New England Beer Calling — Real Ale: tradição e inovação na Nova Inglaterra

Por Thiago Martini, beer sommelier, juiz BJCP, Certified Beer Server Cicerone e cervejeiro caseiro.

Primavera chegou e com ela abre-se a temporada de eventos cervejeiros em Boston e na região da Nova Inglaterra. As temperaturas negativas e a neve dão espaço ao florescer das árvores oportunizando a abertura dos biergardens nas cervejarias e brewpubs. Sair de casa para tomar uma cerveja fica ainda mais divertido. O calendário é cheio e tento me preparar da melhor forma.

Ainda no intenso inverno do mês de fevereiro, fui a um dos festivais mais tradicionais que ocorre anualmente em Boston, o Extreme Beer Fest. Com cerca de 130 cervejarias e mais de 500 cervejas disponíveis para degustação, tive a oportunidade de experimentar diversos estilos e suas variações, incluindo conhecer pessoalmente a famosa Utopias, e seu criador Jim Koch da Samuel Adams, e Sam Calagione e suas cervejas extremas da Dogfish Head. Foi uma bela demonstração do que me aguardava para o restante do ano.

Após um março com diversas visitas a cervejarias da região e pequenos eventos específicos de lançamento de algum ou outro rótulo, em abril surge outro grande evento cervejeiro na cidade, o NERAX, New England Real Ale eXhibition, o mais antigo festival de Real Ale in Cask Conditioned dos Estados Unidos.

Real Ale ou Cask Ale, tradicionalmente é uma cerveja de produção artesanal de fermentação de topo (licença poética para versões modernas de Lagers e Sours) e transferida para barril logo finalizada a primeira fermentação. Antigamente, se usava barril de madeira por ser a única forma de armazenamento, mas hoje em dia, é acondicionada em barril de inox, a menos que se queira dar alguma característica proveniente destes barris de madeira.

Esta transferência é realizada sem nenhum tipo de filtração, carregando uma carga de levedura e adicionando, neste momento, o priming (preparado de açúcar), para dar inicio a segunda fermentação (cask condicioned) a fim de criar carbonatação natural. Cerveja viva, sem pasteurização que vai se modificando a cada dia que passa.

Estocada e servida a 12°C (considerada temperatura de porão), esta temperatura permite que a levedura trabalhe a favor de uma maior complexidade sensorial. Além da temperatura, o serviço deve ser executado diretamente do barril onde foi realizada a segunda fermentação, através de algum tipo de mecanismo de bombeamento manual ou por gravidade. Preferencialmente ser consumida bem jovem, porém também é permitida uma maturação de longo prazo para estilos que possam se beneficiar desse processo.

Tudo para um resgate histórico do método de produção e serviço da cerveja de séculos atrás na Inglaterra e região, na qual a bebida era chamada apenas de Ale. Esse movimento de resgate surge em 1971 na própria Inglaterra através do CAMRA (Campaign for the Revitalisation of Real Ale) e desde então vem crescendo principalmente na Europa, e aqui na Nova Inglaterra não seria diferente. O NERAX é organizado pelo CASC (Cask-condicioned Ale Support Campaign), uma organização criada em 1997 aqui mesmo na Nova Inglaterra e faz parte como membro do CAMRA.

O evento deste ano contou com a participação de diversas cervejarias americanas e inglesas apresentando cerca de 100 rótulos entre cervejas e cidras, distribuídas em quatro dias de festival. Escolhi participar no sábado, quarto e último dia de evento, onde estavam disponíveis 46 opções (no quadro abaixo apresento as minhas escolhas) e três possíveis medidas de degustação: imperial pint (568 mL), half pint (284 mL) e quarter pint (142 mL), sendo que cervejas com mais de 10% de álcool somente na opção de quarter pint.

Após o evento, ficou claro a intensão dos organizadores pelo resgate da história da bebida com o objetivo de proporcionar uma experiência diferente do que temos em pubs e bares modernos. A consequência deste trabalho se traduz hoje em 85 locais, entre bares e restaurantes em toda a região da Nova Inglaterra, que serve Real Ale diariamente ou pelo menos uma vez por semana. O mais legal disso tudo é que se acabam misturando a tradição histórica da escola inglesa com a modernidade tão característica da escola americana. Uma perfeita simbiose entre tradição e inovação em prol da cultura cervejeira.

Cervejaria Nome Estilo Origem ABV
Dark Star Hophead English Pale Ale Sussex/UK 3,8%
May Ower Old Shcool ESB Plymouth/USA 5,5%
Wimbledon Quartermaine English IPA London/UK 5,8%
Connecticut Valley Strawberry Lemonade American Sour Windsor/USA 5,1%
Urban Farm Maple Wheat Wine Wheat Wine Portland/USA 8,5%
Harpoon Jameson Barrel Aged Irish Stout Boston/USA 9,5%

Grande abraço e boas cervejas!

>> Leia a última coluna de Thiago Martini

Leave a Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*