com mais de 600 convidados, ou quase 20 vezes mais do que os participantes do primeiro levantamento”, contabiliza. Entre outros projetos, Roberto ainda escreve eventualmente no blog Cerveja na Mesa, da Veja SP, e mensalmente na Colarinho, coluna da Revista Menu.

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Impasses do meio cervejeiro: sexismo, preconceitos e “cultura nerd”

“Os principais cursos de formação cervejeira do país têm mulheres no comando – Amanda Reitenbach, Cilene Saorin e Kathia Zanatta. Contamos com cervejeiras bastante capacitadas – Katia Jorge, Carolina Okubo e Fernanda Ueno, por exemplo – e sommelières de cerveja bastante atuantes, como a Bia Amorim e a Carolina Oda”, pontua Roberto. No entanto, ele aponta como problemáticas algumas situações, como a baixa representatividade do público feminino em concursos cervejeiros — como no Mundial de Beer Sommeliers, no qual havia apenas uma mulher entre os competidores, a alemã Irina Zimmermann, que figurou entre os finalistas. Também, os tais clichês sexistas, que ainda encontram-se em rótulos e slogans cervejeiros, e alguns preconceitos arraigados, como o conhecido “cerveja para mulheres”.

Outro problema apontado por Roberto, que pode, inclusive, estar afastando o público feminino, é a cultura nerd, que destoa das despretensiosas conversas de bar. Em uma analogia com o futebol, ele explica: “Imagine que você gosta, tem seu time e, eventualmente, acompanha as partidas quando está de folga e quer relaxar. De repente, se vê numa conversa minuciosa sobre equipes de países distantes, jogadores obscuros e, mais ainda, estatísticas do futebol inglês, alemão, belga, quanto ele pesa, quanto correu em um jogo… Certamente há um público para isso; mas, para quem só gosta de ver a bola rolando, é extremamente chato. A chave é saber como apresentar ao espectador o que é um futebol bonito usando o conhecimento que esse espectador já possui, não necessariamente sobre futebol. Ou cerveja.”

Evoluir é preciso

 “O blog tradicional, como o conhecemos, está morrendo. O que não quer dizer que o blogueiro também esteja ‘apitando na curva'”

Antes que o leitor “olhe torto”, Roberto esclarece sua afirmação: “O formato conhecido – e manjado – de blogs, texto e foto, texto e foto, já foi superado há algum tempo por novos formatos e plataformas. O que falta no bloguismo cervejeiro – e em qualquer atividade que una informação e internet – é saber trabalhar com a informação.” E nesse quesito, destaca o Dois Dedos de Colarinho, do colega de ofício Marcio Beck, como um importante difusor da cultura cervejeira.

O jornalista afirma que o que aconteceu há quase uma década no Brasil, o surgimento dos primeiros blogueiros de cerveja, está ocorrendo agora em outras plataformas, como no Facebook, Instagram, no formato de podcast e canais de Youtube. “Os produtores desses conteúdos, apesar da diferença formal, têm muito em comum com os blogueiros. Todos eles surgiram pelo interesse crescente em cerveja e pela falta de espaço e conhecimento da mídia tradicional em satisfazer esse interesse.”

Drink local

Após passar um período estudando nos Estados Unidos, Roberto decidiu manter alguns hábitos adquiridos por lá, entre eles o de beber local. Desde que voltou, a maioria das cervejas que aprecia é nacional – e mais, on tap, fresquinhas. Além da qualidade da cerveja, que é preservada, “há uma economia de recursos considerável, poupando garrafas, tampinhas, rótulos, caixas etc.” Outro costume herdado da terra do tio Sam é o gosto por boas IPAs, com sabor e aroma pronunciados de lúpulo, “mas sem aquela aspereza de final de gole que dá vontade de lixar a língua para ver se passa”, brinca.

Cenário brasileiro e perspectivas

Apesar da situação econômica delicada na qual o país se encontra, Roberto confessa que ficou positivamente surpreso com o boom do mercado artesanal no último ano. Prova desse crescimento, segundo aponta, são os inúmeros produtores que estão surgindo, muitos deles ciganos, “o que mostra ser possível ao cervejeiro caseiro vender seu produto de forma legalizada”. Outra tendência que percebe é a das Sours, “e o que é melhor: com ingredientes brasileiros”. Expectativas? São altas, dado o número de bares especializados que estão sendo inaugurados e o consequente “salto qualitativo que se insinua no serviço de chope na capital paulista”.

Quanto aos acontecimentos cervejeiros dos últimos meses, Roberto destaca dois: a mobilização política dos cervejeiros, lutando pela inclusão das microcervejarias no Simples Nacional e contra o aumento do ICMS para cerveja – “um sinal de surgimento de maturidade da categoria”. E as negociações envolvendo micros artesanais e grandes grupos, não ficando restritas à Ambev adquirindo participação na Wäls (MG) ou na Colorado (SP): “no momento em que escrevo, surge a notícia de que a norte-americana Ballast Point deve ser comprada pela Constellation Brands, que produz a Negra Modelo e a Corona. Cervejarias de origem artesanal com ‘poder de fogo’ de grandes companhias na distribuição e propaganda devem agitar bastante o cenário dos pequenos produtores independentes. Resta saber como – e se – o consumidor vai diferenciar as duas situações”, finaliza.

 

Confira as entrevistas que fizemos com outros blogueiros: Gil Lebre, do A Perua da Cerveja; Raphael Rodrigues, do All Beers; Jaime Ojeda, do Con Espuma; Edson Paulo de Carvalho Junior, do Viajante Cervejeiro; e Amanda Henriques, da Maria Cevada.

 

 

 

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