Um passeio pelo Velho Mundo: o príncipe, a virgem e o fazendeiro

Linus

Por Linus De Paoli, cervejeiro caseiro, Certified Cicerone®, engenheiro de desenvolvimento de veículos
e guia etílico-turístico.

Linus entra para o nosso time de colunistas online e trará mensalmente um roteiro de cidades da Europa.

Título estranho, né? Parece nome de filme adulto, mas, na verdade, é referência a uma tradição de Colônia, na Alemanha, cidade que escolhi para morar. Segura aí que vou explicar de onde essa referência vem e o que tem a ver com cerveja. Primeiro me apresentando, afinal, apesar de ser famoso (insira sarcasmo aqui), nem todo mundo me conhece. Sou cervejeiro caseiro desde 2011, vivo o mundo das cervejas há muito mais tempo que isso e, desde 2015, moro na Alemanha.

Tudo começou em março de 2015, quando apareceu uma oportunidade de transferência na empresa que eu trabalhava no Brasil para cá, mais precisamente para a cidade de Colônia. Eu já sabia da tradição cervejeira da cidade e a sua cerveja Kölsch, e também sabia da sua tradição do carnaval. Mas não imaginava que iria me sentir tão em casa por aqui justamente por esses dois motivos.

A tradição do carnaval em Colônia, acho eu, influencia em muito o perfil da população da cidade, fazendo com que seja um pouco mais relaxada (no bom sentido) do que no restante da Alemanha. As pessoas, mais alegres e descontraídas, não se levam tão a sério e sabem curtir a vida um pouco mais. Basta frequentar a cidade no período do carnaval (e nos dois a três meses que o precedem — sim, o carnaval aqui dura três meses e meio) para perceber que o forte na cidade é realmente saber aproveitar a vida, se divertir e passar bons momentos com os amigos.Roteiro europeu

Essa atitude também se reflete na cultura cervejeira da cidade e no seu estilo de cerveja local, Kölsch. Afinal, Kölsch é uma cerveja leve, fácil de beber, para sentar com os amigos e esquecer do relógio. Nada mais apropriado para o carnaval. E o fato dos Köbes, garçons da cidade, trazerem um novo copo de Kölsch sem você ter esvaziado o anterior também reflete essa atitude (e o fato de eles quererem vender o máximo de cerveja possível).

Por isso, quando em Colônia, o melhor lugar para viver toda essa cultura (e não somente tomar a cerveja) são as Brauhäuser tradicionais no centro antigo da cidade. Mas, com tantas opções, como saber a quais ir depois de ter visitado a catedral (Dom) e deixado um cadeado na Hohenzollernbrücke? Basta perguntar a um local. E, na falta de um, pode ser eu mesmo. Os lugares que recomendo são Früh am Dom, Brauhaus Sion, Sünner im Walfisch, Brauerei zur Malzmühle e Päffgen (essa um pouco fora do centro antigo, mas a visita vale a pena).

Quando nesses locais, aproveite para comparar e admirar a variação entre as Kölsch, indo das mais leves, menos amargas e mais frutadas, as mais secas, neutras e amargas, até as mais maltadas e encorpadas. Observe o serviço tradicional das Kölsch sendo tirada direto dos barris por gravidade (em alguns casos, barris de madeira), direto para os pequenos copos de 200 mL nas suas “bandejas” únicas.

E quando o Köbe que te atender de repente for mal-educado ou mal-humorado, entenda que isso faz parte do personagem e pergunte se ele quer beber uma cerveja com você (diga “Drinkste eine met?”, em dialeto local) e não se espante quando ele aceitar.

A Früh am Dom (como o nome diz) fica praticamente à sombra da catedral. No local, você pode escolher entre sentar na Brauhaus no piso térreo ou ir ao Brauhaus Keller. No Keller (onde prefiro), você vai poder apreciar a Kölsch ali servida no antigo local onde essa era produzida, os lúpulos eram armazenados, a cerveja fermentava e, se tiver sorte, sentar ao redor do antigo poço de água da cervejaria.

Em seguida, siga a pé até a Brauhaus Sion e aproveite para conhecer a história da mais antiga Brauhaus da cidade ainda em funcionamento. E, depois de respirar fundo e imaginar como eram as pessoas que passavam por ali em 1318 quando o local começou a funcionar, agradeça a um dos antigos proprietários da cervejaria, Hans Sion, por ter salvo o estilo local da extinção na década de 1960.

Roteiro europeuContinue a pé pelas ruas do centro antigo, passando pelo Altermarkt até a Brauhaus Sünner im Walfisch. Uma bela casa do século XVII abriga essa Brauhaus, que serve a Kölsch feita do outro lado do rio pela cervejaria mais antiga de Kölsch de Colônia (e do MUNDO, TAM TAM TAM). Aliás, se tiver um tempo durante a sua estada na cidade, aproveite para fazer uma visita a esta cervejaria que fica no bairro de Kalk.

Continue o passeio passando pelo Heumarkt e se desloque até a Brauerei zur Malzmühle. Chegando ao lá, admire o pórtico de entrada do prédio que data do século XII (e única parte deste que ficou de pé depois dos bombardeios da 2ª Guerra) e imagine onde ficava o moinho de malte nas redondezas que deu nome à cervejaria. Já dentro dela, mate a sede com a mesma Kölsch que já matou a sede de muita gente famosa visitando a cidade, como Bill Clinton em 1999.

Depois, fica a seu critério, uma caminhada de 2 km ou uma viagem de metrô até a Friesenplatz te levam a Päffgen, que, junto com a zur Malzmühle, é uma das duas únicas cervejarias tradicionais de Colônia que ainda produzem a cerveja no local original dentro da Brauhaus.

Lá você foge um pouco dos ares turísticos do centro antigo e vai estar cercado por locais para apreciar a minha Kölsch favorita. Aproveite porque essa você só acha em alguns bares e restaurantes da cidade pois ela não é engarrafada. A vantagem é que a cerveja servida é sempre fresca. Agora você deve estar pensando: “E o que o príncipe, a virgem e o fazendeiro tem a ver com isso?”. Nada. E tudo.

O príncipe, a virgem (sempre representada por um homem) e o fazendeiro fazem parte da tríade do carnaval de Colônia. Assim como o Rei Momo é o soberano do carnaval no Brasil, a tríade, desde o século XIX, comanda o carnaval da cidade. Colônia, então, com uma cultura de carnaval característico, com uma cerveja leve, refrescante e fácil de beber e com um povo receptivo e de bem com a vida, se torna uma ótima cidade para visitar (e morar).

Fotos: Renata Ferreira De Paoli.

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