New England Beer Calling — A procura da New England IPA perfeita

Por Thiago Martini, beer sommelier, juiz BJCP, Certified Beer Server Cicerone e cervejeiro caseiro.

Na primeira vez em que visitei Boston, alguns anos atrás, estava curioso para conhecer as tão comentadas New England IPAs pelo simples fato de gostar muito das consagradas American IPAs e por já ter degustado interessantes versões de NE IPAs produzidas no Brasil. Agora, em 2019, com a oportunidade de morar aqui, estou conseguindo aprofundar o conhecimento sobre o estilo através das inúmeras versões disponíveis no mercado.

Na coluna do mês de junho escrevi sobre cinco excelentes cervejas deste estilo que são muito apreciadas na região. Em julho, a Zymurgy Magazine, revista editada pela American Homebrewers Association, divulgou a sua lista anual das melhores cervejarias e cervejas dos Estados Unidos, e não foi nenhuma surpresa que no estado de Massachusetts a melhor cervejaria foi a Tree House Brewing, e a melhor cerveja uma das suas New England IPAs, chamada Julius. No ranking nacional apareceu como a sexta melhor cervejaria, e a Julius como a décima segunda melhor cerveja. Além do mais, no site Beer Advocate a Tree House tem seis entre as 20 melhores cervejas avaliadas do país.

Eu já tinha ouvido falar muito bem das cervejas da Tree House, e da sua expertise em se tratando de New England IPA, mas só consegui aprecia-las em um dos raros eventos da cervejaria aqui em Boston, pois ela abre seu beer garden apenas três vezes ao ano, como comentei no meu último artigo. A oportunidade de ir a um desses eventos foi especial para constatar o porquê da sua fama. Como o tempo no evento foi curto e religiosamente controlado, fiquei ainda mais curioso para conhecer outros rótulos da sua grande família de IPAs turvas e aromáticas.

E com exceção desse evento, a única maneira de degusta-las é indo até a cervejaria, que fica a 80 km de Boston, pois só são vendidas lá. E isso tem um motivo: eles querem ter a certeza de que a cerveja vai chegar até o consumidor na melhor forma sensorial possível, pois se forem vendidas em pontos de vendas independentes, perderiam o controle de como estariam estocadas, podendo prejudicar a qualidade do produto.

Assim, peguei a estrada e chegando lá já se percebe que o cuidado não fica restrito a produção das cervejas. Embora o negócio exista desde 2011, as novas instalações foram inauguradas somente em 2017 e ficam em uma área com cerca de 1.500m², rodeado de muita natureza trazendo um ar rústico e muito agradável ao local. A cervejaria tem capacidade de produzir 60 mil barris por ano (na medida americana), que equivale a um pouco mais de 70 mil hectolitros. No mesmo espaço do galpão que acolhe os visitantes  cervejeiros, está à parte da produção, os tanques e a linha de envase.

Do mezanino onde se localiza o taproom, é possível ficar observando a movimentação de todo o processo produtivo. Aqui cabe uma observação: as latas não podem ser consumidas no local, são somente para levar. No dia da minha visita, as torneiras dispunham de 27 opções mais 14 envasadas em latas. Comprei cerveja que foi envasada no mesmo dia, algumas horas antes, tamanha é a preocupação de vender um produto o mais fresco possível, especialmente porque não são cervejas pasteurizadas, e o rico perfil aromático do lúpulo necessita que seja consumido o mais breve possível.

Como se diz por aqui – “to make the long story short” – as cervejas da Tree House são incríveis mesmo, fazendo jus a sua fama. Das doze versões de New England IPA que degustei seria injusto da minha parte apontar a melhor. Cada uma com seu perfil aromático e muito bem equilibradas, sendo que algumas chegam a 90 de IBU e mesmo assim com uma alta drinkability devido a compensação de um corpo um pouco mais denso, além do aspecto turvo já tão tradicional ao estilo.

Porém, apesar de muito, mas muito satisfeito com todas elas, no próximo mês irei atrás da primeira versão de New England IPA, a que deu origem a toda essa brincadeira. E para isso vou ter que me descolar até a The Alchemist Brewery no estado de Vermont em busca da Heady Topper. Aguardem…! Grande abraço e boas cervejas.

>> Confira a última coluna de Thiago Martini

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