Um passeio pelo Velho Mundo — Uma velha cerveja em uma nova cidade

Por Linus De Paoli, cervejeiro caseiro, Certified Cicerone®, engenheiro de desenvolvimento de veículos e guia etílico-turístico.

Uma velha cerveja em uma nova cidade

ou

A vila na margem do rio

ou

A casa de um parente distante.

A cerca de 40km ao norte de Colônia, Alemanha, bem nas margens do Reno fica Düsseldorf. E por mais que os moradores de ambas as cidades neguem elas são muito mais parecidas do que diferentes.

Mas vamos falar primeiro das diferenças. Enquanto Colônia é uma cidade milenar, Düsseldorf é uma cidade jovem para os padrões europeus. Pasmem, não tem nem mil anos de idade. Carrega no seu nome sua origem. Antes de receber o status de cidade era apenas um pequeno povoado (dorf) de cerca de 200 habitantes às margens do rio Düssel.

Diferente de Colônia tem uma história cervejeira bem mais curta e sua cerveja não é limitada somente a cidade de Düsseldorf (e nem tem proteção de origem) mas pertence a toda região do Reno acima da  fronteira Kölsch-Alt Bier. Nela também houve mais aquisições das pequenas cervejarias por grandes grupos do que em Colônia, sobrando somente quatro cervejarias tradicionais independentes na cidade.

Apesar da história mais curta, a Alt Bier que tomamos hoje, enquanto estilo, é mais antiga (tugudum, tchiiiii), surgiu cerca de 100 anos antes da Kölsch moderna. E para conhecer de verdade essa cerveja você deve fazer 4 paradas obrigatórias na Altstadt de Düsseldorf. Primeira visita obrigatória fica na Oststraße 123, casa da cervejaria Schumacher, inventora do estilo Alt Bier como conhecemos hoje, maltada, amarga e de alta fermentação (a moda antiga).

Durante a visita aproveite para espiar o equipamento de produção que fica no local. Segunda parada obrigatória fica na Ratinger Straße 28, na cervejaria im Füchschen. Na casa da raposa, que funcionou como local de fabricação de materiais de guerra durante a 1ª grande guerra, nos dias ensolarados (e de jogo do Fortuna) a calçada e a rua ficam lotadas de gente se divertindo e bebendo cerveja. Sugestão: se misture a multidão e aprecie a cerveja produzida no local, um pouco mais amarga que a primeira.

Outra parada obrigatória fica na Bolkerstraße 47. Fácil de achar com sua chave gigante pendurada na fachada do prédio que também denuncia o nome do local, zum Schlüssel. A boa aqui é sentar próximo ao equipamento de produção para degustar a cerveja feita ali, uma das mais equilibradas na minha humilde opinião. A última parada obrigatória é talvez a mais famosa. A Uerige fica na Berger Straße 1 mas ocupa muito mais que só a esquina do quarteirão. Aqui fica a seu critério sentar no salão com vista para o equipamento de produção, no antigo Kneipe, ou se misturar com a multidão na área externa.

A famosa cerveja é talvez a mais seca e amarga da cidade. Se der sorte e estiver aqui em um dos 4 finais de semana por ano que tem visita na cervejaria não perca a chance. Nela vai conhecer além das áreas de produção e fermentação, o antigo (tugudum, tchiiiii) equipamento de resfriamento e aprender que coolship não é só para cervejas de fermentação espontânea.

A visita opcional é na cervejaria Kürzer, que fica na Kurze Straße 20. Uma cervejaria jovem mas independente e com uma ótima cerveja servida na forma tradicional mas em copos mais curtos (tugudum, tchiiiii) que o costume na cidade. E se achar algum bar ou restaurante que sirva Bolten Alt ou Ur-Alt, não deixe de experimentar a cerveja da cervejaria mais antiga de Alt Bier no mundo, fundada no século 13. Ou então se tiver tempo dê um pulo até Korschenbroich para visitar a cervejaria.

Agora vamos as similaridades. A cultura cervejeira, o serviço da cerveja e a atmosfera descontraída é quase a mesma que na cidade ao sul do rio. Os Köbes (que tem o mesmo nome que em Colônia) também trazem um copo depois do outro, mesmo sem ter pedido, da cerveja pouco carbonatada servida por gravidade direto do barril, onde o mais importante é a companhia dos amigos do que a cerveja em si.

Além da cultura cervejeira, os carnavais são muito similares com as mesmas figuras tradicionais (a tríade do carnaval) e os times de futebol igualmente ruins (sempre pulando entre a primeira e a segunda divisão da Bundesliga). E o parente distante? Esse morava em um distrito de Düsseldorf, também as margens do Düssel. Ele habitou a região até cerca de 28 mil anos atrás. Foi descoberto em 1864 e batizado como Homem de Neandertal.

>> Leia a última coluna de Linus de Paoli

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