Dia Internacional da Mulher — Presença feminina

Matéria produzida e escrita em 2015, na edição 15 da Revista da Cerveja.
Texto: Letícia Garcia

Participando ativamente deste momento da cena cervejeira artesanal, cervejeiras e beer sommeliers consolidam diariamente o espaço da mulher nas cozinhas de brassagem e nas mesas de degustação. O ambiente cervejeiro, predominantemente masculino, em seus primórdios era comandado por elas, que hoje reconquistam seu espaço.

Há indícios de que a cerveja tenha sido criada por mulheres. No distante período Neolítico (10-três mil anos a.C.), eram elas as responsáveis pela colheita e pela alimentação da família, e tudo indica que descobriram estes grãos que, fervidos com água, criavam a bebida. Quando a cerveja passou a ser produzida, há seis mil anos, eram elas as responsáveis. Fazer cerveja era cozinhar, pois tanto o pão quanto a cerveja eram alimentos. A mágica da fermentação também tinha seu apelo sobrenatural, e a divindade cervejeira entre os sumérios era também uma mulher, a deusa Ninkasi.

Com o avanço das organizações sociais, as habilidades femininas na produção da cerveja estenderam-se para além dos círculos familiares. As taberneiras vendiam suas cervejas nas estalagens que comandavam. Durante a Idade Média, os mosteiros passaram a fazer cerveja, e foi nesse período que a religiosa e pesquisadora Hildegard Von Bingen (1098-1179) descobriu as propriedades de conservação do lúpulo. Fora dos mosteiros, cervejeiras continuavam sendo a maioria: na Inglaterra do início do século XIII, há registros de que mais de 80% dos produtores eram mulheres.

Apenas no final do século XVIII a cerveja afastou-se de mãos femininas: com o avanço da industrialização, a cerveja saiu das casas e tabernas e foi para dentro das fábricas, lugar em que os homens comandavam os negócios.  Com essa mudança, também o público consumidor almejado pelas grandes indústrias passou a ser masculino – o uso da mulher objetificada e erotizada na publicidade cervejeira de massa é um exemplo, difundindo a mensagem de que cerveja é “coisa de homem” e afastando por muito tempo as mulheres tanto do mercado quanto do próprio consumo da cerveja.

Hoje, o cenário está mudando. Não são como os primórdios, em que a grande maioria da produção era feita por mulheres; nem são os tempos de Revolução Industrial, em que o mercado era comandado por homens. A convivência de profissionais de ambos os sexos pode ser percebida. Ainda existem ambientes em que a capacidade feminina é previamente subestimada, mas são cada vez mais raros. Felizmente, o que tem predominado é o respeito. Existem diversos exemplos de cervejeiras, sommeliers e profissionais do ramo que conquistaram seu lugar no mercado. Este dia da mulher, 8 de março, é um bom momento para distribuir, não rosas, mas reconhecimento pelo trabalho e competência das muitas mulheres que atuam no meio cervejeiro.

Aqui, uma breve homenagem a algumas delas, que fizeram e estão fazendo história na cena cervejeira nacional. Um brinde!

 Amanda Reitenbach – estudos de sommelieria

Foto: Ormond Imagens

Ela trabalha com a química da cerveja. Mestre-cervejeira e beer sommelier, é formada em Engenharia Química e de Alimentos e atualmente desenvolve em seu PhD um nariz eletrônico aplicado à cerveja, que iniciou na UFSC e está concluindo na VLB-Berlin. Em seus estudos, Amanda já desmistificou, por exemplo, a questão da diferença no paladar feminino e masculino.

“Pode-se afirmar que a mulher possui sensibilidade mais aguçada para detectar, identificar e associar aromas por efeito de mera exposição, mas a capacidade é inerente tanto ao homem quanto à mulher”, diz. “Assim, parece ser uma explicação mais razoável as diferenças impostas pela sociedade ao longo dos séculos, definindo papéis distintos para o homem e para a mulher e moldando condutas e hábitos que influenciam inclusive as preferências alimentares”, esclarece.

