Profissão Cerveja: estilo brasileiro

Por Fernanda Meybom, engenheira química, sommelier e Mestre em Estilos e Avaliação de cervejas.

O Brasil está evoluindo cada vez mais no mercado de cerveja artesanal, registrando a cada ano um crescimento exponencial das microcervejarias, como o ocorrido em 2017, quando​ de 493 micros no início do ano, saltou para 679 no final des​s​e mesmo período. Isso demonstra que o mercado cervejeiro brasileiro com produtos diferenciados, de aromas e sabores diversos, veio definitivamente para ficar.

No entanto, apesar da realidade da cerveja brasileira no mercado nacional e internacional, o Brasil ainda não tem, oficialmente, um estilo de cerveja para chamar de seu! A criação de um novo estilo de cerveja não é algo linear, claro ou que siga uma regra específica. Mas um estilo pode evoluir a partir de diferentes parâmetros como: cultura da região ou do país, tecnologia de produção, impostos e custos de matérias​-primas e produção, matérias-primas disponíveis, localização e até mesmo a preferência do consumidor.

Um tipo de cerveja com grande potencial de se tornar oficialmente o primeiro estilo de cerveja brasileiro é ​o​ Catharina Sour. Basicamente, a Catharina Sour é uma cerveja tipo ​Ale de trigo de intensidade média (4–6% ABV)​,​ que é acidificada antes da fervura (kettle-sour) e tem adição de frutas frescas.  

​O seu potencial como estilo se justifica, entre outras coisas, pelo fato da Catharina Sour ganhar cada vez mais destaque no mercado nacional, o que pode ser observado ​por meio dos dois maiores concursos de cervejas realizados no Brasil. Mesmo ainda não fazendo parte dos guias de estilos oficiais, es​s​e tipo de cerveja virou uma das opções de categorias para inscrição dos cervejeiros. Foram 19 cervejas inscritas na Copa Cerveja POA realizada em novembro de 2017 e 58 cervejas inscritas no Concurso Brasileiro de Cervejas realizado mês passado. ​Nesse último, a Catharina Sour da Cervejaria Istepô​,​ de Santa Catarina​,​ foi ganhadora na categoria The Best of Show Experimental, ​na qual competiu com cervejas de diversos outros estilos.

Além disso, os guias de estilos atuais não possibilitam o enquadramento adequado da Catharina Sour, como podemos observar a seguir:

  • No caso do BJCP 2015, as possibilidades são: 23A — Berliner Weisse, mas o estilo não permite o uso de frutas e a Catharina Sour é um pouco mais alcoólica ​do ​que a Berliner tradicional; 29A — Fruit Beer, estilo ​que ​não engloba cervejas ácidas​;​ e​,​ por fim, o mais recomendado dentre os estilos existentes​, 28C — Wild Specialty Beers, porém es​se estilo permite a inclusão de outros tipos de cervejas com características completamente diferentes da Catharina Sour, ou seja, seria um enquadramento bem genérico.
  • No caso do Brewers Association​ (BA)​ 2015, as possibilidades são: Berliner-Style Weisse que até admite a inserção de frutas​,​ mas limita a graduação alcoólica​,​ sendo no máximo 3,4% ABV ​(a Catharina Sour normalmente varia entre 4 e 6% ABV​)​; American Fruit Beer​ —​ a cerveja pode ser enquadrada nes​s​e estilo, porém os parâmetros de enquadramento são bem genéricos, podem ser incluídas ​Ales ou ​Lagers, além de estabelecer que cervejas que contenham trigo devam ser classificadas em Fruit Wheat Beer, ou seja, a Catharina Sour não se enquadra em Fruit Wheat Beer​,​ pois quando a base da cerveja é uma Berliner Weisse a recomendação é que ela deva ser enquadrada nes​sa categoria. Concluindo, a Catharina Sour corre risco de ser desclassificada numa avaliação em concurso em qualquer um destes estilos citados do BA.

A discussão sobre a criação do estilo de cerveja brasileiro apenas começou​. Mas uma coisa é certa, iniciamos​,​ de alguma forma,​ a história sobre cerveja artesanal no Brasil e​,​ de fato, a Catharina Sour já tem o seu capítulo garantido nes​se enredo, seja como o primeiro estilo oficial ou como o primeiro tipo de cerveja com grande potencial de criação de um estilo de cerveja brasileiro.

Minha opinião sobre a criação do estilo Catharina Sour, além do que já pontuei, segue nas palavras de Gordon Strong​,​ do BJCP​:​ se justifica “pois é um estilo popular disponível em várias cervejarias, é distribuído comercialmente e tem um forte seguimento local”​.​

E você, já provou uma Catharina Sour?

 

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