Caropreso com Cerveja — Os bastidores e dilemas dos campeonatos cervejeiros

Por Luiz Caropreso, sommelier de cervejas, diretor da Beerbiz e consultor para cervejarias, especializado em campeonatos cervejeiros.

 

Olá, meus amigos cervejeiros!

Com a recente divulgação dos resultados do World Beer Awards, celebramos mais um ano de grande destaque para a cervejaria nacional. Foram títulos globais de World’s Best e dezenas de medalhas que escancaram a evolução técnica do mercado brasileiro. Mas, para além dos brindes, os concursos também trazem reflexões importantes sobre bastidores, estratégias e dilemas éticos do setor.

 

1. O papel e a seriedade do corpo de jurados

O coração de qualquer campeonato é a avaliação sensorial. O trabalho dos juízes — em sua grande maioria voluntários capacitados — é pautado por degustações estritamente às cegas, sem qualquer identificação de marca ou origem. Embora disparidades pontuais possam ocorrer, o formato em bancadas e consensos dilui distorções. É um sistema sério, rigoroso e que merece o nosso respeito.

 

2. Aprendizado técnico e valor comercial

No meu entender, os campeonatos cumprem dois papéis fundamentais:

• Pedagógico: a ficha de avaliação é um diagnóstico valioso para o cervejeiro ajustar receitas e processos.

• Estratégico: no ponto de venda (PDV), uma medalha em concursos de grande envergadura — como World Beer Cup, World Beer Awards e European Beer Star — chancela a qualidade, constrói reputação e converte reconhecimento em vendas. Além disso, a marca em questão passa a chamar atenção da comunidade cervejeira.

 

3. A precisão do enquadramento e os custos de participação

Inscrever uma cerveja exige estratégia de equipe. Um pequeno desalinhamento de cor, amargor ou teor alcoólico em relação aos guias de estilo (como BA ou BJCP) pode resultar em penalização ou desclassificação, independentemente da qualidade do líquido.

Além disso, a equação financeira é pesada. Entre taxas, logística e trâmites internacionais, a participação é um investimento alto. Por isso, na consultoria técnica que realizo com cervejarias (como na Cervejaria Ashby), o foco é cirúrgico: escolher as competições e os estilos certos para otimizar recursos e garantir retorno real.

 

4. A distorção no pódio: a “trinca de medalhas”

Um fenômeno incômodo vem ocorrendo em algumas premiações: uma única cervejaria arrematando ouro, prata e bronze na mesma categoria. Como já expus aqui, a lisura dos jurados e da forma como as amostras chegam aos juízes, totalmente às cegas, só consigo imaginar que parte das cervejarias inscreve três variações semelhantes (talvez fabricadas em microlotes) sob registros distintos do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa).

Se a avaliação é às cegas, há mérito no líquido. Porém, essa prática escancara um dilema:

• Organizações de mãos atadas: com formulários preenchidos e taxas pagas, o controle é difícil. Exigir comprovação de distribuição regular não basta, pois é inviável para concursos internacionais fiscalizarem em nível local.

• Faca de dois gumes no marketing: o que deveria ser celebração soa artificial para quem acompanha o setor, transmitindo uma imagem de que o número de prêmios é mais importante do que a excelência, fragilizando a representatividade do torneio.

 

5. O peso do prestígio

Vale notar que essa monopolização de pódios é muito mais rara em grandes competições como World Beer Cup, European Beer Star, World Beer Awards e Concurso Brasileiro de Cervejas de Blumenau — seja pelo custo elevado por amostra, por filtros das organizações ou pela maneira como as participantes encaram esses torneios.

 

Convite ao debate

Os campeonatos são pilares do nosso mercado, mas seu valor depende do fair play, da transparência e da pluralidade.

O que você pensa sobre esse cenário? Se quiser continuar essa conversa, envie um e-mail para luizcaro@gmail.com ou para a redação da Revista da Cerveja.

Um grande abraço e até a próxima!

 

Foto: Arquivo pessoal

As informações e opiniões emitidas pelos colunistas são de sua responsabilidade, não expressando, necessariamente, a opinião dos membros da equipe da Revista da Cerveja.

 

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