Um passeio pelo Velho Mundo — Do outro lado da cortina de ferro

Por Linus De Paoli, cervejeiro caseiro, Certified Cicerone®, engenheiro de desenvolvimento de veículos e guia etílico-turístico.

Dresden e Leipzig

Pois é, essas duas cidades geralmente não estão na maioria dos roteiros cervejeiros na Europa. Mas às vezes estão no roteiro turístico e como nem só de cerveja vive o homem (e a mulher) vamos falar um pouco delas.

Ambas ficam próximas a Berlin, na região que até 1990 era a Alemanha Oriental (DDR para os íntimos). Ambas foram amplamente destruídas pelos bombardeiros aliados em 1945. E ambas ainda estão buscando se reconstruir e se redefinir. Ou seja, se estiver visitando Berlim e estiver um pouco cansado da cena hipster moderninha metropolitana da cidade, fica a sugestão de pegar um trem e ir até Dresden, capital da Saxônia.

Um dia na cidade basta para ver o quão diferente ela é de qualquer cidade na Europa ocidental, do desenho das ruas às fachadas dos prédios, que misturam o clássico renascentista, a arquitetura monumental dos anos comunistas e o moderno do pós reunificação. Os pontos mais importantes para se visitar na cidade ficam no centro antigo, que aliás foi todo destruído nos bombardeios de 13 a 15 de fevereiro de 1945, quando os aliados despejaram mais de 3900 toneladas de dispositivos incendiários e explosivos na cidade.

Mas graças às maravilhas da reunificação e da reconstrução que ela trouxe, você poderá visitar a belíssima Frauenkirche, Semperoper, Residenzschloss e Schwinger e ver como eles eram em seus dias de glória. Infelizmente talvez pela guerra e talvez pelos anos comunistas não sobrou nenhuma grande tradição cervejeira única da cidade.

Fica então a opção de sentar em um dos restaurantes das cervejarias tradicionais de Munique (Hofbräuhaus, Paulaner, Augustiner) que se espalham pela cidade. Ou então beber uma Radeberger em qualquer buteco da cidade, afinal a cervejaria (que hoje é um dos grandes grupos cervejeiros da Alemanha) foi fundada ali pertinho na cidade de (tugudummmm tchiiiii) Radeberg.

No dia seguinte rumo a Leipzig, mas daí fica a seu critério que meios usar, o trem (ok), alugar um carro ou uma bicicleta para percorrer os cerca de 120 km que separam uma cidade da outra seguindo as margens do Rio Elba. Vale a pena principalmente se for um dia de sol. E se quiser encarar o trecho de bicicleta fique tranquilo que não tem muitas subidas. Já em Leipzig há menos pontos turísticos para visitar do que em Dresden.

No centro antigo ficam a Thomaskirche, Marktplatz, Alte Börse, a Hauptbahnhof (a maior da Europa) e a Ópera. Se curtir uns projetos arquitetônicos modernos, na praça da Ópera vai adorar o prédio da Universidade de Leipzig. Já um pouco fora do centro vale a pena visitar o Völkerschlachtdenkmal (Monumento da Batalha das Nações). Mas como o assunto aqui é cerveja o local mais importante para se visitar em Leipzig é a Bayerischer Bahnhof que é um moderno Brewpub instalado em uma antiga estação de trem (Bahnhof) de uma linha que ligava a cidade de Leipzig à Bavária.

E o melhor é que a especialidade da casa é o estilo Gose, além das ótimas Pils, Weizen e Schwarz ali produzidas. O estilo Gose surgiu na cidade de Goslar e acabou se difundindo também em Leipzig. Infelizmente este foi um dos que desapareceu no século 20 devido a popularização do estilo Pils. Por sorte este vem ressurgindo com o movimento craft no mundo todo, mas na minha opinião sempre com um exagero no sal deixando as cervejas difícil de serem bebidas.

Já o exemplar da Bayerischer Bahnhof é de longe a melhor cerveja Gose que já tomei até hoje. Sal e coentro sutis a ponto de somente complementar a cerveja, dar uma super refrescância e deixá-la super fácil de beber. E se estiver visitando a cidade durante os meses de Agosto e Setembro fique de olho nos arbustos da cidade, porque pode ser que, assim como minha mãe, você ache um pé de lúpulo cheio de cones para você colher e cheirar.

Depois dessa viagem pelo passado e de experimentar a melhor Gose do planeta você já vai poder voltar ao universo hipster moderninho da capital alemã ou quem sabe continuar sua viagem mais a sudoeste na Francônia e na Bavária.

>> Leia a última coluna de Linus de Paoli

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