New England Beer Calling: cerveja na Nova Inglaterra

Thiago Martini

Por Thiago Martini, beer sommelier, juiz BJCP, Certified Beer Server Cicerone e cervejeiro caseiro.

Thiago entra para o nosso time de colunistas online e falará mensalmente sobre a cena cervejeira da Nova Inglaterra, nos Estados Unidos.

São cerca de 5h de uma gelada tarde de sexta-feira na cidade de Cambridge, Massachusetts, quando chego ao meu destino, o brewpub da Lamplighter Brewing. Para minha surpresa, o ambiente está com as suas mesas todas ocupadas, na maioria por estudantes com os seus laptops, fones wireless e, obviamente, os seus pints. Também, diga-se de passagem, estou em um brewpub entre Harvard e o MIT, duas entre as cinco mais prestigiadas universidades do mundo, mas focado mesmo em conhecer aquelas cervejas.

Surgiu-me apenas um lugar ao balcão, bem de frente para as torneiras, e, atrás delas, está uma parede de vidro com o visual dos tanques da cervejaria. Melhor impossível. Vou logo pedindo a Double New England IPA da casa, simplesmente sensacional. Todos os meus movimentos a respeito de conhecer as excelentes cervejas da região nordeste americana me fazem refletir e aguçar a curiosidade a respeito de como surgiu essa vocação cervejeira.

E ela começou logo no primeiro navio atracado na baia de Massachussets em 1620, o famoso Mayflower, trazendo não somente imigrantes ingleses à procura de um mundo novo, mas também um porão cheio de barris de cerveja. Quer dizer, não estava mais cheio, pois a bebida estava acabando e tiveram que encurtar a viagem, aportando, assim, na região. Acabaram por descobrir um novo local e, a partir daquele momento, passaram a chamá-lo New England.

Uma das preocupações no processo de habitar era justamente a necessidade de se ter cerveja e logo construíram a primeira brewhouse. Era fonte de hidratação e alimentação para toda a família naquela época. Boston foi fundada em 1630 e, já em 1634, era concedida oficialmente a primeira licença para a comercialização de cerveja em taverns. Em todas as microrregiões da Nova Inglaterra foram surgindo mais e mais cervejarias.

Cervejas da Nova Inglaterra

Para se ter ideia da importância sociocultural da cerveja, em 1639, houve a primeira crise política dentro da recém-inaugurada Universidade de Harvard devido à falha no fornecimento da bebida aos estudantes, ocasionando, inclusive, na destituição do então reitor. Além disso, reza a lenda que John Harvard, o sujeito que cederia o seu nome à universidade, era um homebrewer e tinha planos de abrir uma cervejaria dentro do campus, o que acabou acontecendo em 1674.

No final do século XVII, operavam 27 taverns em Boston e, em 1680, foi instalado o primeiro sistema de barris e torneiras da cidade no Green Dragon Tavern. Aliás, neste local, inaugurado em 1657, entre as suas mesas e pints cheios de cerveja, planejaram-se diversas ações rebeldes contra a coroa britânica, dentre elas a mais famosa, o Boston Tea Party em 1773, protesto contra as altas taxas imposta pelo Reino Britânico às suas colônias. Um dos responsáveis por essas ações foi Samuel Adams, fundador de um grupo de  revolucionários conhecidos como Sons of Liberty.

Ele foi uma das figuras mais importantes da independência americana e frequentador assíduo do Green Dragon. Vinha de uma família cervejeira: o seu pai produzia e vendia malte para as cervejarias locais. Toda essa história vai culminar, no início dos anos 80 do século XX, na revolução da cerveja artesanal perante a grande indústria com o surgimento da Boston Beer. O cofundador, Jim Koch, confessa que resolveu batizar a sua cerveja com o nome de Samuel Adams para levar o sentimento de liberdade e independência acima de tudo.

Além disso, hoje, em Massachussets, você encontra um dos 12 mosteiros que produzem cerveja com selo trapista, sendo o único fora da Europa. Neste momento, estamos presenciando a revolução dentro do estilo mais difundido da escola americana, as American IPAs, com o surgimento da New England IPA criada pela The Alchemist Brewery em Vermont. John Kimmich, cofundador da cervejaria, começou a produzir uma cerveja “nebulosa” aproveitando o melhor que o lúpulo poderia oferecer sem sofrer com as perdas da filtração, dando um corpo aveludado e um amargor refinado, tornando a cerveja ainda mais aromática e juicy.

“Haze não é o objetivo, é um subproduto”, diz Kimmich. Como podemos ver, a cerveja faz parte da vida cotidiana deste povo, seja no passado, seja no presente, e sem dúvida continuará no futuro. Pelo visto, levam muito a sério a frase de Sam Adams: “Let no man thirst for good beer”. Grande abraço e boas cervejas!

Referências

Clark, Lauren; “Crafty Bastards: the history of beer in New Engalnd for Mayflower to modern
day” (Union Park Press, 2015)
Smith, Gregg; “Beer in America: the early years, 1587-1840: beer’s role in the settling of
America and the birth of a nation” (Boulder, Colo. Siris Books, 1998)
BeerAdvocate.com
Beerhistory.com
Hopculture.com

One Comment

  1. Baita Mestre! O mundo cervejeiro só tem a ganhar com o Martini (e aí já fica a sugestão de renome para Mr. Brewer Martini, se é que a combinação é possível, ficando desde já o desafio!)

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