Muito além da diferença entre os sexos, o paladar está ligado a experiências individuais e fatores influenciados pela cultura, hábitos e elementos históricos. Além de estudar esta e outras questões, Amanda está diretamente envolvida com a educação cervejeira: fundou o instituto de ensino Science of Beer. “Hoje, graças ao avanço das mulheres, o mercado está bem dividido para ambos os sexos”, diz.

Cilene Saorin – conhecimento em prol da cerveja

Foto: Fernando Donasci

Com mais de 20 anos de experiência na área, Cilene é uma das referências no meio cervejeiro artesanal. Mestre-cervejeira formada pela Universidad Politécnica de Madrid/Escuela Superior de Cerveza y Malta e beer sommelier pela Doemens Akademie/Munique, ela já trabalhou na produção, desenvolvimento e pesquisa cervejeira.

Graduada em Engenharia de Alimentos com especialização em Marketing, sua fascinação por fermentados vem desde cedo. Em 1992, começou um estágio na antiga Skol-Caracu. “Existia um certo ‘senão’, de forma velada, pelo fato de ser mulher”, diz. Nada que a desmotivasse: em sua trajetória, passou por cervejarias como a Petrópolis e a Antarctica, até voltar-se à sommelieria, tornando-se especialista em degustação.

Hoje, leciona para o curso de formação de beer sommeliers na Escola Superior de Cerveza y Malta e no Siebel Institute of Technology e é diretora de educação da Doemens Akedemie no Brasil. Além de jurada em concursos como o World Beer Cup, assumiu a presidência da Associação Brasileira dos Profissionais em Cerveja e Malte (Cobracem).

Confece – Confraria Feminina de Cerveja

Foto: Divulgação

Tudo começou em 2007, após uma degustação de cervejas orientada por Cilene Saorin. “O encontro foi tão proveitoso que surgiu a ideia de torná-lo periódico”, contam Jaqueline Oliveira, Lígia de Matos e Ludmilla Fonttainha, três das 10 moças que compõem a Confece, primeira confraria feminina do país. De lá para cá, muitas degustações e estudos cervejeiros foram feitos, seja na cidade natal do grupo, Belo Horizonte/MG, ou em viagens pelo país.

O caminho de iniciação à cerveja artesanal para algumas mulheres pode começar pelas mais doces – Weiss, Wit, Fruit Beers – mas a partir daí, cada uma passa a experimentar mais e mais estilos. “A posição da mulher sempre foi relevante no universo cervejeiro, desde seus primórdios”, ressaltam. “Muitos dos profissionais mais respeitados no meio, nacional e internacionalmente, são mulheres e, a cada dia, novas apreciadoras, pesquisadoras, degustadoras, estudiosas, fabricantes e beer sommeliers surgem para ampliar a participação feminina no mercado cervejeiro”, finalizam.

Gerda Loeffler – tradição alemã

Foto: Ellen Colombo

Aos 90 anos, Gerda Stein Loeffler é a responsável por manter viva a Cervejaria Canoinhense, mais antiga microcervejaria do país ainda em funcionamento. Viúva do lendário mestre-cervejeiro Rupprecht Loeffler, D. Gerda mantém o legado do marido, acompanhada por funcionários que há muito tempo acompanham a produção.

Fundada em 1908 e adquirida pela família Loeffler em 1924, a cervejaria de Canoinhas/SC produz os rótulos Jahú, Malzbbier, Mocinha e Nó de Pinho seguindo as mesmas receitas e o mesmo maquinário desde os anos 20. Gerda já acompanhava Rupprecht na cervejaria, em especial na administração. “Sempre estive perto dele”, conta. “Achei que ele ia ficar triste se fechasse. Do jeito que ele deixou, eu estou continuando”.

