Caropreso com cerveja – Cervejas para quem gosta de vinhos

Por Luiz Caropreso, sommelier de cervejas, professor pela Doemens Akademie e diretor da BeerBiz  — Cultura Cervejeira.

Boas, meu amigo cervejeiro.

Existe ainda muita gente que se diz avessa ao universo cervejeiro. A maioria por preconceito ou por desconhecimento. Digo isso por conta dos enófilos, amantes dos vinhos, que, ao invés de buscarem sabores que lhes agradem nos quase 150 estilos e inúmeros sub-estilos do fermentado de cereais, preferem olhar com desconfiança e fazer caretas para as possibilidades gastronômicas da cerveja.

Que me desculpem todos os pertencentes a esse grupo mas, para mim, isso não passa da mais absoluta ignorância. E posso dizer isso com muita propriedade, pois além de sommelier e docente na área cervejeira, sou sommelier de vinhos formado pelo Senac. Quero aqui indicar algumas cervejas que serviriam para uma iniciação àqueles que apreciam vinhos mas desconhecem nosso segmento.

 

Cerveja: Duchesse de Bourgogne

Cervejaria: Brouwerij Verhaeghe – Sint-Dierikserf 1, 8570 Anzegem, Bélgica

Estilo: Red Flandres / Oud Bruin / Oud Red Ale

ABV: 6,2%

Na minha opinião, as cervejas desse estilo são as que mais se aproximam das características mais apreciadas pelos amantes dos vinhos. Elas trazem alguns aspectos “vínicos” como madeira, aceto balsâmico, taninos nobres e acidez muito elegante. Apresentam uma coloração acastanhada e quando a luz reflete na taça, produz lindos feixes avermelhados.

Seus aromas e sabores permeiam uma paleta inusitada para a maioria das cervejas. Muitas vezes trazem frutas negras como cereja, ameixa e uvas passas e quase sempre sabores selvagens, como Brett, devido às bactérias e leveduras presentes nos tonéis de madeira onde fica maturando, às vezes por dois anos ou mais. Costumam-se também fazer blends de safras, misturando-se cervejas novas à envelhecidas.

Esse estilo se aperfeiçoa com a maturação. São cervejas que se beneficiam com o envelhecimento, em condições de luz, umidade e temperatura apropriadas a isso evidentemente. Harmonizam muito bem com carne suína e peixes de água doce como dourado e pintado, queijos de mofo branco bem maduros e queijos intensos como St. Paulin e Roquefort.

Imagem relacionadaCerveja: Orval

Cervejaria: Brasserie d’Orval – Abbaye Notre-Dame d’Orval, Gaume, Bélgica.

Estilo: Belgian Pale Ale

ABV: 6,9%

A cerveja Orval, dentre as trapistas, é a mais complexa e surpreendente, tanto em aromas quanto em sabores. Além do que, ela tem uma característica muito valorizada pelos enófilos: varia de safra para safra. Usando-se o mesmo processo e mesmos ingredientes, é nítida a diferença entre, por exemplo, um exemplar de 2018 e um de 2017. Aliás, aconselho entusiasticamente para quem puder, comprar exemplares de várias safras e fazer uma degustação vertical. Você vai se surpreender, tenho certeza.

Antes de ir para a comercialização, a Orval passa por um processo de maturação em que surgem os aromas e sabores mais marcantes, um equilíbrio entre dulçor e amargor e, muitas vezes, alguns sabores selvagens como couro. Curiosamente, a Orval nem é tão antiga, pois foi fabricada pela primeira vez em 1931. Suas características de sabores elegantes e selvagens harmonizam muito bem com assados de carne de caça, queijos fortes e doces rústicos, como a gaúcha chimia de frutas com uma fatia de queijo da colônia.

Cerveja: Bier Hoff Witbier

Cervejaria: Bier Hoff – Av. Sete de Setembro, 2775 – 1009 / 10 – Rebouças, Curitiba/PR

Estilo: Belgian Witbier

ABV: 5%

Witbier é um estilo que deve agradar a quem aprecia vinhos brancos frutados e bastante refrescantes. A Bier Hoff começa agradando pela garrafa de 750 mL que se assemelha ao vasilhame de um bom vinho ou espumante. Na aparência, veste a taça com um elegante amarelo claro, com espuma consistente e bem alva, mantendo um perlage que se assemelha a um balé borbulhante.

No nariz e boca, traz sabores cítricos, emprestados principalmente pela adição de casca de laranja Curação e pelas sementes de coentro que têm uma acidez que lembra limão. Dá pra traçar um paralelo entre a Bier Hoff Witbier e um vinho Chardonnay, guardadas as devidas proporções. Harmoniza com frutas frescas como uvas brancas, pêssegos, laranjas e tangerinas. Vai bem também com queijos suaves (mussarela de búfala e frescal) e petit fours doces ou salgados.

Cerveja: Bodebrown Blend Tripel Montfort Chardonnay Barrel

Cervejaria:  Bodebrown

Estilo: Wood and barrel-aged beer

Teor alcoólico: 18%

Esta preciosidade foi feita em edição especial para o Mondial de La Bière do Rio de 2015 mas se você conseguir encontrar uma garrafa, não hesite em adquirir. Trata-se de um blend, ou corte no jargão dos enófitos, composto por 65% de Tripel Montfort Chardonnay, 25% de 4 Blés Amburana e 10% de Double Perigosa.

Uma cerveja que traz os ésteres típicos de uma Tripel, com frutas amarelas principalmente, mais as características de madeira, emprestada pela amburana e o amargor intenso da Double Perigosa pra equilibrar.  É muito interessante que a gente consegue perceber notas suaves da uva Chardonnay, vindas dos barris de madeira que serviram para envelhecer esse vinho e que foram utilizados para maturar a Tripel Montfort Chardonnay.

Uma cerveja com essa complexidade vai se prestar a harmonizações igualmente complexas, mas deliciosas. Como o teor alcoólico é bem alto vice pode se arriscar com pratos untuosos pois o álcool dá conta de cortar a gordura e limpar o palato. Sugiro Confit de pato com aligot, guisado de javali com risoto de arroz negro e chips de bacon e um prato que me remete aos natais da minha infância, cabrito à caçadora com polenta rústica.

Você tem alguma dúvida ou sugestão?

Quer ver sua cerveja avaliada aqui? Entre em contato comigo através do e-mail luizcaro@gmail.com.

Até o mês que vem.

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