E como é comandar a cervejaria mais antiga em funcionamento? “Às vezes é até divertido! Vem gente de todos os lados do Brasil para cá”, responde – pois a Canoinhense é uma atração na cidade. Bem-humorada e ativa, D. Gerda aprendeu na prática o dia a dia da cervejaria, e afirma: “a mulher, hoje em dia, também já está por dentro das coisas”.

Gerti Koch – um clube secreto

Foto: Divulgação

No final dos anos 90, Gerti se viu sozinha à frente do bar Água de Beber, quando o marido, Vitório Levandovski, precisou voltar-se a outros negócios. Foi então que ela começou a pesquisar sobre cerveja artesanal, especialmente para escolha dos rótulos, e pegou gosto. De lá para cá, o envolvimento com cerveja só aumentou – grupo de estudo cervejeiro e produção na panela entraram em sua vida.

Em 2005, fundou ao lado de Vitório o Bier Keller, com a proposta de ser um clube de cervejas. O espaço já atingiu uma “aura mítica”, destino de um seleto grupo de apreciadores e amigos do casal. Gerti vê hoje muitas mulheres em busca de cervejas diferenciadas – não só para acompanhar maridos e namorados, mas na busca por sabores e aromas, algumas chefs e gourmets pensando harmonizações e também muitas cervejeiras caseiras e sommeliers.

“A gente está quebrando algumas barreiras”, orgulha-se. “Estar inserida no mercado cervejeiro artesanal é fazer parte de um crescimento, e tem muito ainda para acontecer. Eu fico feliz de participar desta revolução cervejeira”.

Japas Cervejaria – unidas na produção

Foto: Divulgação

Elas se uniram para botar o pé na fábrica e criar suas próprias cervejas. A descendência japonesa ajudou a aproximá-las, assim como o inegável gosto pela bebida. As cinco japas que comandam a cervejaria vêm de diferentes ramos do meio artesanal: Carolina Oda é beer sommelier; Carolina Okubo é da Cervejaria Invicta (SP); Fernanda Ueno é cervejeira da Colorado (SP); Maíra Kimura é sócia e cervejeira da 2Cabeças (RJ) e Yumi Shimada é sommelier e designer.

Para elas, o fato de serem conhecidas no meio cervejeiro facilitou o nascimento da Japas, mas sentem que o mundo ainda é muito machista. “Temos que lidar com diversas situações constantemente. Já tem algumas frases e situações clássicas que incomodam, como, por exemplo, ouvir que tal cerveja é de mulherzinha. Porém, profissionalmente, entre os colegas cervejeiros, que trabalham com a gente, é difícil acontecer de não levarem em conta a nossa opinião pelo fato de sermos mulheres”, observam.

Algumas furadas clássicas já aconteceram com elas – como as pessoas considerarem que estão em eventos acompanhando namorados ou que os colegas homens são sempre seus chefes. “Algumas pessoas simplesmente assumem que, se é mulher, não deve ser a cervejeira, muito menos a dona da cervejaria!”, comentam. “Ainda bem que no mercado de cervejas especiais a relação mulher gostosa x cerveja ainda não é dominante – e tomara que nunca seja”.

Kathia Zanatta – oportunidades cervejeiras

Foto: Alfredo Ferreira

A paixão de Káthia Zanatta por cervejas começou na faculdade de Engenharia de Alimentos (Unicamp). Decidida a trabalhar no que gosta, foi para a Alemanha e entrou para a cervejaria Paulaner. “Quando comecei, há 10 anos, senti um certo preconceito inicial, mas nada que tenha me desestimulado”, diz. Voltando ao Brasil, ficou por cinco anos no Grupo Schincariol – e, durante este período, foi enviada novamente a terras germânicas para se formar beer sommelier na Doemens Akademie/Munique. Em 2011, tornou-se mestre-cervejeira pelo Siebel Institute/Chicago.

Para ela, a imagem da mulher como consumidora está mais do que estabelecida. “Como profissional, no universo da sommelieria, estamos aumentando o ‘contingente’ cada vez mais!”, diz. “Já no chão de fábrica, são mesmo poucas mulheres que se aventuram, mas acho que o preconceito masculino já era. É só mesmo uma profissão inusitada para muitas mulheres”.

Kátia Jorge – pioneirismo e inspiração

Foto: Fabrício Scalco

Kátia pode ser considerada a primeira mestre-cervejeira do país. Formada em Química (UFRJ e TU-Berlim/Alemanha), com mestrado em Bioquímica (UFRJ) e doutorado em Ciências de Alimentos (UFRJ e Universidade do Porto), ambas as especializações com foco em cervejaria, ela dedica-se à cerveja desde 1984.

Respeitada nacionalmente no meio, Kátia viu e ajudou muitas cervejarias em seus primeiros passos – participou na montagem das micros como Eisenbahn, Rasen e Wäls. Com anos de trabalho e estudos, ganhou experiência na área de consultoria técnica e financeira para assuntos relacionados à indústria de bebidas. Atualmente, Kátia é coordenadora acadêmica da Doemens Akademie no Brasil, vice-presidente da Associação Brasileira dos Profissionais em Cerveja e Malte (Cobracem) e gerente sensorial global associada na FlavorActiV.

Pink Boots Society – chegando ao Brasil

Foto: Divulgação

Em 2007, a mestra-cervejeira Teri Fahrendorf resolveu fazer uma viagem por cervejarias dos Estados Unidos. Até então, considerava-se uma das raras mulheres no ramo. Brassando e visitando fábricas, acabou conhecendo várias cervejeiras e sommeliers – que também não sabiam desta presença feminina no mercado.  “Criei a Pink Boots Society para que pudéssemos interagir umas com as outras e ter oportunidades de estudo para avançar na carreira profissional”, diz Teri.

A “sociedade das botas rosas” apóia profissionais cervejeiras, angariando fundos para distribuir bolsas de estudo na área e estabelecendo uma rede de trocas profissionais. A cofundadora da PBS diz que, em sua experiência, nunca enfrentou preconceitos. “Ninguém nos segura, exceto nós mesmas”, afirma. “Encontre um empregador que contrata pelo talento, não pelo sexo ou aparência”.

A cada 8 de março, organizam o International Women’s Collaboration Brew Day: cervejeiras do mundo são convidadas a uma produção colaborativa, num dia também de arrecadação de fundos para o programa de ensino. A PBS acaba de abrir uma filial no Brasil através da Backer (MG). Alessandra Iunes, gerente de negócios internacionais da cervejaria, é a embaixadora no Brasil. “Nós amamos cerveja, fazemos cerveja e somos boas em encorajar entusiasticamente outros para juntarem-se a nós nesta incrível jornada que chamamos de indústria cervejeira”, conclui Teri.

Tatiana Spogis – premiada

Foto: Fabrício Scalco

A designer gráfica voltou-se para o estudo de bebidas em 2009, no curso de Análise Sensorial da Unicamp. Especializou-se beer sommelier em 2010, na primeira turma da Doemens Akedemie/Senac-SP. Dos estudos passou a lecionar na instituição. É membro da Federação Internacional de Sommeliers de Cerveja, sócia-proprietária da Natural Design e gerente de marketing da Bier & Wein.

Tatiana ficou nacionalmente conhecida pela conquista, em 2013, do terceiro lugar no III Concurso Mundial de Beer Sommeliers da Doemens, título inédito no Brasil. “Só tem gente fera, de certa forma fiquei até constrangida”, contou Tatiana, na ocasião. “Nossa, você, como a terceira melhor sommelier do mundo… Você se considera isso?”, perguntou-se. “Não, me considero muito boa no que faço, com muito carinho e dedicação, mas acho que existe muita gente boa. Minha alma não é competitiva, é emotiva”.

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